Juliet, Nua e Crua, o autor britânico lida com fãs de música, mas para discutir a maturidade e o tempo perdido" / Juliet, Nua e Crua, o autor britânico lida com fãs de música, mas para discutir a maturidade e o tempo perdido" /

Nick Hornby retorna ao universo musical

Em Juliet, Nua e Crua, o autor britânico lida com fãs de música, mas para discutir a maturidade e o tempo perdido

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

O tempo passou para Nick Hornby. Lá se vai mais de uma década desde Alta Fidelidade , um dos livros da Bíblia da cultura pop, e o autor britânico – aos 53 anos, no segundo casamento e com três filhos – não disfarça nem um pouco como isso afetou sua vida. Juliet, Nua e Crua , que chega agora ao Brasil, marca um retorno de Hornby ao universo musical que ronda seu trabalho, mas os personagens, ao invés da crise dos 30, lidam com a maturidade, ou percebem que já deveriam tê-la.

Prestes a virar quarentona, Annie dirige o museu de uma cidadezinha perdida na costa da Inglaterra, e não, não está satisfeita. Há dez anos morando com Duncan, namorado fanático pelo cantor Tucker Crowe, ela acaba se rendendo ao culto e os dois embarcam rumo a uma viagem aos Estados Unidos para visitar os lugares “sagrados” do músico, entre eles o banheiro de um bar decadente onde, reza a lenda, ele teria, nos anos 1980, decidido abandonar a carreira e sumir do showbiz.

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Nick Hornby: outros tempos para o autor
Essas férias frustradas já servem para balançar um pouco a rotina, mas a situação realmente fica turbulenta quando, interrompendo um longo silêncio, Crowe lança uma versão bruta de Juliet , seu álbum mais famoso ( Juliet, Naked , no título original). Enquanto Duncan, administrador de um site dedicado ao cantor – um misto de Bob Dylan, Leonard Cohen e Bruce Springsteen, como explica o verbete da Wikipedia presente no livro – publica uma crítica cheia de elogios, Annie escreve outra falando justamente o contrário.

A surpresa é que Crowe em pessoa resolve responder a Annie, e a troca de emails entre os dois tira a escora da relação já desgastada do casal. Nas palavras de Hornby, “ela e Duncan haviam ficado juntos porque eram as duas últimas pessoas a serem selecionadas para um time esportivo, e ela sentia que era uma esportista melhor que isso”. O próprio Tucker não tem uma situação muito melhor: há anos no limbo profissional, carrega nas costas um punhado de casamentos fracassados e filhos espalhados pelo mundo, frutos de uma juventude desperdiçada com “modelos inglesas mortalmente pálidas e maçãs do rosto salientes”.

Em entrevista ao jornal Daily Telegraph, Hornby disse que se inspirou em Sly Stone, outro notório roqueiro recluso, e de como a internet permitiu que pessoas como Duncan pudessem conversar online durante o dia inteiro. De fato, o autor é cruel com o material disponível na web – um “poço de insignificância” – e mais ainda com fãs quase irracionais, daquele tipo que passa meses tentando descobrir a mensagem cifrada do verso de uma canção de amor.

Mais do que isso, no entanto, Hornby usa esse quadro como paleta de uma discussão maior, de como às vezes relacionamentos, ambições e a vida escapam por entre os dedos e se perdem facilmente no passar dos anos. Por trás de uma escrita leve e divertida, que permanece intocada, assuntos maiores estão em pauta, inclusive a paternidade. Sem contar a mudança do narrador, dos homens sem rumo na vida adulta para uma mulher – suas leitoras ideais, como Hornby diz – correndo atrás do tempo perdido.

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Juliet, Nua e Crua não é, então, mais um clássico pop, apesar de manter os ingredientes que fizeram com que Hornby tenha vendido mais de cinco milhões de exemplares. Mostra, isso sim, um meio-termo por onde ele deve seguir nos próximos anos, enquanto se acomoda rumo à melhor idade. Interessa ver no que vai dar. O ponto negativo fica por conta da edição brasileira: traduzida por Paulo Reis, responsável pelas obras anteriores do autor, dá a impressão de ter sido feita às pressas, tamanha a quantidade de erros de revisão espalhados pelo texto. Que feio, editora Rocco.

Juliet, Nua e Crua
Tradução: Paulo Reis
Editora Rocco, 272 páginas, R$ 34

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