O aspecto das letras

Livro "Just My Type" reúne diversas histórias sobre obsessões tipográficas

Alice Rawsthorn, do New York Times |

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Capa do livro "Just My Type"
Cyrus Highsmith estabeleceu um desafio pessoal: evitar a família tipográfica Helvetica durante um dia todo. Ele proibiu a si mesmo de adquirir qualquer produto que exibisse tal fonte e de utilizar qualquer tipo de transporte com sinalização escrita na mesma. Como nova-iorquino, o veto incluía o sistema local de metrô. Se, por acaso, ele desse de cara com algo escrito com a tal fonte, ele desviaria o olhar.

“Muito fácil!”, você deve estar pensando - mas está completamente enganado. A Helvetica aparecia com muito mais freqüência do que o Sr. Highsmith havia imaginado.

Ele já sabia que devia evitar a internet e também já tinha tomado a precaução de apagar a tal fonte do menu de seu computador. Porém, não passava por sua cabeça que ele a encontraria na etiqueta de instruções de lavagem de suas roupas, no controle remoto da TV, no quadro de horários dos ônibus ou nos gráficos do mercado de ações do New York Times. Outro problema foi encontrar uma forma “sem-Helvetica” de pagar por qualquer coisa que ele comprasse naquele dia, já que a família tipográfica proibida não somente aparecia em seus cartões de crédito, mas também nas novas cédulas de dólar americano.

Você já deve estar se perguntando por que alguém escolheria enfrentar desafio tão estranho. O Sr. Highsmith é designer de tipos. Ele iniciou seu boicote à Helvetica na esperança de abordar uma questão filosófica: “Precisamos de tipos para viver?”.

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A fonte Helvetica, usada no metrô de Nova York
Para o jornalista britânico Simon Garfield – autor de "Just My Type: A Book About Fonts", livro que trás a estória de Highsmith – seria mais pertinente perguntar: “Precisamos de Helvetica para conduzir atividades urbanas contemporâneas?”. Julgando pela experiência do Sr. Highsmith, a resposta seria sim, a menos que estejamos interessados em enfrentar um monte de problemas para evitá-la - principalmente se você mora em Nova York.

O boicote à Helvetica é somente mais uma das histórias interessantes sobre a obsessão tipográfica descrita no livro "Just My Type". Muitas delas envolvem designers que, como o Sr. Highsmith, dedicaram suas vidas de trabalho a criar fontes. Outras explicam como o trabalho de tais profissionais tem o poder de nos afetar – que somos os 99,99% da população que eles descrevem, com um pouco de pena e desdém, como “civis”.

Como muitos de seus camaradas “civis”, Garfield descobriu a tipografia depois de se tornar curioso sobre o conteúdo do menu de fontes de seu computador, desenvolvendo especial afeição pela Sra. Eaves e pela HT Gelateria. Ele tem mais de uma dúzia de obras de não-ficção publicadas, a maioria delas sobre ciência e história social. "Just My Type" é sua primeira incursão pelo campo da tipografia, o que faz dele um homem de muita coragem, pois este é um mundo de gente bem excêntrica – apaixonada pelo que faz – que tem linguagem, regras e rituais próprios, incluindo o passatempo popular de condenar infelizes “civis” por suas gafes tipográficas.

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Créditos finais da série "Mad Men" usam a fonte arial, criada nos anos 1980
Pensemos em Matthew Weiner, o criador da série "Mad Men". Ele é constantemente criticado por blogueiros de plantão que não conseguem entender como uma série de TV vangloriada por sua precisão histórica - em se tratando de adereços, figurinos, cenários, gírias e tudo mais - poderia ser tão negligente na escolha de fontes. Da mesma forma, em meio ao elenco dos personagens de "Just My Type" encontramos Mark Simonson, designer gráfico americano que, em seu site, classifica filmes de acordo com a (falta de) precisão tipográfica de cada um deles. Tanto "Los Angeles, Cidade Proibida" como "Na Roda da Fortuna" já foram citados por terem cometido o mesmo crime de "Mad Men" ao exibir fontes criadas muito tempo depois da época em que o filme é ambientado.

O Sr.Garfield também comete suas gafes factuais. Por exemplo: não é correto, e muito menos justo, descrever o glorioso e eclético designer gráfico Alan Fletcher como um “designer de livros”. "Just My Type" também sofre da aparente inabilidade de decidir se é uma história sobre a tipografia ou um relato incidental de seu impacto sobre o quotidiano. O resultado às vezes é confuso – e o fato da história e das anedotas não serem descritas em uma ordem cronológica ou discernível não é a única razão disso. Porém, os pontos fortes da obra superam de longe os fracos, por isso parece bastante medíocre se lamentar de um livro escrito com tanto fervor, afeto e receptividade a diferentes opiniões como este.

As passagens históricas têm início com Johannes Gutenberg, gráfico alemão que tornou os livros acessíveis para milhões de pessoas ao cunhar as primeiras letras reutilizáveis nos idos de 1440. Gutenberg morreu pobre, perdeu sua máquina de impressão em uma batalha legal, deixando o gráfico inglês William Caxton comercializar suas inovações no final dos anos de 1400. Nisso ele foi ajudado por seu protegido, com o pitoresco nome de Wynkyn de Worde, (“word”quer dizer “palavra”, em inglês), cujas fontes foram imitadas por toda a Europa.

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Ikea: antigo logo (acima) e o novo (abaixo), que usa a fonte Verdana
Garfield em seguida apresenta ao leitor alguns designers de belas fontes, usadas até os dias de hoje, como Claude Garamond, francês do século 16, William Caslon e John Baskerville, britânicos do século 18, e modernistas do século 20 como o alemão Paul Renner e o suíço Adrian Frutiger. Depois de descrever o minucioso processo de fundição em metal de letras, números e símbolos de tradicionais famílias tipográficas, ele explora a transição das fontes impressas para as digitais – feitas em computadores - e os esforços de Matthew Carter, Erik Spiekermann e outros pioneiros digitais em criar um novo gênero de fontes para serem lidas na tela, ao invés de impressas.

Ao longo do caminho, "Just My Type" traz reflexões sobre de tudo um pouco. O livro mostra o alvoroço em torno da decisão da rede de lojas Ikea de abandonar o modernismo clássico da fonte Futura de sua logomarca em favor da fonte digital Verdana, de Carter; cita o papel da Gotham como uma arma secreta para ganhar votos na campanha eleitoral de Barack Obama, em 2008, e explica como a Cooper Black pode expressar determinado significado na capa do álbum "Pet Sounds" (1966), do Beach Boys, outro na sequencia título de "Dad’s Army", série de TV britânica da virada da década de 70, e um terceiro na identidade corporativa da companhia aérea de baixo custo Easy Jet.

O livro também enfatiza a importância da diferenciação entre fluidez de escrita e fluidez de leitura na escolha de fontes, descreve o aspecto psicológico das fontes mais usadas e explica por que os loucos por tipos adoram o sinal gráfico do “e” comercial (&), abominam a Comic Sans e são bastante suspeitos ao se pronunciar sobre a Arial – mas, como, apesar de tais suspeitas, a Arial Black e a Frutiger se tornaram tão populares nos uniformes do futebol europeu. Resposta: Porque ambas são legíveis, mesmo do lado oposto do estádio.

Veja abaixo o trailer do documentário "Helvetica", sobre tipografia, design gráfico e cultura visual:

Tradução: Claudia Batista Arantes

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