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O criador e sua mais nova criatura

n.d.a. , novo livro de poemas de Arnaldo Antunes, é amostra de sua pluralidade

Milly Lacombe, especial para o iG Cultura |

Reprodução
Arnaldo Antunes
O certo seria falar dele no plural. Tipo: Arnaldo Antunes lançam o 16º livro. Mas como o certo muitas vezes soa errado, especialmente quando foge à boa regra, manteremos o singular, ainda que o cara não tenha muito de singularidade: músico, artista gráfico, letrista, escritor, poeta.

n.d.a. é o novo livro de poemas de Arnaldo, publicado pela Iluminuras.

De cara – mas não tão na cara assim, porque os versos estão quase escondidos na orelha do livro – a explicação do título: “nenhuma das alternativas é uma alternativa a última alternativa é nenhuma das alternativas”.

Isso já dá uma dica do que virá a seguir.

Mas falemos da tal pluralidade de Arnaldo Antunes.

O projeto gráfico é de um sujeito conhecido: Arnaldo Antunes. A capa, de outro conhecido: Arnaldo Antunes, fazendo interferência em foto de Fernando Laszlo – Laszlo que, aliás, tem participação fundamental porque parte do livro traz cartões postais concretistas, com fotos dele.

Em n.d.a . as palavras não se contentam com a própria linearidade e ganham formas geométricas. Nesse arranjo, adquirem o ritmo de pequenas partituras. Não estão ali para serem facilmente decifradas, e parte da beleza do livro é exatamente essa.

Arnaldo não pensa através dos símbolos e signos usados pela maioria. Ou talvez tenha nele um talento raro para reorganizar símbolos e signos e dar vida a coisas que escapam do padrão, que vivem a cutucar o tradicionalismo e a caretice das coisas. Como se faz necessário catalogar, poderia ser chamado de poeta-pop-concretista, ainda que a definição seja limitadora e o autor, ao contrário disso, não.

Arnaldo é assim desde sempre, desde que, ainda um garoto, surgiu publicamente ao lado de sete amigos para lançar os Titãs do Iê Iê. Parecia ser, entre todos eles, o mais esquisito e deslocado, como é comum aos que pensam à revelia do universo que os cerca. E carregava com ele inadequação física do pensamento transgressor, que se refletia na postura curvada e quase melancólica e no corte de cabelo inovador (uma marca registrada).

Mas aos poucos fomos entendendo Arnaldo e ele, também lentamente, aceitando o mundo estranho e pouco afetuoso em que vivemos.

Hoje, o talento dele já não está mais sendo avaliado.

E n.d.a . é apenas mais uma de suas criações. Diferente, irreverente e inovadora, como parece ser tudo o que ele faz.

Para quem gosta desses caras, Arnaldo e seu n.d.a é imperdível.

Reprodução
Capa de n.d.a., novo livro de Arnaldo Antunes
Em miúdos

- O que:
n.d.a. , livro de poesia de Arnaldo Antunes. Iluminuras, 207 páginas

- Por que:
Para lembrar que a palavra, assim como a vida, permite possibilidades infinitas

- Preço:
R$ 44,00

- Trecho:
“Você abraça
ela amassa
você beija
ela chupa
você faz amor
ela fode
você tem um orgasmo
ela goza
você espera um filho
ela emprenha
você dá à luz
ela pare
você alcança só metade dela
ela te penetra por inteiro
você a alma falsa fora e ela
dentro do seu corpo verdadeiro”

- Dica:
Brinque com o livro. Vire de ponta-cabeça, de lado, de cima para baixo. Há, por toda a parte, letras, cacos e sons que ganham vida quando você menos espera.

Outros livros de Arnaldo Antunes

Psia (1986, Perspectiva e republicado em 1991, Iluminuras) - poemas
Tudos (1990, Iluminuras)
2 ou + corpos no mesmo espaço (1997, Perspectiva) - Poemas, alguns sonorizados em CD encartado
40 Escritos (2000, Iluminuras) - copilação de textos, artigos e ensaios desde 1980
Et Eu Tu (2003, Cosac & Naify) - poemas
Antologia (2006, Quasi)
Melhores Poemas (2010, Global Editora)

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