Livros investem em um retrato real da máfia

Repórteres e estudiosos revelam a evolução das células criminosas italianas e a ramificação de seus negócios pelo mundo

Valor Online |

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"Gomorra": filme italiano, baseado no livro homônimo, mostrou atividades da Camorra
Durante décadas, a máfia foi retratada pelo cinema e pela literatura como um produto de ficção que, embora de origem italiana, quase sempre se ambientava em território americano. Os Estados Unidos, afinal, tem certa familiaridade com o assunto desde o longínquo Al Capone até o domínio e a guerra das cinco famílias ítalo-americanas de Nova York derivadas da Sicília – Gambino, Colombo, Bonanno, Lucchese e Genovese durante todo o século 20. Mesmo histórias violentas e inspiradas em fatos reais, como a de Henry Hill em "Os Bons Companheiros", tinham o claro propósito de entreter.

De três anos para cá, porém, diversos livros sobre o assunto foram lançados no exterior e traduzidos para o português. O ponto de partida foi "Gomorra", de Roberto Saviano, que virou filme com cara de documentário. Agora, os autores são jornalistas especializados no "modus operandi" das máfias italianas e suas obras escritas em tom de reportagem. São relatos verídicos, apoiados em documentos, entrevistas e depoimentos e, por esse motivo, muito mais brutais do que os personagens de Joe Pesci em "Os Bons Companheiros" (1990).

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Por oportunismo (ou oportunidade), lançamentos sobre gestão, negócios e até culinária usando o termo "máfia" também são facilmente encontrados nas prateleiras.

Dizer que as máfias são tão antigas quanto à própria Itália como a conhecemos hoje está longe de ser exagero. As origens dos "uomo d'onore" (os homens de honra, como gostam de ser chamados) remontam a unificação da própria península, há 150 anos. Foi quando o rei Vitor Emanuel II transformou em uma única nação as cidades-Estados da região, agregando a elas as ilhas de Sardenha e Sicília. De lá para cá, elas se expandiram, atravessaram fronteiras, diversificaram seus negócios e se alternaram em influência e importância. Ainda que atuem em diversos países, concentram suas sedes no Sul da bota. Na época em que "O Poderoso Chefão", a versão romantizada da máfia estrelada por Marlon Brando, Al Pacino e Robert Duvall ganhava as telas em 1972, apresentando esse universo pela primeira vez ao grande público, Salvatore Riina, o Corleone da vida real, já era não apenas um foragido da Justiça, mas o homem mais procurado de toda a Itália.

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Marlon Brando em "O Poderoso Chefão": versão romantizada da máfia que virou um clássico do cinema
Extremamente violento e autoritário, o "capo di tutti capi", o chefe de todos os chefes, foi preso apenas em 1993. Comandou com mão de ferro a siciliana Cosa Nostra, conhecida simplesmente como Máfia, tendo como parceiro Bernardo Provenzano, que ficou foragido por mais de 40 anos até ser capturado em 2006. Sua sede de sangue e poder, contudo, acabaram por enfraquecer de forma significativa a Cosa Nostra, uma vez que ele deixou de ser "sócio" do Estado e passou a enfrentá-lo. "Enquanto Riina cometia atentados, assassinava policiais, magistrados e atraía todas as atenções para os sicilianos, os calabreses atuavam em silêncio. Foram bem-sucedidos onde a Cosa Nostra falhou", explica Antonio Nicaso, autor de diversos livros e um dos maiores estudiosos sobre o tema.

Por calabreses, ele se refere à Ndrangheta, a organização criminosa mais poderosa do mundo atualmente, segundo os especialistas ouvidos pelo Valor – e ainda mais difícil de ser combatida. Registros históricos mostram a atuação da máfia calabresa desde 1869, quando as eleições municipais de Reggio Calabria foram canceladas devido à forte infiltração de integrantes da Picciotteria no pleito – a mudança de nome ocorreu por volta de 1940. Além dela, da famosa Cosa Nostra, na Sicília, e da Camorra, em Nápoles (foco de Saviano), existem a Sacra Corona Unita, em Puglia, e a caçula Basilischi, na região de Basilicata.

A Ndrangheta nunca tentou desafiar o Estado, mas se infiltrou nele. Seus integrantes não ostentam riqueza, não fazem ameaças e só matam quando é estritamente necessário. Além disso, a hierarquia da organização é horizontal, com diversos núcleos familiares que atuam de forma independente e controlam seus próprios territórios, ao invés da pirâmide que tinha Riina no topo. Tratada com desdém até pouco tempo pelas autoridades italianas e ainda praticamente desconhecida fora de seu país de origem, ela revela o abismo visto anteriormente entre "O Poderoso Chefão" e a verdadeira Cosa Nostra. Isto é, ao passo em que governos, juízes e editores de jornais estrangeiros tentam se familiarizar com o nome, com a grafia e descobrir sua pronúncia correta, a Ndrangheta (diz-se drãngueta) negocia com destreza quantidades astronômicas de drogas e lava o mesmo montante de euros nos cinco continentes.

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Capa nacional do livro de Francesco Forgione
O principal diferencial dos calabreses em relação aos outros grupos criminosos, porém, são os laços de sangue. Todos os seus integrantes têm algum parentesco, em maior ou menor grau. "Os casos de traição são raríssimos, pois você não entrega pessoas da própria família", afirma Nicaso. Nas outras, as relações são de amizade e confiança. Frágeis. Ter a certeza do silêncio dos capturados pela polícia se tornou essencial a partir dos anos 1980, quando os juízes Giovanni Falcone e Paolo Borsellino aumentaram exponencialmente a pena de prisão para casos de associação com a máfia. Antigamente, os criminosos eram condenados apenas por delitos menores e ficavam cerca de cinco anos detidos. Durante esse período, a família do prisioneiro era amparada financeiramente pela máfia e o indivíduo saía da cadeia como herói por ter aguentado sua sentença sem ter colaborado com a polícia, mantendo a tradição do omertà – o código do silêncio.

Falcone e Borsellino foram assassinados em 1992, respectivamente em maio e julho, mas não sem antes condenarem a prisão chefões da Cosa Nostra e centenas de outros mafiosos a penas que chegavam a 20 anos. Foi um duro golpe. A organização não poderia mais sustentar tantas famílias de encarcerados e os próprios mafiosos não estavam dispostos a passar a vida na cadeia. Nesse cenário, o omertà foi deixado de lado e muitos começaram a cooperar com as autoridades em benefício próprio. Tornaram-se "pentiti". Arrependidos.

Antonio Nicaso atualmente mora no Canadá, mas fala sobre a Ndrangheta com propriedade. Nascido na pequena Caulonia, na Calábria, em 1964, ouviu falar pela primeira vez da organização aos seis anos de idade. "Foi quando soube que haviam matado o pai de um coleguinha de classe por ele ter se recusado a comprar materiais de construção do 'boss' que controlava a área", conta. Na opinião dele, a Ndrangheta é a única organização criminosa verdadeiramente multinacional e que, inclusive, antecipou a globalização. "Eles já estavam nos Estados Unidos em 1908, no Canadá em 1911 e na Austrália em 1920. Hoje operam em todas as regiões do mundo, têm o monopólio da venda de cocaína na Europa e faturam mais de 40 bilhões de euros por ano", garante.

Também calabrês, escritor e especialista em máfia, Gianluca Ursini ressalta que a Ndrangheta tem como estratégia não entrar em conflito com criminosos locais, mas se associar a eles. Mexicanos, colombianos, russos e narcotraficantes do Leste europeu em geral são seus maiores parceiros. Além disso, fazem uma espécie de "join venture" com outras máfias. "Qualquer negócio muito rentável é um bom negócio. O tráfico de drogas ainda é o principal, mas eles atuam fortemente no mercado de luxo, investem em empresas de capital aberto e injetam capital em outras que precisam crescer ou se recuperar. Além disso, mexem com lixo tóxico, descartando-o ilegalmente na África e no mar mediterrâneo", diz.

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Tommaso Buscetta, antigo chefão da Cosa Nostra que morou no Brasil
Sempre discreta, a Ndrangheta só entrou no radar das autoridades internacionais em razão de um acerto de contas entre dois clãs ocorrido em Duisburg, na Alemanha, em 2007. No episódio, conhecido como "o massacre de Duisburg" ou "Vendetta de San Luca", em alusão à cidade calabresa que é a casa da Ndrangheta, seis homens da família Pelle-Vottari-Romeo foram assassinados por integrantes da Nirta-Strangio na pizzaria comandada pela primeira. Uma antiga rixa familiar e um grande erro, na opinião de Nicaso. "A chacina atraiu muita atenção da mídia e deixou claro que a Ndrangheta estava sendo subestimada. Os alemães ficaram chocados, pois não acreditavam que mafiosos italianos pudessem estar fazendo negócios e matando pessoas bem ali nos seus quintais", analisa.

A Ndrangheta não tem dificuldade em fazer dinheiro, mas em torná-lo limpo. Para o professor, o Brasil é um excelente lugar para tal atividade. "O segmento da construção civil está muito aquecido e é bastante propício para fraudes. O movimento ao redor da realização da Copa do Mundo e da Olimpíada também atrai muito o interesse desses criminosos", alerta.

A relação dos mafiosos com o Brasil, no entanto, não é nova. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Tommaso Buscetta, um dos maiores "boss" da Cosa Nostra. Ele viveu no país por duas vezes, chegou a se casar com uma carioca e a ter dois filhos no Rio de Janeiro. Foi preso e extraditado em 1983 e morreu de câncer em 2001, nos EUA. Entrou na história, porém, por ser o primeiro grande "pentito", ou seja, a quebrar o código do silêncio e a revelar informações sobre a organização para os policiais.

Nicaso é categórico também ao falar de Alfonso Caruana, um dos maiores narcotraficantes do mundo e chefe da família Cuntrera-Caruana, da Cosa Nostra, atualmente cumprindo pena de prisão na Itália. "Ele teve relações bastante próximas com políticos e empresários em São Paulo e no Rio de Janeiro na época em que Collor era o presidente."

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Nova edição do livro de Gay Talese
A capacidade de se reinventar e de combinar tradição com inovação é outra característica das máfias, em especial da Ndrangheta. Afinal, algumas regras ainda são as mesmas desde 1861, mas, ao mesmo tempo, os criminosos usam a tecnologia em seu benefício. Ao contrário dos "pizzini" – bilhetinhos escritos a mão que Bernardo Provenzano passava aos seus comandados enquanto foragido – as mensagens de texto via BlackBerry ou Skype são impossíveis de serem rastreadas ou descobertas. Enquanto os criminosos transitam livremente e com muita rapidez entre as fronteiras, cada país tem uma legislação diferente e existe toda uma burocracia para que as polícias possam conversar, cooperar e trocar informações. "As autoridades simplesmente não conseguem acompanhar. O caso Cesare Battisti é um exemplo de como esse entendimento quase sempre é mais difícil do que deveria."

Desse modo, erradicar não só a Ndrangheta, como qualquer uma das máfias italianas, parece ser impossível. "Não são criminosos comuns, mas com conexões íntimas com o poder", diz Nicaso. Ele ressalta, por exemplo, que depois dos assassinatos de Falcone e Borsellino, algumas leis antimáfia foram afrouxadas e investigações engavetadas. Os atentados que tiraram vida dos magistrados foram creditados a Riina que, recentemente, após 17 anos de isolamento, pediu para falar com os oficiais da prisão.

Segundo o italiano Attilio Bolzoni, autor de uma biografia sobre o chefão da Cosa Nostra ("Il Capo dei Capi: Vita e Carriera Criminale di Toto Riina"), ele acusa o serviço secreto italiano de ter participado da emboscada que matou Borsellino. "Riina diz que cansou de cobri-los", afirma. Bolzoni, contudo, é otimista em relação aos avanços da polícia conta os mafiosos. Em novembro, um megajulgamento condenou 110 pessoas acusadas de pertencer à Ndrangheta a sentenças de até 16 anos de prisão. Operações desse tipo, de proporções variadas, têm se tornado cada vez mais frequentes. "Tudo tem um início e um fim. Devemos acreditar e, principalmente, trabalhar para enfrentar e derrotar as máfias", diz Bolzoni.

A ênfase dada por ele ao verbo trabalhar faz sentido. Majoritariamente católicos, os italianos, mafiosos ou não, mantêm suas crenças religiosas e evocam proteção divina com a mesma devoção. Paradoxalmente, São Miguel Arcanjo, o protetor da polícia italiana, é também conhecido como o "santo da Ndrangheta" e sua imagem usada no ritual de aceitação ao grupo. Rezar, nesse caso, vão vai mesmo ajudar.

Lançamentos recentes de não ficção sobre máfia

"Máfia Export" (Francesco Forgione, 2011, Bertrand Brasil) – De forma didática, o autor explica como as máfias italianas "colonizaram o mundo". Mapas adicionais revelam as rotas do tráfico e a presença de diversas famílias mafiosas em praticamente todos os países.

"Honra Teu Pai" (Gay Talese, 2011, Companhia das Letras) – Reedição do clássico de 1971 que detalha o cotidiano de Joseph Bonanno, líder de uma das cinco principais famílias mafiosas de Nova York, que leva seu sobrenome, e as origens do clã.

"Os Últimos Mafiosos" (John Follain, 2010, Larousse do Brasil) – Narra a ascensão e queda do clã Corleonese liderado por Salvatore Riina, que promoveu um banho de sangue durante seu reinado na Cosa Nostra.

"Máfia" (Petra Reski, 2010, Tinta Negra) – A autora se debruça no caso conhecido como "Massacre de Duisburg" e na atuação da calabresa Ndrangheta fora da Itália.

"Novas Tendências da Criminalidade Transacional Mafiosa" (Alessandra Dino e Walter Fanganiello Maierovitch, 2010, Unesp) – O livro explica como os grupos criminosos mafiosos atuam globalmente, e livremente, movimentando bilhões de dólares por ano.

"Infiltrado" (Jack Garcia, 2009, Larousse do Brasil) – A história de um investigador do FBI que consegue se infiltrar na família Gambino, de Nova York, culminando na operação mais bem-sucedida da história da agência.

"O Traidor" (Jimmy Breslin, 2008, Larousse do Brasil) – A obra conta a história da máfia nos EUA com base no depoimento nos tribunais de Burt Kaplan, o traidor, contra policiais corruptos.

"Gomorra" (Roberto Saviano, 2008, Bertrand Brasil) – O jornalista, que atualmente vive sob proteção policial, descreve as operações e as atividades da Camorra, de Nápoles.

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