No Brasil, literatura fantástica troca 'capa e espada' por índios e tacapes

Gênero consagrado pelas séries "O Senhor dos Anéis" e "A Guerra dos Tronos" conquista espaço no País

Guss de Lucca, iG São Paulo | 04/09/2011 14:56

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Cavaleiros, espadas, dragões e elfos. Esses são apenas alguns elementos que podem compor obras de fantasia, subgênero da literatura fantástica que tem em "O Senhor dos Anéis", "As Crônicas de Nárnia" e, mais recentemente, "A Guerra dos Tronos", seus grandes representantes mundiais.

No Brasil, foi na última década que o gênero cresceu tanto em leitores como em número de autores, despertando o interesse de editoras em obras que convidam o público a desbravar mundos distantes habitados por aventureiros e criaturas míticas.

Foto: Divulgação Ampliar

Ilustração do mago Gandalf, um dos personagens de "O Senhor dos Anéis", um marco da literatura fantástica

Lançado recentemente pela Devir, o livro de bolso "Dupla Fantasia Heróica 2", de Christopher Kastensmidt e Roberto de Sousa Causo, é um exemplo da atual safra de fantasia brasileira. Apesar de distintas, as duas histórias da publicação compartilham um tema comum: aventuras fantásticas ocorridas no Brasil.

O formato original desse tipo de literatura é feito de tramas no estilo "capa e espada", com base na Europa da Idade Média. "Dupla Fantasia Heróica" foge desse mundo ao ser ambientado no Brasil Colonial e Pré-Colonial.

"Estive recentemente na Worldcon, convenção mundial de ficção científica que acontece nos EUA, e um dos painéis mais populares foi o que tratou de outras formas de literatura fantástica", conta Christopher, autor do segmento "A Batalha Temerária Contra o Capelobo" de "Dupla Fantasia Heróica 2".

"Minha primeira pergunta foi 'quem aqui está cansado de ver essa coisa tolkiana?'. Todo mundo levantou a mão", revela o escritor, referindo-se à obra "O Senhor dos Anéis", de J.R.R. Tolkien, um dos cânones da fantasia mundial. Apesar da reação da plateia, Christopher encara com naturalidade o volume de obras baseadas no universo do consagrado autor. "Muitos escritores são 'filhos' de Tolkien. Acho que veremos em alguns anos autores que são 'filhos' do 'Harry Potter'".

Foto: Divulgação

Capa do livro "Dupla Fantasia Heróica 2"

Responsável por "Encontros de Sangue", a  outra metade de "Dupla Fantasia Heróica 2", Roberto de Sousa Causo atribui ao sucesso de "O Senhor dos Anéis" e de "Harry Potter" o crescimento do segmento no mercado editorial.

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"Se tornou obrigatório para qualquer editora de porte médio ou grande ter pelo menos uma série de fantasia juvenil. E essa onda criou um espaço para os brasileiros também, como o André Vianco, que é best-seller da área específica do horror sobrenatural, e o Orlando Paes Filho, autor da série de fantasia histórica 'Angus'", explica.

Os efeitos também foram sentidos por Silvio Alexandre, editor de coleções de literatura fantástica e organizador do "Fantasticon – Simpósio de Literatura Fantástica", evento anual que desde 2007 reúne autores e fãs do gênero em São Paulo.

De acordo com ele, o sucesso da série "Harry Potter" é um caso emblemático de como a fantasia pode ser inserida na literatura de massa. "Muito se discute sobre as razões do sucesso da série. O fato é que a autora britânica J.K. Rowling soube mesclar a rica tradição literária da fantasia de seu país com uma narrativa estruturada nas convenções do romance policial (princípio-tensão, clímax, desfecho e catarse), produzindo um best-seller desde a sua primeira edição".

Um Brasil não descoberto

Além da fantasia, dois outros subgêneros integram a literatura fantástica contemporânea: a ficção científica e o terror. E não é de agora que escritores brasileiros se aventuram nessas três vertentes.

Publicado no jornal "O Jequitinhonha" a partir de 1868, a série "Páginas da História do Brasil escritas no ano 2000", de Joaquim Felício dos Santos, narra a viagem no tempo de dom Pedro 2º até o futuro. Já o romance de 1875 "Dr. Benignus", de Augusto Zaluar, segue os passos de uma expedição científica no interior do Brasil, que chega a encontrar seres vindos do Sol.

"A Rainha do Ignoto", livro de 1889 da escritora cearense Emília Freitas, é mais um dos marcos do estilo no País. Nesta ficção, ela apresenta ao leitor uma sociedade secreta responsável pelo domínio do feminino nas esferas sociais, contrapondo à sociedade patriarcal do período.

Foto: Divulgação Ampliar

Capa da antologia de contos "Dimensões.BR"

Buscando fugir do anonimato relegado aos autores de séculos passados, os atuais produtores de literatura fantástica brasileira estão se unindo para ganhar adeptos no grande público. E uma boa maneira de entrar em contato com a atual produção são as antologias, como "Dimensões.BR: Contos de Literatura Fantástica no Brasil" (Andross Editora), organizada por Helena Gomes em 2009.

Misturando autores iniciantes com veteranos, a obra apresenta ao leitor histórias com vampiros, lobisomens, fantasmas e bruxas. Em suas páginas também é possível encontrar criaturas do folclore brasileiro, como o Curupira e o Boitatá enfrentando o monstro japonês Godzilla, além de duendes invadindo o Rio de Janeiro e fadas vivendo entre as árvores do parque Ibirapuera, em São Paulo.

Sai a espada, entra o tacape

Arriscar-se na produção de literatura fantástica ambientada no Brasil não é tão fácil quanto parece. Diferentemente do que ocorre com os autores que se baseiam na Europa Medieval, aqueles que voltam seus esforços à América Pré-Colombiana não dispõe da vastidão de informações de seus pares.

"A gente enriquece isso trazendo algum tipo de europeu para cá. No caso do Christopher, tem um personagem holandês, então as histórias remetem também ao ponto de vista dele. No meu caso, existem os vikings, então eu também falo da cultura viking no século 11. A fantasia faculta isso, você brincar com as lacunas da história", diz Roberto de Sousa Causo.

Mesmo com o apreço pela história, o autor deixa claro que as obras não têm como objetivo passar um conhecimento histórico ao público. "Queremos que o leitor reveja o gênero fantasia heróica por outro ponto de vista. E para isso usamos a história, o folclore e a geografia do Brasil, mas tudo transformado pelas características do subgênero."

Além dessa dificuldade, existe também o preconceito de parte dos leitores em enxergar o índio brasileiro, armado com um tacape, como um herói. "Ainda existe essa visão estereotipada do índio, do português, que era o colono na época, e do escravo africano trazido para cá", reflete Causo.

Mas se parte do público ainda resiste a essa proposta, outros tantos parecem ávidos a aventurar-se na literatura fantástica brasileira. "Um pouco do preconceito está começando a cair", afirma Christopher. "Pensei que era um assunto batido no Brasil, mas os brasileiros não conhecem o Boitatá, o Capilobo, e as pessoas estão gostando. É bom ter algo do próprio país em meio a essa invasão cultural."

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