Moacyr Scliar é enterrado nesta segunda-feira

Sepultamento restrito a familiares e amigos ocorreu às 11h no cemitério Israelita

iG São Paulo, com Agência Estado |

AE
Moacyr Scliar durante a 8º Festa Literária Internacional de Paraty
O escritor gaúcho Moacyr Scliar foi enterrado nesta segunda-feira, 28, às 11h, em Porto Alegre. Após ser velado na Assembleia Legislativa do Estado, o corpo seguiu na manhã da segunda para o cemitério Israelita, onde ocorreu o sepultamento apenas para familiares e amigos.

Scliar morreu à 1h da madrugada de domingo, no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, com falência múltipla dos órgãos. O escritor estava internado no hospital desde o dia 11 de janeiro, quando deu entrada para uma cirurgia de extração de tumores no intestino. No dia 16 de janeiro, Scliar sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico e foi encaminhado à unidade intensiva.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o escritor receberá homenagem. Durante esta semana, será marcada uma “Sessão saudade”, na qual a cadeira 31 será declarada aberta e um processo sucessório com duração de dois meses será iniciado.

História

"Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais. Preciso só de um teclado." Em meio a dezenas de depoimentos de autores sobre as mais diferentes manias no momento de escrever, publicados desde o início do ano passado no blog do escritor Michel Laub, o do gaúcho Moacyr Scliar se destacou pelo pragmatismo: para o criador prolífico e naturalmente inspirado, o único impedimento para a escrita seria a falta da ferramenta com a qual levá-la a cabo.

Tanto era assim que, em quase 50 anos de carreira literária, ele publicou mais de 80 livros. O primeiro, "Histórias de um Médico em Formação", foi publicado em 1962, mesmo ano em que concluiu a faculdade de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O mais recente foi o romance "Eu Vos Abraço, Milhões", que saiu em setembro do ano passado. Entre um e outro escreveu romances e livros de crônicas, contos, literatura infantil e ensaios, numa média de mais de um livro por ano, com destaque para "O Ciclo das Águas", "A Estranha Nação de Rafael Mendes", "O Exército de um Homem Só" e "O Centauro no Jardim".

Tudo isso mantendo os critérios que o tornaram um dos mais reconhecidos autores brasileiros contemporâneos em solo nacional, com três Jabutis (1988, 1993 e 2009) entre prêmios recebidos, e também no exterior, com obras publicadas em 20 países e honrarias como o Casa de Las Americas, em 1989.

Scliar não deixou de lado a carreira na medicina. Na área, destacou-se desde 1969 em cargos como chefe da equipe de Educação em Saúde da Secretaria da Saúde do Rio Grande do Sul e como diretor do Departamento de Saúde Pública. Entre o lançamento do livro de contos que Scliar preferia considerar como sua primeira obra profissional, "O Carnaval dos Animais", em 1969, e o primeiro romance, "A Guerra no Bonfim", em 1971, encontrou tempo para cursar pós-graduação em medicina comunitária em Israel. Ainda no início da década passada, em 2002, concluiu doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública, com a tese "Da Bíblia à Psicanálise: Saúde, Doença e Medicina na Cultura Judaica".

Judaísmo e saúde pública

A tradição judaica o acompanhou em toda a carreira literária, assim como o imaginário fantástico. Nascido em 23 de março de 1937 no bairro do Bom Fim, que até hoje reúne a comunidade judaica de Porto Alegre, e alfabetizado pela mãe, Sara, que era professora primária, Scliar chegou a ter o romance "O Centauro no Jardim" incluído numa lista com os cem melhores livros relacionados à história dos judeus dos últimos dois séculos, elaborada pelo National Yiddish Book Center. Também se tornou um grande porta-voz do País sobre temas relativos ao judaísmo, mantendo laços de amizade com alguns dos maiores autores israelenses no mundo contemporâneo, como David Grossman, A.B. Yehoshua e Amos Oz.

A especialização em saúde pública, por sua vez, deu a Scliar a oportunidade de vivenciar temas como a doença, o sofrimento e a morte – características que podem ser percebidas tanto em sua ficção, em obras como "A Majestade do Xingu", quando na não ficção, caso em que "A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura" é um dos exemplos mais claros. Ele pôde também conhecer de perto a realidade brasileira, o que fez da vida de classe média, sempre em textos leves e bem-humorados, outro de seus assuntos centrais.

Casado desde 1965 com Judith Vivien Oliven e pai de Roberto, nascido em 1979, Scliar também dedicou atenção especial às obras infanto-juvenis. Costumava dizer que escrevendo para os jovens reencontrava o jovem leitor que havia sido. Boa parte de sua produção nessa área foi considerada "altamente recomendável" pela Fundação Biblioteca Nacional.

Além de produzir textos para vários jornais e revistas, o autor também teve trabalhos adaptados para o cinema. Caso do romance "Um Sonho no Caroço do Abacate", adaptado em 1998 por Luca Amberg sob o título "Caminho dos Sonhos", em cujo elenco apareceram atores como Taís Araújo, Caio Blat e Mariana Ximenes. Em 2002, o romance "Sonhos Tropicais" virou filme, sob direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Ingra Liberato e Cecil Thiré entre os atores.

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