Salman Rushdie: de escritor exilado a celebridade

Condenado à morte por aiatolá iraniano, autor vira figurinha fácil na noite de Nova York

The New York Times |

Getty Images
O escritor Salman Rushdie durante a 8º Festa Literária Internacional de Paraty
Às 20h de uma terça-feira do mês de fevereiro, Salman Rushdie entrou no Junoon, um restaurante localizado no distrito de Manhattan, onde 90 pessoas aguardavam a sua chegada. Rushdie, o autor britânico nascido na Índia, era o convidado de honra de um jantar promovido pela Dom Perignon e pela Booktrack, a fabricante de um aplicativo que sincroniza música com eBooks.

Esta foi a segunda festa em homenagem a Rushdie, 64, naquela semana. Antes de sua chegada, ele conversou com Diane Von Furstenberg em uma exposição do artista Ouattara Watts, cujo anfitrião era Vladimir Restoin Roitfeld, um de seus galeristas.

Siga o iG Cultura no Twitter

No Junoon, após ter comido berinjela com cordeiro, Rushdie pegou um iPad e começou a ler em voz alta seu conto "No Sul", que foi publicado na revista The New Yorker em 2009 e para o qual a Booktrack criou uma trilha sonora original tocada pela Orquestra Sinfônica da Nova Zelândia. Depois que terminou a leitura, Rushdie se aproximou de uma mulher morena sentada na ponta de uma longa mesa. "Como me saí?" Rushdie perguntou. Ela ficou estática durante a recitação e ele a agradeceu por ter vindo. Quando ele deixou o restaurante, ela virou-se para um dos convidados presentes e disse: "É bom vê-lo por aí, não é?".

Talvez uma pergunta mais apropriada seria: onde é que os nova-iorquinos não têm visto Rushdie ultimamente?

Getty Images
Salma Rushdie em evento em outubro de 2009
Quase 25 anos após a publicação de "Os Versos Satânicos", que fez com que Rushdie tivesse que se esconder durante mais de uma década depois que o aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini condenou o romance e emitiu um pedido por sua morte, Rushdie tem se tornado uma presença incansável nas noites de Nova York.

Na verdade, Rushdie, autor de 16 livros que viveu durante 12 anos perto da Union Square, começou a escrever um roteiro para uma série que será veiculada na emissora Showtime e que terá como base a cidade de Nova York contemporânea. "Eu acho que ele gosta do ritmo veloz de Nova York", disse David Nevins, presidente da Showtime. "Ele gosta da diversidade da cidade e de sua personalidade".

Leia também: Palestra de Rushdie é cancelada após ameaças de morte

Rushdie inicialmente concordou em ser entrevistado para este artigo, mas Barbara Fillon, diretora adjunta de publicidade da Random House, que deverá publicar suas memórias ainda neste ano, disse mais tarde em um e-mail que ele não estaria disponível.

Getty Images
O escritor Norman Mailer, morto em 2007
Rushdie não é o primeiro autor famoso a deleitar-se na vida noturna da cidade. De Truman Capote nos anos 1950 e 1960 a Norman Mailer nos anos 1970 e 1980, misturar-se com membros da alta sociedade da cidade tem feito parte da vida das celebridades literárias.

Mas a presença de Rushdie é notável não apenas porque desrespeita o decreto de morte contra ele, mas também porque ocorre justamente em um momento em que muitos dos escritores mais bem-sucedidos de Nova York parecem levar uma vida de tranquilidade doméstica no Brooklyn .

"Os dias do escritor como personagem público estão contados", disse Mort Janklow, um agente literário veterano. "Os escritores estão mais profissionais.Você não ouve grandes notícias sobre eles. Você não vê os escritores mais prolíficos saindo por aí."

Como Mailer, que teve seis mulheres, Rushdie, que se casou quatro vezes, mais recentemente com a apresentadora do programa "Top Chef" Padma Lakshmi, de quem se divorciou em 2007, desenvolveu uma reputação como um mulherengo. "Sempre que você o vê ele está com duas ou três mulheres bonitas", disse Graydon Carter, um amigo e editor chefe da revista Vanity Fair.

Diferentemente de muitos outros intelectuais de sua geração que confinam seu uso da Internet a seu próprio site, Rushdie tem abraçado as mídias sociais com o mesmo vigor que um adolescente, acumulando mais de 246.000 seguidores no Twitter, criando uma conta no Tumblr onde às vezes publica algumas de suas ideias e demonstrando uma dedicação em sua utilização do Facebook que fez com que iniciasse uma discussão com a companhia quando ela insistiu que usasse seu nome completo, Ahmed Rushdie em seu perfil. (Rushdie prevaleceu.)

Frâncio de Holanda
Salman Rushdie e o filho, Milan, em Paraty
Ainda assim, ele parece esperar uma certa civilidade por parte de seus seguidores. Rushdie bloqueou um seguidor do seu Twitter no mês passado após ele ter feito um comentário rude a respeito da leitura que havia feito de um dos livros na escola. "Descortesia não será tolerada aqui", ecsreveu Rushdie em um tweet. "Seus pais precisam te ensinar bons modos."

Para Rushdie, essas plataformas não são apenas novas formas de mostrar seus talentos, mas oferecem uma espécie de libertação, disseram seus amigos. "Ele fala sobre a possibilidade de renascer digitalmente", disse Bahri. Quando Rushdie foi questionado a respeito de seu interesse nas mídias sociais no Junoon em fevereiro, ele disse: "Eu gosto de atingir um novo público. O diálogo que temos é revigorante."

Mas Rushdie ainda tem mais peso como autor. "Não é fácil ser um bom escritor e uma figura sociável o tempo todo", disse seu agente.

O autor ainda é muito requisitado para falar em conferências. Em janeiro, ele cancelou uma viagem à Índia onde iria falar no Festival de Literatura de Jaipur por potenciais ameaças a sua segurança. Mas Rushdie voltou à Índia este mês para participar do India Today Conclave em Nova Délhi. Além disso, o livro de suas memórias está sendo aguardado com ansiedade pois ele deve narrar seus anos vivendo na clandestinidade após a sua sentença de morte.

Brooke Geahan, vice-presidente de publicação para a Booktrack, conheceu Rushdie há sete anos em uma de suas leituras de poesia. Geahan, que já foi anfitrião de muitas festas para escritores, solicitou ao autor que lhe permitisse utilizar uma de suas histórias no Booktrack e, mais tarde, pediu-lhe para fazer uma leitura no Junoon. "Ele é muito generoso", disse Geahan.

Leia também: Salman Rushdie escreve livro sobre anos em que viveu escondido

Os executivos da Booktrack disseram esperar que a participação de Rushdie (e a publicidade gerada em torno dela) atrai outros conceituados autores contemporâneos, até agora, o site oferece apenas 14 títulos.

Isso não pareceu importar no Junoon, onde os convidados deram suas felicitações e aplaudiram Rushdie, perguntando onde e quando poderiam acompanhar outra leitura sua.

Rushdie ficou muito contente. Ele foi um dos últimos a deixar o local.

    Leia tudo sobre: Salman Rushdielivroliteratura

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG