Livro reúne crônicas e cartas de Otto Lara Resende

"O Rio É Tão Longe" traz cartas enviadas a Fernando Sabino e uma seleção de crônicas dos anos 1990

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Otto Lara Resende (1922-1992)
Nelson Rodrigues, que, por pura perversidade, batizou sua peça "Bonitinha, mas Ordinária" de "Otto Lara Resende", dizia do amigo que o mineiro era tão bom de papo que deveriam colocar um taquígrafo atrás dele e depois vender suas anotações em uma loja de frases.

Não há como discordar do dramaturgo quando se lê as cartas que o jornalista e escritor Otto Lara Resende (1922-1992) enviou ao amigo Fernando Sabino, agora reunidas no livro "O Rio É Tão Longe", que chega na quarta-feira às livrarias junto a uma seleção de crônicas dos anos 1990, "Bom Dia para Nascer", feita por Humberto Werneck, colunista do jornal "O Estado de S. Paulo".

O jornalista e escritor, também mineiro, é o responsável pela introdução e notas que acompanham as cartas a Sabino e também organizador da coleção dedicada a Otto pela Companhia das Letras, agora reeditada com títulos inéditos.

Werneck lembra, na introdução de "O Rio É Tão Longe", que Otto Lara Resende adorava ler cartas, desconfiando que a correspondência de Flaubert fosse até mais popular que Madame Bovary. Depois que Fernando Sabino lançou "Cartas na Mesa" (Record, 2002), revelando parte de sua correspondência com Otto, era de se esperar a sequência desse romance epistolar entre dois dos "quatro cavaleiros do Apocalipse íntimo" - como batizou Drummond o quarteto de companheiros mineiros Otto, Sabino, Paulo Mendes Campos e o psicanalista Hélio Pellegrino.

Otto e Sabino foram amigos por mais de meio século. Conheceram-se na juventude, ainda em Minas, e não se largaram mais. Sabino publicou dois livros seus pela Editora do Autor, fundada por ele, Rubem Braga e Walter Acosta em 1960: o romance "O Braço Direito" e o livro de contos e novelas "O Retrato na Gaveta".

Poderia ter publicado ainda outros, não fosse Otto um bibliófobo (ele tinha horror de se ver exposto em livrarias), como o definiu o amigo Pellegrino. Sabino até propôs editar as cartas, mas, segundo Werneck, a ideia não o animou, apresentando como justificativa a correspondência trocada entre Henry Miller e Lawrence Durrell, que o deixou "arrasado".

Sem motivo. "O Rio É Tão Longe" pode ser lido como o "melhor Otto", aposta Werneck. Nele, o adido cultural da embaixada do Brasil em Bruxelas, entre 1957 e 1959, conta casos inacreditáveis que testemunhou em sua temporada belga (além da lisboeta, nos anos 1960), reclamando, como sempre, da falta de resposta dos missivistas Fernando, Paulo e Hélio. "Estou convencido de que sou o último cidadão que ainda se dedica a este gênero obsoleto que é o epistolar", reclamava.

As reclamações, aliás, começam já em 1957, ano em que publica o polêmico "Boca do Inferno", livro de contos que provocou polêmica e deixou horrorizado seu pai Antonio, representante do meio católico conservador mineiro, por mostrar que o mundo infantil, longe de ficar perto do céu, estava mais próximo da morada de Lúcifer.

Até o fim Otto desconfiou de que algumas crianças traziam a marca da maldade impressa na alma, como o do garoto do conto "Gato Gato Gato", que mata a tijoladas um pobre felino que dorme junto a um tanque. Sem ser propriamente um jansenista, Otto parecia mais próximo de outro católico, o francês Georges Bernanos, embora posasse de existencialista e imprecasse contra o reino dos céus (ele implicava com o regime monárquico celeste, dizendo que a República não havia chegado lá).

As cartas foram até fáceis de editar, mas a crônicas deram um trabalho enorme a Werneck, que teve de reler as 508 que Otto escreveu. Na edição anterior dessas crônicas, publicadas na "Folha de S. Paulo" entre 1991 e 1992, o editor Matinas Suzuki Jr. havia escolhido 192 delas. A seleção de Werneck tem 74 a mais. São 266 crônicas, entre elas algumas comoventes, como a história do primeiro salário do escritor, aos 16 anos, que um bueiro levou num dia de chuva violenta.

Para Werneck, o livro das cartas revela um Otto bem diferente do ficcionista sombrio, de alma barroca - afinal, era um homem de São João del-Rei, "o fundo da Idade Média", segundo ele -, que escrevia contos quase camusianos como "O Porão", sobre um garoto que mata o amigo com um canivete sem motivo aparente, como se fosse um pequeno Meursault. "O Otto ficcionista é um Otto nublado, agoniado, como o de Boca do Inferno e O Braço Direito, mas o cronista é leve", compara Werneck, que conheceu Otto ao traçar um perfil do escritor para uma revista.

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