História de um infanticídio

Em Dar a Alma, professor italiano da Universidade de Pisa aborda os desdobramentos de um crime ocorrido no século 18

Antonio Querino Neto, especial para o iG Cultura |

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O autor italiano Adriano Prosperi: inspirado pela história de uma jovem do século 18
O que leva uma moça pobre e solteira a assassinar o próprio filho que acaba de nascer? Um episódio assim, tão tenebroso quanto comum ao longo da história, é o gancho que empurra o historiador italiano Adriano Prosperi a mergulhar num ambicioso projeto historiográfico.

A jovem que inspirou a longa pesquisa desse professor da Universidade de Pisa chamava-se Lucia Cremonini. Era empregada doméstica, órfã de pai, e cometeu o crime em 1709, na cidade de Bolonha, após uma gravidez escondida.

De sua vida restaram poucos vestígios preservados nos autos do processo, que são analisados até a exaustão pelo historiador. Em princípio negado, depois confessado e rigorosamente periciado, já que a medicina legal estava bem evoluída na época, o delito foi punido com a morte da mãe.

Esses são os fatos dos quais parte o olhar de Prosperi, que se amplia cada vez mais, traçando um gigantesco painel do século 18 naquela região, o que envereda por questões morais, jurídicas e filosóficas.

A mera repetição na história de algo tão nefasto já diz muita coisa, observa o autor. Para ele, o infanticídio sempre foi marcado por um misto de horror e fascínio, devido à insistência com que é abominado ao lado do mórbido interesse com o qual é sempre descrito em todos os detalhes, como uma espécie de obsessão doentia da humanidade.

O historiador voa alto em sua investigação, bem acima do que diz aquele caso isolado. Dá detalhes do funcionamento das mentalidades, leis e costumes naqueles tempos que antecedem a Revolução Francesa e disserta sobre a tutela da Igreja e do Estado sobre a sexualidade.

Consta que Lucia, que nada possuía além da própria honra, teria sido deflorada por um jovem padre durante um Carnaval, resultando na gravidez indesejada. Nesse contexto, as leis canônicas e o significado da “festa pagã“ são também longamente explicados. A obra aborda a visão que aquele século tinha sobre os recém-nascidos, e sobre a vítima em particular, essa pequena criatura que mal acaba de vir ao mundo e já o abandona, sem batismo (o segundo nascimento), sem nome, sem poder ter uma sepultura. Um “não homem“, portanto.

Mas as páginas mais instigantes são mesmo as que tentam desenhar a história do infanticídio e da mancha nefasta que é colocada sobre mães que o cometeram. Há lendas (tão absurdas quanto reprisadas com uma insistência assustadora) que atribuíam aos judeus o hábito de assassinar criancinhas em seus rituais. Outro estereótipo recorrente é o das bruxas (também tidas como devoradoras de crianças), que se relaciona com a suspeita em torno da profissão de parteira, praticada por senhoras idosas e conhecedoras de poções misteriosas.

Prosperi esbanjou erudição e conhecimento de documentos nesse trabalho, sua primeira obra publicada no Brasil. No entanto, faltou extrapolar um pouco o tom pesado de tratado acadêmico (as vezes prolixo e repetitivo) que o livro não consegue evitar e costurar todo esse material numa narrativa mais interessante, fluente e menos árdua para o leitor.

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Detalhe da capa do livro









Dar a alma – História de um infanticídio

de Adriano Prosperi

Tradução de Federico Carotti

Companhia das Letras, 528 págs, R$ 57

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