Patti Smith escreve memórias com beleza ímpar em "Só Garotos"

Cantora cumpre promessa e relata convívio com o fotógrafo Robert Mapplethorpe nas ruas da Nova York de Andy Warhol e ressaca beat

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial do iG Cultura |

Divulgação
Patti Smith e Robert Mapplethorpe: cumplicidade e autodescobrimento no livro recém-lançado no Brasil
Quando se conheceram, em 1967, Patti Smith e Robert Mapplethorpe tinham 21 anos cada e a certeza de que eram artistas, mas estavam perdidos sobre o que fazer de suas vidas e como se tornar o que queriam ser. Grudaram um no outro, passaram a viver como siameses. Patti desenhava e queria ser poeta – Robert a instigava a cantar. Robert desenhava, pintava, fazia colagens e flertava com moda – Patti insistia para que ele fotografasse.

A história de suas juventudes em comum é contada por Patti Smith no pungente livro de memórias "Just Kids", vertido para o português sob o título algo enganoso de "Só Garotos" (Companhia das Letras, 280 páginas, R$ 39). A ambiguidade da versão brasileira decorre provavelmente do fato de que, ao longo da jornada, o casal de namorados descobriria que ambos gostavam de garotos (ou melhor, de homens).

A narrativa mostra delicadamente como a descoberta da identidade artística de cada um deles correspondia, no tempo e no espaço, à descoberta de suas identidades sexuais e pessoais. No intervalo de uma década, ela teria se tornado Patti Smith, a mais original cantora e compositora do pop-rock norte-americano, uma antecipadora engajada das cenas punk e new wave. Ele, por sua vez, viraria Robert Mapplethorpe, o fotógrafo que faria do próprio corpo um campo de experimentação para libertar sua sexualidade e extravasar suas muitas angústias sexuais.

Divulgação
Patti descreve de modo transparente como a expressão sexual em suas juventudes não estava livre de amarras, convenções e preconceitos, mesmo que eles tivessem assistido de longe à revolução hippie, vivessem em Nova York e gravitassem feito patinhos feios noviços na órbita de Andy Warhol e seu séquito pansexual. “Nada em minha experiência me habilitara para aquilo. Senti como se houvesse falhado com ele. Achava que um homem virava homossexual quando não havia encontrado uma mulher que o salvasse”, ela escreve, na descrição da descoberta sobre a orientação sexual do parceiro.

As passagens saborosas constituem praticamente a totalidade de "Só Garotos". Sobre a obsessão por integrar a trupe de Warhol, que se reunia no bar-restaurante Max’s Kansas City, a autora afeta desinteresse e certa aversão pelo papa da pop art, atribuindo a Robert o desejo de se integrar ao grupo. Não economiza descrições sobre aquele microcosmo, no entanto. E as páginas passam, e ela acaba por confessar, assim casualmente, a admiração e a atração que também devia sentir por Warhol.

É mais caudalosa ao narrar o fascínio pelo Chelsea Hotel, onde o casal foi morar, lado a lado com os fantasmas de Dylan Thomas, Oscar Wilde e inúmeros outros (a obsessão da jovem Patti pela morte aparece de modo recorrente). Igual entusiasmo ela confessa pela circulação de músicos que acompanhou feito caçula menosprezada e ainda inconsciente da própria musicalidade – o que inclui a presença intermitente de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Grace Slick (da banda Jefferson Airplane), Todd Rundgren e o Velvet Underground de Lou Reed, bem como a memória ainda morna da estadia de Bob Dylan.

O convívio circunstancial com Janis é analisado num trecho de poesia suculenta cantada em prosa: “Estive presente nesses momentos, mas era tão jovem e preocupada com meus próprios pensamentos que mal os reconheci como momentos”. Logo adiante, Janis estaria morta, e Patti a reencarnaria numa versão menos popular, mas ainda mais áspera e altiva.

É tão chocante como tocante a descrição da artista sobre a experiência de morar nas ruas quando da chegada a Nova York e, mais adiante, sobre a fome, realidade cotidiana para o casal até, pelo menos, os primeiros anos da década de 1970. “Eu estava sempre faminta. Meu metabolismo era muito rápido. Robert conseguia ficar sem comer muito mais tempo do que eu. Se estávamos sem dinheiro, a gente simplesmente não comia. Robert ainda conseguia funcionar, embora ficasse um pouco agitado, mas eu parecia que ia desmaiar”, conta, para introduzir a célebre história de seu primeiro encontro com Allen Ginsberg.

Divulgação
Patti Smith clicada por Mapplethorpe em 1976
Deparando-se com a menina magrela e esfomeada diante de um sanduíche, o poeta beat lhe ofereceu 10 centavos para completar as moedas insuficientes, e sentaram-se juntos para comer. “’Você é menina?’, perguntou. ‘Sou’, falei. ‘Algum problema?’ Ele só deu risada. ‘Desculpe. Achei que você fosse um menino bonito.’ Então entendi tudo. ‘Bem, isso quer dizer que devo devolver o sanduíche?’ ‘Não, aproveite. O engano foi meu.’” Patti é mais pudica ao tratar da própria sexualidade, mas historietas como essa evidenciam que também a androginia era qualidade compartilhada com Robert.

Conta, por exemplo, dos bicos que o amigo-namorado fazia para pagar as necessidades básicas, num arco que ia de carregar pianos a se prostituir na rua 42, enquanto ela gastava os dias em empregos mais comportados e regulares, mas igualmente subalternos. Sobre si própria, relata a raiva que sentiu quando um integrante da Factory zombou de seus cabelos, comparando-os com os de Joan Baez e perguntando se ela era cantora de folk. Ato contínuo, repicou os cabelos à moda dos de Keith Richards – e ganhou passaporte imediato e indesejado (segundo conta) para os círculos warholianos.

Robert morreria em 1989, em decorrência da Aids. "Só Garotos", ou melhor, "Just Kids" é cumprimento de uma promessa que Patti fez a Robert, pouco antes de ele morrer, de que um dia contaria num livro a história conjunta de ambos. Embora suas vidas tenham deslizado para rumos diversos a partir da fixação das respectivas identidades, a proximidade de gêmeos persistiu até a morte dele. Patti Smith demorou 21 anos para cumprir a promessa feita ao amigo, mas parece ter usado toda a beleza que conhece para concretizá-la.

    Leia tudo sobre: patti smithRobert Mapplethorpenova yorksó garotos

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG