Ingrid Betancourt prova que realidade é mais violenta que ficção

Colombiana relembra cativeiro nas Farc em "Não há silêncio que não termine"

Milly Lacombe, especial para o iG Cultura |

Getty Images
A política Ingrid Betancourt em março, durante evento em Nova York: relato da dura vira na selva
Ela passou seis anos nas mãos de guerrilheiros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), vagando como um nômade pela selva amazônica, de acampamento em acampamento, acorrentada pelo pescoço. Um roteiro violento e bizarro, desses que serve para provar que a realidade tem a capacidade de ser muito mais aterrorizante do que a ficção. Agora, Ingrid Betancourt, 49, ex-candidata ao governo da Colômbia e seqüestrada em 2002 durante a campanha presidencial, coloca a experiência em um livro de quase 600 páginas.

A leitura de “Não há silêncio que não termine” é cativante, tipo de aventura que não deve ser iniciada à noite porque vai fazer você invadir a madrugada virando páginas e páginas – bem escrito, envolvente, dinâmico. Quando foi lançado mundialmente no mês passado, a obra chegou às livrarias com o selo da polêmica. Ingrid tinha sido duramente criticada por alguns de seus companheiros de sequestro, que com ela permaneceram na selva durante esses anos, acusada de ser autoritária, autocentrada e, até, incapaz de dividir comida.

Como o livro é em primeira-pessoa, fica, naturalmente, faltando “o outro lado” da história, o que não chega a comprometê-lo porque mesmo que tenhamos ali uma descrição parcial do que significou a prisão na selva, os acontecimentos são suficientemente fortes para que deles consigamos extrair somente a realidade.

Ataques de formigas gigantes, de vespas e cobras, tentativas frustradas de fuga, espancamentos, humilhações dos mais variados tipos, malária, hepatite, noites debaixo de tempestades tropicais... Para o leitor mais atento, uma ode ao valor da liberdade e uma reflexão sobre o que acontece de pior com o ser humano quando privado dela.

O último capítulo narra em detalhes a bem sucedida e hollywoodiana operação de resgate feita pelo exército colombiano em julho 2008, acontecimento espetacular que certamente acabará retratado em filme nos próximos anos.

Divulgação
“Não há silêncio que não termine” em miúdos

O quê
"Não há silêncio que não termine" (Companhia das Letras, 553 páginas)

Autor a
Ingrid Betancourt

Por que ler
Para refletir sobre segurança e liberdade, valores que em nossas vidas cosmopolitas existem separadamente – na relação “ou um, ou outro” – mas que, no livro, alcançam a brutal e inimaginável condição de faltarem ao mesmo tempo, impondo esforço de sobrevivência jamais experimentado.

Velocidade de leitura
Rápida. Os capítulos são curtos e bem pensados porque, ao terminarem, deixam sempre um leve suspense no ar, fazendo com que você queria “ler apenas mais um”.

Trecho
“Eu bebia pouco e não comia nada. Excretava continuamente uma água esverdeada que me dilacerava o corpo, vomitava sangue, mais por cansaço do que por violência, e minha pele estava coberta de pústulas que coçavam e que eu arrancava. (...) Pipiolo apareceu certa noite, olhos fixos e voz melosa. Abriu meu cadeado e soltou alguns elos da corrente em meu pescoço. Queria que eu agradecesse.

- Vai se sentir melhor assim, recuperar o apetite.

Que idiota, fazia tempos que aquela corrente já não me incomodava”

Personagem
Lucho, senador colombiano sequestrado antes de Ingrid e com quem ela se encontra em um dos acampamentos. Segundo a narração, Lucho mantém o bom humor mesmo sob as condições mais cruéis. E os dois, que ficaram muito ligados por afinidade, protagonizam juntos uma tentativa frustrada, mas cinematográfica, de fuga. É impossível não se apegar a Lucho.

Preço
R$ 45

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