Alta Fidelidade, Nick Hornby amadurece e se cansa do pop" / Alta Fidelidade, Nick Hornby amadurece e se cansa do pop" /

O grande garoto virou um grande tiozinho

Depois de salvar os adultos perdidos no tempo com Alta Fidelidade, Nick Hornby amadurece e se cansa do pop

Lúcio Ribeiro, colunista do iG |

Quem diria? Nick Hornby, o papa da cultura pop, celebrado (anti-)herói da música independente quase que na mesma intensidade (mas em menor número) que, por exemplo, Kurt Cobain, só que com livros e não discos, parece bem perdidão em 2010. O adultecente, criado por ele e na figura dele mesmo, parece não entender nada do que está acontecendo hoje. Mas quem está?

A música indie, o filme indie e o ser humano indie devem muito a Nick Hornby, 53 anos, novelista e ensaísta britânico que um belo dia de 1995, aos 38 mas com corpinho e cerebrinho de 18, lançou o livro Alta Fidelidade , seu primeiro romance. Hornby colocava nas livrarias, e logo na sequência no cinemão hollywoodiano, espetáculo da Broadway e até no teatro brasieiro, a saga do cara esperto, urbano, cujos dilemas existenciais encontravam paralelos e um certo alívio da alma no universo pop. Como se o adolescente espinhudo que passou a década anterior trancado no quarto ouvindo Smiths tivesse aberto a porta de casa, encontrado uma namorada, um emprego, e estivesse encarando a vida adulta.

Graças a Hornby, ou sua obra, bandas novas como Beta Band, Chemical Brothers e Belle & Sebastian foram colocadas ao lado de clássicas como Velvet Underground, Bob Dylan e Kinks e ganharam audição muito além do "mundinho" independente.

Foi assim com a paixão pelo futebol em Febre de Bola , sua primeira obra, de não-ficção. Teve a paixão pela música pop em Alta Fidelidade . As novas possibilidades da vida, ao lado dos velhos medos, em Um Grande Garoto . A comparação da vida ordinária com uma banda de rock era tão perfeita que Hornby lançou 31 Canções , coletânea de ensaios sobre canções que parece um disco de lados B.

Só que, se o prazo de validade de um jogador de futebol se esgota lá pelos 35 anos e um rockstar pode "vencer" antes disso, Hornby parece ter ficado impróprio para consumo aos 45. A urgência se foi, e sua narrativa perdeu aquele frescor de antes, tomando a cara de um tiozinho que, sem ter comprado uma BMW antes, conformou-se com um Corolla.

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O britânico Nick Hornby: aos 53 anos, urgência se foi e deu lugar à maturidade do "tiozinho"
O aviso já tinha sido dado pela personagem feminina de Como Ser Legal , e agora chega mais forte em Juliet, Nua e Crua , seu novo romance. Longe de ser um livro ruim, o que não é mesmo, em Juliet Hornby dá uma certa rasteira no romantismo que lhe deu fama, a dos sujeitos perdidos no tempo e desajustados emocionalmente que se escondiam atrás do comportamento adolescente e encontravam respostas para seus fracassos na música pop, no caso de Alta Fidelidade .

Em seu novo livro o personagem principal é o vazio Duncan, que quer seguir os passos perdidos do roqueiro ermitão que idolatrava, até em banheiro de bares imundos. A música pop é uma terra de losers sem glamour em Juliet . Duncan, em Alta Fidelidade , ganharia um melhor tratamento.

Tudo bem Nick Hornby amadurecer, enfim. Mas vai explicar isso à massa de emocionalmente desajustados que ele salvou lá atrás com a música pop e sua deliciosa mania de lista de melhores e piores...

Nick Hornby talvez esteja cansado do pop. Ele já fez odes literárias lindas a uma doce e tímida cantora, Nelly Furtado, que tempos depois viraria uma popozuda sexy para concorrer nas paradas com Beyoncé. E também encontrava refúgio e amigos no aconchego das lojas de discos, que talvez a geração do mp3, ser dominante na música pop, nunca tenha ido a uma.

Por essas e outras, é normal que Hornby tenha envelhecido sem muita paciência para a música pop ou independente. Juliet, Nua e Crua representa esse "passar do tempo" e da opção para a personagem feminina forte em detrimento do pobre adultecente masculino mais interessado em discos do que filhos. É que o nosso herói virou anti-herói. O grande garoto virou grande tiozinho.

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