Laerte em carne, osso e minissaia

Cartunista fala sobre o fato de se vestir com roupas femininas, o abandono de alguns personagens e de sua fama

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Há quase duas décadas Laerte Coutinho faz parte da rotina de milhares de brasileiros. Graças às suas tiras, publicadas diariamente em quatro jornais brasileiros - entre eles a Folha de S.Paulo -, e aos quadrinhos lançados em formato de livros, o cartunista é apontado por público e pela classe artística como um gênio do estilo - título que ele indubitavelmente refuta.

Apesar de ter lançado recentemente a HQ "Muchacha" (Companhia das Letras), história sobre uma série dos anos 1950 e suas reviravoltas que foi definida pelo autor como um "graphic-folhetim", Laerte tem chamado a atenção da mídia nos últimos anos pelo abandono de seus personagens e pela prática do crossdressing, que em resumo consiste em vestir-se com roupas femininas.

Em entrevista ao iG , o cartunista falou sobre a obrigatoriedade de produzir uma tira diária e a maneira como encara a alcunha de gênio - isso, é claro, em meio a diversos questionamentos sobre a onda crossdresser, definido pelo próprio como uma “forma de contestar o parâmetro de gênero" - leia a íntegra da entrevista sobre crossdressing no iG Moda .

iG: Você não cansa de ter de explicar ou mesmo justificar o estilo crossdresser?
Laerte: Não. Se as pessoas estão perguntando é porque alguma preocupação existe e eu acho que é legítima, por isso não tenho problema em responder o que me perguntarem.

iG: Tenho a impressão de que o crossdressing é mais desafiador diante da sociedade do que um homossexual ou um travesti - me parece que as pessoas têm uma enorme dificuldade de entendê-lo.
Laerte: Eu tenho essa impressão também. Não tenho certeza absoluta, mas também tenho essa impressão. Os homossexuais também acham estranho que um travesti não seja necessariamente homossexual. O crossdressing é uma designação completamente social, uma convenção de um preconceito.

Divulgação
Capa da HQ "Muchacha", de Laerte Coutinho
iG: Talvez porque a população já assimilou que um travesti é um homem homossexual, muitas vezes se prostituindo.
Laerte: O crossdresser é um travesti de classe média.

iG: Você acha que, por ser uma pessoa pública, outros crossdressers podem esperar um papel de porta-voz diante da mídia?
Laerte: Nunca me falaram, não. Ultimamente eu tenho visto, porque faço parte de um clube de crossdressers, o Brazilian Crossdressers Club (BCC) - em inglês mesmo, quanto eu entrei já era assim (risos) -, que tem aparecido bastante coisa na imprensa. Talvez seja o momento dessa preocupação. No meu caso apareceu a entrevista da revista "Bravo", depois algumas outras, mas esse fluxo de busca de informação sobre crossdresser e travesti não é só comigo não.

iG: Em suas últimas entrevistas, você comentou um certo desconforto em relação ao seu trabalho como cartunista. Em todos esses anos você já se sentiu prisioneiro das suas tiras ou da obrigatoriedade de manter uma produção diária?
Laerte: Sim, da obrigatoriedade e também de desenhar de um certo modo. Tanto é que o que eu tenho feito é em sentido de modificar o modo, já que a obrigatoriedade corresponde à minha necessidade de ganhar dinheiro. O problema é o modo de expressão e o que eu digo com o traço.

iG: Em recentes entrevistas, você disse que aos poucos abandonou seus personagens. A convivência com eles tornou-se desinteressante a ponto de não querer mais trabalhar com personagens fixos?
Laerte: A convivência, quer dizer, a coisa toda me pareceu um ciclo completado, e eu não sei, me cansa um pouco de ficar insistindo com algo que já deu o ciclo que tinha que dar.

iG: De todos eles o único que você manteve ativo foi o Hugo. Por quê?
Laerte: Tem a ver com a “travestividade”, uma coisa que estou vivenciando, e eu mantive meio na marra, eu forcei essa existência - de forma natural eu não faria isso. Forcei por ser uma forma de refletir, como para mim a atividade de me travestir é uma coisa nova e misteriosa, e também cheia de informação que não tenho (risos); eu uso o Hugo para fazer essa prospecção.

Reprodução
Duas tirinhas do personagem Hugo, que adotou o nome Muriel ao praticar o crossdressing
iG: Apesar de apontado por muitos cartunistas como gênio - inclusive pela amigo Angeli em sua última entrevista à revista "Trip" - você parece não gostar do título. Por quê?
Laerte: Eu não sou um gênio. Eu tenho um conceito de gênio que é diferente. Gênio pra mim é uma coisa que beira o inexplicável. E eu não tenho nada de inexplicável. Qualquer dimensão minha é bastante explicável, clara. Inexplicável é o Caetano Veloso, de onde vem as coisas, como funciona a cabeça dele, ou o Millôr Fernandes... Essas pessoas pra mim são gênios.

iG: Mas se compararmos aos outros de sua geração, você sempre empurrou o leitor para novos campos, enquanto outros permaneceram em suas áreas de segurança. Isso talvez justifique a alcunha de gênio - você arrisca.
Laerte: Talvez seja isso, para você parece isso? Bom, não sei o que te dizer, é uma impressão de leitor. Eu de fato procuro zonas novas, tenho feito esse tipo de busca.

iG: Se não tivesse a necessidade de pagar as contas e pudesse parar de fazer tiras, você parava?
Laerte: (risos) Eu prefiro responder essa pergunta em cima de uma proposta concreta. É uma pergunta estranha.

iG: Existe algum trabalho na área de quadrinhos que chama sua atenção atualmente? Algum artista ou tira que você avalia bem?
Laerte: Ah sim, muitos, incluindo meu filho [ Rafael Coutinho, autor de "Cachalote" ]. Gente que está na mesma batida que ele, o Rafael Grampá, o Fábio Moon e o Gabriel Bá... Moçada nova, como a do "Beleléu"... eu tenho visto, não cesso de ver novidade e fico muito bem impressionado, muito satisfeito. Já houve momentos de a gente ensaiar alguns trabalhos juntos, e mesmo acontecendo muita coisa até agora, acho que estamos próximos disso.

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