Mazzaropi, o caipira do Brasil

Biografia retrata o homem de hábitos sofisticados e o empresário ambicioso por trás da máscara do jeca

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Quase 20 anos após sua morte, Amacio Mazzaropi (1912-1981) volta à vida como tema de um livro biográfico, Sai da Frente! - A Vida e a Obra de Mazzaropi (ed. Desiderata), escrito pela jornalista Marcela Matos. Nascido no bairro de Campos Elísios, no centro de São Paulo, e neto de imigrantes italianos, esse artista foi o "caipira" mais querido do Brasil durante as décadas em que seus filmes estiveram em cartaz. E se tornou, por isso mesmo, a mais completa tradução das profundas contradições do estado mais rico do país no século passado.

Sempre onipresente em suas chanchadas, a figura do interiorano aparentemente ingênuo que pena para se adaptar na capital começou a se delinear no passado circense e no início de vida mambembe entre cidades como Taubaté, Tremembé, Queluz, Aparecida, Jundiaí, Pindamonhangaba etc. O "jeca tatu" adaptado e modificado de seu antecessor Monteiro Lobato virou a face pública de Mazzaropi, enquanto no bastidor ele se construía como um empresário rico e poderoso e um pioneiro incontestável da indústria brasileira do cinema e do entretenimento.

Contradição ambulante, Mazzaropi catapultou a imagem do "jeca" a partir do rádio, do cinema e da televisão - ou seja, de algumas das instâncias que representavam a "modernização" do país, e que queriam se ver refletidas em qualquer espelho, menos o da "caipirice".

Em 1950, ele foi uma das atrações principais da transmissão inaugural da TV brasileira - contou "causos" à sua moda, diante de um restritíssimo público de elite. Lançados de 1952 em diante, seus primeiros filmes "caipiras" e "grosseirões" deram suporte econômico à de resto "sofisticada" e "esnobe" companhia cinematográfica Vera Cruz, erguida por setores da aristocracia industrial brasileira e europeia (seus principais acionistas eram Ciccilo Matarazzo, paulista, e Franco Zampari, italiano).

Cedo Mazzaropi percebeu que intermediários como a Vera Cruz lhe eram desnecessários: em 1958, em plena era desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek e às vésperas da inauguração da ultramoderna Brasília, deu partida a seu próprio complexo industrial, que batizou de PAM (Produções Amacio Mazzaropi) Filmes. Proclamava assim a própria autonomia, escondido atrás da carcaça do "caipira" despreparado para qualquer situação e dependente de tudo e de todos.

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Amacio Mazzaropi: aqui como xerife, mas caipira para sempre
Sob tais tensões e contradições se formulava uma relação de choque, de total incompatibilidade. "Mazzaropi era muito avesso à crítica, sempre dura com ele", sintetiza Marcela. "Foi complicado buscar o que ele pensava, sua opinião a respeito de cada momento vivido. No fundo, ele foi um sujeito bem fechado." O ressentimento mútuo condicionava a relação entre a "intelectualidade" que odiava as próprias origens "caipiras" e o empreendedor que precisava da "caipirice" para ser amado pelo grande público - e para ajudar a sustentar o poderio econômico que publicamente o execrava.

Se o sucesso de Mazzaropi esfregava no nariz do Brasil "moderno" tudo aquilo que a locomotiva de progresso mais ansiava ocultar, as relações conflituosas que protagonizou pareciam ter raízes e repercussões na intimidade do próprio artista. Embora o título prometa narrar "a vida" de Mazzaropi, o livro não enfoca essa parte, a não ser por comentários ligeiros e indiretos. "Todo mundo me pergunta porque eu não disse se ele era homossexual ou não. Não disse porque não encontrei nada consistente em relação a isso. Mazzaropi era um solteirão convicto, viveu com a mãe a vida toda e vivia para o trabalho. Se fosse algo concreto, não teria porque não publicar", afirma a autora.

Na oscilação entre o acesso irrestrito que teve ao Instituto Mazzaropi e as dificuldades para reconstituir a memória e o imaginário do artista, Marcela não produziu uma biografia definitiva. Mesmo na parte dedicada à obra, o levantamento histórico não vai à profundidade, e o livro padece de alguns equívocos de impacto sobre o resultado final. Um exemplo é a transcrição da letra da moda caipira Casinha Branca - o livro traz os versos não da canção de Elpídio dos Santos, mas sim de um tema pop homônimo dos anos 70, conhecido na voz do cantor Gilson.

Ainda que oculto, o tabu sobre a sexualidade de Mazzaropi traça intrigante paralelo com o xadrez ao redor da "caipirice" dele e da sociedade que o rodeava. Ele morava no bairro nobre do Itaim e cultivava hábitos sofisticados, segundo Marcela, mas os ocultava ao escancarar a personalidade rural e "caipira" que, por sua vez, a sociedade paulistana enriquecida sepultava por baixo de toneladas de modernidade radiofônica, televisiva, cinematográfica e industrial. O "arcaico" e o "moderno" se confrontavam como inimigos belicosos, não como o que realmente eram, as duas faces de uma mesma moeda.

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Detalhe da capa do livro
Inclusive por suas contradições e tabus, Mazzaropi era a cara de São Paulo e do Brasil. Quando as atividades da PAM Filmes foram definitivamente encerradas, em 1984, seus 32 filmes haviam levado aos cinemas 160 milhões de espectadores, segundo informa Marcela Matos.

À revelia dos que o rejeitavam e/ou rejeitam, estão todos em cartaz até hoje, nas locadoras de DVD. São evidências de que o alcance e a perenidade da obra de Mazzaropi e, agora, o livro Sai da Frente! ajudam a explicar não só um Brasil que já foi, como também um Brasil que ainda é.

Sai da Frente! - A Vida e a Obra de Mazzaropi

de Marcel a Matos

Editora Desiderata

300 págs., R$44,90

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