O processo complexo de conhecer alguém

¿Um Erro Emocional¿ é o novo romance de Cristovão Tezza, autor do premiadíssimo ¿O Filho Eterno¿

Ana Lúcia Ribeiro, iG São Paulo |

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Cristovão Tezza: jogo dos relacionamentos
Há um universo para ser desvendado no segundo encontro de um homem e uma mulher quando ele sai do primeiro contato com a aflição de ter se apaixonado – o seu erro emocional – , e ela sem saber se a admiração que sente pelo grande escritor pode se transferir para o homem que acabara de conhecer.

Quando ele aparece para o compromisso do dia seguinte e, antes mesmo de dizer boa noite, atira: “Me apaixonei por você”, ali, naquele momento, eles já não são mais apenas um escritor que precisa da ajuda da leitora especial para rever seus originais, e sim um homem e uma mulher, que, como se alertados por um vento que entrasse de repente pela fresta da porta, se percebem como um território a ser explorado.

Autor de “Um Erro Cmocional”, o catarinense radicado em Curitiba Cristovão Tezza aposta que nenhuma mulher, “da rainha da Inglaterra à caixa do supermercado”, fica indiferente ao choque de ouvir um homem declarar que está apaixonado. Esta é a senha para o início do jogo, da definição de novos pesos e medidas, do dimensionamento dos papéis que aquele homem e aquela mulher podem representar um na história do outro.

Paulo é um mistério para Beatriz, que contudo ama os seus escritos; Beatriz é um enigma para Paulo, que no entanto está apaixonado por ela. Ele é um homem difícil, não exatamente bonito, atraente – ela pensa, constatando a distância entre a palavra escrita e aquele ser de carne e osso diante dela. Ela é uma mulher bonita que não tem certeza de sua beleza, o que confere a ela um “sobretom de beleza”, ele analisa.
Entre copos de vinho e um texto manuscrito – é assim que Paulo escreve –, eles falam e calam, sorriem e encabulam, revelam e sonegam informações, e é assim, entre silêncios inibidos e silêncios intencionais, entre resíduos e mal-entendidos, entre lembranças e esquecimentos, que um e outro vão entrevendo as sombras, a solidão e o desencontro, as preferências que podem ser diferentes, ou iguais, na literatura e na vida.

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Nome: “Um erro emocional” (Record, 191 páginas)
Autor: Cristóvão Tezza
Preço: R$ 34,90

Velocidade de leitura: Média. Não é um livro para ler correndo, e sim saboreando as construções e participando da sensação instigante de ir conhecendo alguém pela soma dos atos e dos fatos que vão sendo revelados ao longo da conversa dos protagonistas.

Por que ler: Se você ainda não leu algum livro de Cristóvão Tezza, para suprir essa falha. Se já, você sabe: para usufruir do estilo de um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos. O mundo de Tezza, e as falas de seus personagens, conduzem o leitor pela riqueza e complexidade das situações e das pessoas, o abismo que há entre o que se vê e o que há para ser visto, entre o que se diz e o que pode ser ouvido.

Trecho: “– Melhor deixar nossos cônjuges em paz, você não acha? – ela decidiu, sempre sorrindo. – Para apreciar melhor nossa pizza. Espero que esteja boa. Por favor, sirva-se.
– Cheirosa, está – e ele ofereceu a ela a primeira fatia, imaginando como deveria interpretar o que ela dizia. Pelo melhor ângulo, decidiu – o passado estava morto, a vida sempre começa hoje. Mas o espírito de porco – e ele sorriu da própria imagem, cortando o primeiro pedaço – conspirava contra ele: nada começa hoje, nem quando nascemos. Esqueça a ideia de recomeço: não existe. Eu sou eu mais esse comboio desconjuntado de tralhas mentais que arrasto comigo, e, de repente satisfeito com o seu duro destino, imaginou-se dizendo isso em gestos largos como quem recita um poema espontâneo, dos populares – mas interrompeu a máquina de pensar para sentir na língua e nos dentes a consistência da pizza, o aroma e o sabor, a fome saciando-se diante de uma mulher bonita que agora fazia o mesmo que ele e sorria, também sentindo o queijo, o detalhe do tomate maduro e o orégano na língua, e ambos disseram hmhmhm, cúmplices, até que ela corresse para a cozinha – Esqueci o azeite!”

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