Quadrinhos "mudos" de Rafael Sica vão da internet ao livro

Cartunista lança "Ordinário" e conversa com o iG sobre a ausência de balões de diálogo em seu trabalho

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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Capa de "Ordinário", de Rafael Sica
Com o espaço restrito dos veículos de comunicação tradicionais, muitos artistas passaram a utilizar a internet para divulgar seus trabalhos. Criado em 2007 pelo ilustrador gaúcho Rafael Sica, o blog Ordinário surgiu como um portfólio virtual que se transformou quase inteiramente num site de tirinhas. "Foi uma maneira mais fácil de mostrar o que eu fazia. No começo, tinha um pouco de tudo. As tirinhas foram surgindo aos poucos, era uma coisa que já havia feito antes, parei por um tempo e depois retomei", explica.

Agora, "Ordinário" ultrapassa a internet para ganhar as livrarias em formato de livro. Lançado pela Companhia das Letras, a obra conta com 115 tirinhas selecionadas pelo autor com parceria de André Conti, editor da Quadrinhos na Cia.

O grande diferencial do trabalho do cartunista, além de seu traço característico, é a ausência de balões em seus quadrinhos, recurso aos poucos abandonado por ele - assim como as cores, que no início eram utilizadas de maneira pontual.

"Foi acontecendo aos poucos, uma transformação natural. Fui deixando cada vez menos espaço para o texto e percebi que, sem as palavras, a tirinha ficava mais sugestiva, mais aberta. Até que resolvi parar. Com texto o trabalho fica mais direto, parece um discurso", comenta Sica.

Por causa disso, as tirinhas publicadas no blog acabaram ganhando um complemento por parte dos leitores, que passaram a usar os comentários para compartilhar suas impressões sobre o que viram. Tentam, muitas vezes, adivinhar qual mensagem o cartunista quis transmitir - algo que, de acordo com ele, nem sempre existe.

"As tirinhas não têm um discurso em si, elas talvez levantem uma questão para discussão. Mas essa é uma parte engraçada do blog. Acho interessante observar o ponto que um cara encontrou e até aquele que não encontrou nenhum - mas não interfiro, não julgo os comentários dos leitores", garante ele.

Quando questionado sobre a periodicidade das publicações, que às vezes chega a um mês sem novidades, Sica defende a não obrigatoriedade de criar uma tira diária como garantia de qualidade de seu trabalho. "É ruim fazer tiras todos os dias. Quando parei de publicar em jornal [Sica trabalhou para os jornais "Diário Gaúcho" e "Brasil Econômico"], acabei optando por publicar só quando estou com vontade. Acaba ficando meio cansativo fazer um trabalho que poderia ser algo melhor".

Sobre o livro de Sica, André Conti diz: "Foi bem divertido fazer a seleção. Sentamos numa sala de reunião juntos e fomos cortando as tiras de um universo de 800. Nesses cortes, foram surgindo os critérios, como tirar as piadas mais fáceis, as mensagens sociais mais óbvias... Mas não havia nenhum critério espartano".

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Duas tirinhas da autoria de Rafael Sica: pedintes nas calçadas e um susto nos leitores
Apesar de o material presente no livro estar disponível para leitura no blog do cartunista, o editor defendeu seu lançamento em papel usando como exemplo a obra do poeta Vinicius de Moraes, que pode ser acessada em sua totalidade na internet.

"No livro, você consegue criar uma ordem que não a cronológica, ligando os temas editorialmente em suas páginas, como acontece, por exemplo, com 'Poemas Esparsos' ou 'As Coisas do Alto', de Vinicius de Moraes, em que uma série de poesias dispersas foi colocada num objeto fechado, que tem uma unidade e impõe ao leitor um ritmo de leitura diferente", explica.

"Citei o Vinicius porque acho que o trabalho do Rafael tem relação com poesia, embora ele fique puto com isso (risos). Um cara falou que as tiras eram poéticas e ele quase morreu!", recorda Conti.

Feliz com o resultado, Sica se prepara para lançar outro trabalho em papel, o livro "Freakinique", projeto do site Ideafixa que ele divide com outros ilustradores e deve chegar às livrarias em abril.

"É muito interessante ver o trabalho em outro formato. Com o papel a pessoa tem mais tempo, pode voltar, ver de novo... Ele privilegia a leitura da imagem. Na internet tem essa coisa da pressa, no livro é uma experiência legal de ver".

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