O "fogo amigo" do israelense Yehoshua

Romance retrata com delicadeza questões complexas de casal de meia-idade

Estevão Azevedo, especial para o iG Cultura |

Frâncio de Holanda
Yehoshua na Festa Literária de Paraty, a Flip
Todo grande acontecimento é precedido de sutilezas. É a elas, às sutilezas, que Fogo amigo , romance do israelense A. B. Yehoshua (presente na última edição da Flip ), dedica toda sua força. Delas se compõem, delicadamente, linha após linha e sem nenhuma pressa, as personagens do engenheiro Yaári e da professora Daniela, casal de meia-idade israelense que vive sete dias de distanciamento, período em que se desenrola a trama do livro.

Na Tanzânia, Daniela visita o ex-cunhado, à procura do luto que ainda não experimentou pela morte da irmã. Enquanto isso, em Tel Aviv, a Yaári cabe zelar pelo bem-estar dos filhos, dos netos, do pai doente e do negócio da família.

Com extrema habilidade, Yehoshua intercala as narrativas do marido e da esposa e, à separação de milhares de quilômetros dos corpos, opõe à proximidade de suas angústias e dramas. Acostumada demais à proteção do esposo, Daniela deseja percorrer sem ele o itinerário da dor, ao mesmo tempo em que o recrimina por tê-la permitido aventurar-se sozinha. Já Yaári lida com as questões relacionadas ao desejo que sente pela mulher ausente e à saudade de suas habilidades no trato das questões familiares.

A relação entre morte e erotismo é um dos vários fios brilhantes com que Yehoshua tece os acontecimentos quase invisíveis, mas poderosos, da trama. No passado, um jovem da família foi morto, durante o serviço militar, pelo exército israelense: “O fogo amigo incinerou o pouco de sexualidade que havia nela”, explica agora o pai, a respeito de sua falecida mulher. Nessa e em diversas outras passagens do livro é possível perceber de que modo a finitude humana cobre como um véu translúcido o desejo.

Divulgação
Outro fio condutor do romance é o da oposição entre “selvagem” e “civilizado”, na visão do narrador, que compartilha os valores do progresso e, por meio das personagens, se questiona sobre eles. A riqueza de detalhes com que o autor descreve lugares tão diferentes entre si quanto a savana africana e a grande metrópole que é Tel Aviv se presta a essa discussão, além de cativar o leitor que busca paisagens exóticas ou desconhecidas.

É nos detalhes, ainda, que Yehoshua nos deixará entrever um dos temas de maior interesse de seu romance: a maneira como o status de país em guerra permanente se imiscui na vida cotidiana dos israelenses.

Fogo amigo
A. B. Yehoshua
Companhia das letras
384 páginas
R$ 54,50

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