iG Recomenda - Prólogos de Borges

Prólogos escritos pelo escritor argentino são reunidos em livro que acaba de ganhar edição brasileira

Augusto Gomes, iG São Paulo |

Divulgação
O escritor argentino Jorge Luis Borges
"Creio desnecessário esclarecer que Prólogo de Prólogos não é uma locução hebraica superlativa, à maneira do Cântico dos Cânticos (assim escreve Luis de León), Noite das Noites ou Rei dos Reis. Trata-se, simplesmente, de uma página para anteceder os dispersos prólogos selecionados por Torres Agüero Editor, cujas datas oscilam entre 1923 e 1974. Uma espécie de prólogo, digamos, elevado à segunda potência".

É com esse parágrafo que o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) inicia o Prólogos, com um Prólogo de Prólogos , livro originalmente publicado em 1975 que reúne prólogos que ele escreveu para quase quarenta obras. Uma coletânea de introduções, portanto. Descrito assim, o livro parece interessar apenas a estudiosos de literatura ou fanáticos por Borges. Longe disso.

Borges, não custa lembrar, era um leitor voraz. Por isso mesmo, em seus contos há bibliotecas intermináveis ("A Biblioteca de Babel") e livros infinitos ("O Livro de Areia"), além de enciclopédias sobre planetas inexistentes ("Tlön, Uqbar, Orbis Tertius") e tentativas de recriar o Dom Quixote ("Pierre Menard, Inventor de Quixote"). Sua ficção é repleta de livros imaginários. A diferença é que, aqui, ele escreve sobre livros reais.

A orelha do livro exalta "o encanto da frase lapidar" e "a graça da ironia cortante" destes textos. São duas das principais características da ficção de Borges, e que também aparecem nestes prólogos (não somente elas: a erudição, a surpresa e o humor também estão presentes). O leque de obras prefaciadas vai do Macbeth da Shakespeare às Crônicas Marcianas de Ray Bradbury.

Reprodução
Detalhe da capa do livro "Prólogos,
com um Prólogo de Prólogos"
Algumas de suas observações são brilhantes. Sobre Franz Kafka, Borges escreve que "o argumento e o ambiente são o essencial; não as evoluções da fábula nem a penetração psicológica" (prólogo de A Metamorfose , de 1938). Sobre Henry James, destaca sua "voluntária omissão de uma parte do romance, que nos permite interpretá-lo de um modo ou de outro; ambos premeditados pelo autor, ambos definidos" (prólogo de A Humilhação dos Northmore , de 1945).

Outros destaques são os prólogos de A Invenção de Morel (Adolfo Bioy Casares) e Crônicas Marcianas (Ray Bradbury). Neles, Borges faz defende dois gêneros literários considerados menores, a aventura e a ficção. No primeiro, exalta seu "intrínseco rigor", que não admite "nenhuma parte injustificada". Sobre o segundo, diz que há poucas experiências fundamentais e, para transmiti-las, tanto faz recorrer "ao 'fantástico' ou ao 'real'".

É por observações como essa que estes prólogos mostram que, além de grande escritor, Borges era um senhor crítico.

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