Livro "Bala na Agulha" é bom de levar na bolsa

Estreia do cantor e compositor Zeca Baleiro na literatura funciona como antídoto contra momentos de tédio

Milly Lacombe, especial do iG Cultura |

Divulgação
Zeca Baleiro
"Todo trabalho artístico é um disfarce nobre para obter poder, dinheiro e sexo. Não necessariamente nessa ordem”.

O pensamento acima, creditado a um certo Zito Vinagre, filósofo de padaria, está em “Bala na Agulha, reflexões de boteco, pastéis de memória e outras frituras”, livro que lança o compositor Zeca Baleiro no universo da literatura.

Logo no começo, uma explicação: a obra não obedece à reforma ortográfica de 2008, “pelo fato de o autor se recusar a escrever palavrões como autorretrato e assembleia”.

E assim, com a pirraça, é dado o tom do livro, que está divido em três partes: as primeiras 160 páginas reúnem textos que Zeca Baleiro publicou em seu site desde 2005, e que falam de tudo um pouco: religião, comportamento, semântica, música, literatura, cinema e, até, gastronomia.

A segunda parte leva o nome de “Bestiário pós Moderno” e reúne, entre outras tiradas, a frase de abertura deste texto.

E a última delas, “Curtas e Grossas, e algumas infames”, é um apanhado de pensamentos e versinhos ao acaso – muitos verdadeiramente infames, mas ainda assim divertidos, como é o caso de “Toddy amor que é bayer é bom”.

Fica com a primeira parte do livro, a que reúne as crônicas, o melhor dele. Pincelando opiniões e observações sobre perrengues banais, cotidianos e mundanos, Zeca Baleiro vai se revelando e decodificando. Deliciosas são as passagens a respeito da infância em Arari, interior do Maranhão, e de alguns personagens fundamentais, gente tão protagonista de sua vida.

Não há melhor forma de entender alguém do que resgatar infância, pais, irmãos, vizinhos, bichos de estimação. É quando começamos a formar nossas características, atitudes e a personalidade que nos acompanhará vida afora. E é assim, quase sem pretensões, que Zeca Baleiro se oferece de bandeja para o leitor.

Particularmente, adorei a crônica que esculhamba um dos vocábulos-hit e sem sentido do momento, a palavra “diferenciado”. Durante anos, tive certeza de que se tratava de uma implicância apenas minha, mas Zeca Baleiro veio me tirar da solidão. De qualquer forma, haverá quem diga que o livro de Zeca Baleiro é diferenciado; e, mesmo detestando a palavra, não poderei tirar deles a razão.

Igualmente boa a crônica que defende de forma apaixonada a já antológica cabeçada que o francês Zidane desferiu no estômago do italiano Materazzi durante a final da Copa do Mundo de 2006.

Livro para levar na bolsa ou deixar no carro. Vale na luta diária contra o tédio, pílulas de diversão para toda a hora.

Reprodução
"Bala na Agulha", de Zeca Baleiro
Livro: Bala na Agulha, reflexões de boteco, pastéis e outras frituras, 230 páginas, Ponto de Bala Editora

Autor: Zeca Baleiro

Preço: R$ 30

Personagem: Arari, a pequenina cidade do interior maranhanse onde Zeca Baleiro foi criado. Dá vontade de se mandar para conhecer Arari.

Trecho: “Antevejo o tempo em que haverá algo como death personal stylist, profissionais altamente gabaritados que orientarão o sujeito a morrer da melhor maneira possível. Já ouço a conversa:

- Não, não, enforcado não, enforcado é démodê. Ninguém mais morre enforcado!...

- E bala perdida, que tal?

- Não, não. Com você morando em Sorocaba, improvável…Teria que ir pro Rio e a tendência do próximo verão é morrer na cidade natal, tá por fora morrer longe de casa.

- Hum, afogado talvez?

- Talvez, talvez, se for numa piscina de um hotel luxuoso, com uísque caro e muita cocaína… É, é isso, morte cult essa!"

Por que ler: Para se divertir com opiniões e observações bem-humoradas e criativas do autor, e para decifrar sua personalidade musical e literária formada durante a infância em Arari.

Velocidade de leitura: Uma semana, com pequenas e regulares doses diárias.

Onde guardar: Na bolsa, no carro, na mochila. Livro para ser saboreado aos poucos, quando o dia der uma trégua.

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