Livreiro do Alemão: “Quando o tiroteio começava eu só escrevia”

Otávio Júnior fundou a primeira biblioteca do conjunto de favelas do Alemão no Rio de Janeiro

Beatriz Merched, iG Rio de Janeiro |

Divulgação
Otávio Júnior fundou a primeira biblioteca do Complexo do Alemão
Otávio Júnior caminha pelos estandes da Bienal do Livro com brilho nos olhos. Nas mãos, um exemplar de “O livreiro do Alemão”, obra de sua autoria, recém-lançada pela editora Panda Books, que conta como começou seu amor pelos livros e a trajetória que lhe rendeu o apelido que deu nome ao livro. O trabalho é motivo de orgulho para o rapaz de 28 anos que nasceu e foi criado no conjunto de favelas da zona norte do Rio de Janeiro.

Apaixonado por leitura desde pequeno, Otávio é ator e produtor cultural e começou o trabalho como livreiro há 10 anos com coragem e uma pequena mala com apenas 30 livros. “Batia de casa em casa oferecendo aos moradores atividades de contação de histórias e brincadeiras lúdicas”, contou Otávio.

A iniciativa de emprestar livros aos moradores deu tão certo que, há cerca de um mês, ele abriu a biblioteca Hans Christian Andersen. A “barracoteca”, como o rapaz se refere ao local onde funcionava um antigo salão de forró reformado para abrigar um acervo de cerca de 4 mil livros doados por autores, ilustradores, editoras e pelo Ministério da Cultura. “Meu maior desejo sempre foi aguçar nas crianças o gosto pela leitura. O caminho até aqui foi bem difícil, mas vi que não era impossível”, disse.

Durante o bate-papo com o iG no estande da Secretaria Municipal de Cultura, o rapaz lembrou do medo que os confrontos entre polícia e traficantes da região provocavam. “Quando o tiroteio começava, eu só fazia escrever. Era uma tentativa de amenizar ou esquecer a situação. E foi dessa forma que “O livreiro do Alemão” foi escrito e lançado”, revelou.

Como toda criança seu maior interesse era o futebol. Aos oito anos, Otávio saía de casa todo dia para ver as peladas no campo de terra da comunidade. Numa dessas idas encontrou um livro jogado no lixo. "À tarde faltou luz e como não podíamos assistir a televisão preto e branco, lembrei do livro. Li Dom Ratão e meu amor pela literatura começou”.

Segundo Otávio, sua dedicação e persistência foram fundamentais. “Nunca pensei em desistir. Sei que a minha história é de superação e espero que sirva de exemplo para muitas pessoas”. Otávio também está à frente do Projeto Ler É 10 – Leia favela, blog que desenvolve estratégias para despertar o gosto pela leitura em comunidades de risco social.

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