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iG Recomenda - Ian McEwan

Mesmo sem representar o melhor do autor, livro Solar é divertido e relevante

Sérgio Rodrigues, colunista do iG |

Divulgação
O escritor inglês Ian McEwan
Solar , o novo romance do inglês Ian McEwan, saiu há cerca de um mês em seu país e ainda não tem data prevista de lançamento no Brasil. Quem puder lê-lo no original não deve perder tempo, e quem não puder fará bem em ficar atento à chegada da tradução em nossas prateleiras. Mesmo sem representar o melhor do autor, o livro, uma comédia que tem como pano de fundo a luta da ciência para dar uma resposta ao aquecimento global, é divertido e – coisa cada vez mais rara na ficção propriamente literária – relevante.

A história tem como protagonista o consagrado físico Michael Beard, burlesca mistura de herói e anti-herói: ganhador do Nobel ainda jovem por suas pesquisas sobre a luz, que corrigiram e aprimoraram certas concepções de ninguém menos que Albert Einstein, o roliço Beard é também um glutão que enfileira casamentos fracassados, envolve-se numa trama criminosa, é incapaz de manter um mínimo de ordem em seu apartamento dantesco e exibe falhas gritantes de caráter.

O paralelo vai ficando cada vez mais óbvio à medida que a leitura avança, embora McEwan se detenha a um passo de torná-lo explícito: Beard está doente como a Terra, e suas tentativas de salvá-la esbarrarão em sua completa impossibilidade de salvar-se primeiro. A ideia seria simplória numa narrativa realista como, por exemplo, Reparação (no qual se baseou o filme Desejo e Reparação ), obra-prima de McEwan e um dos melhores romances deste início de século. No tom de farsa predominante em Solar , é diversão garantida.

Mesmo este tom, porém, não é suficiente para que o leitor engula sem algum esforço a sequência de coincidências que faz todos os problemas de Beard – afetivos, financeiros, científicos, criminais e médicos – convergirem para um clímax certinho demais na pequena cidade americana do Novo México onde ele está prestes a inaugurar o protótipo de sua usina de fotossíntese artificial, solução definitiva (ou não?) para a crise energética do planeta.

Título menor na obra de McEwan, Solar é relevante porque seu autor é uma raridade nos dias de hoje: grande em seu ofício, recusa o papel de pregador para iniciados que a cultura contemporânea tenta impingir ao escritor, como se a literatura, com seu prestígio social em declínio, só fizesse sentido como explicadora de si mesmo. Solar reflete sem pudores o mundo lá fora. Um mundo que, sob muitos aspectos, é tão patético quanto o balofo Michael Beard.

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