Romance A máquina de Joseph Walser encerra tetralogia do escritor português

Em sua carreira, Gonçalo M. Tavares já ganhou os prêmios José Saramago e Portugal Telecom
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Em sua carreira, Gonçalo M. Tavares já ganhou os prêmios José Saramago e Portugal Telecom
A máquina de guerra mais antiga que há é o homem. Nela, em forma de rascunho, em estado embrionário, já estão presentes todas as lâminas, todos os projéteis. É com homens e máquinas num contexto de guerra que o escritor português Gonçalo M. Tavares trabalha em A máquina de Joseph Walser , de 2004, que ganha agora edição brasileira. Joseph Walser trabalha como operador de uma grande engenhoca de função indefinida e vive com a mulher, a quem não ama, numa cidade que se converte, sem explicações, em praça de guerra.

Desde sua chegada, o conflito torna-se parte do cotidiano em tons de absurdo da cidade, no qual os homens e as coisas não têm função nem sentido definidos e que possam servir de balizadores morais ou éticos. Na literatura de Tavares, a ausência de sentido e a guerra caracterizam território e tempo férteis para o Mal, tema maior de sua tetralogia “O Reino”, composta também por Um homem: Klaus Klump , Aprender a rezar na Era da Técnica e Jerusalém (vencedor dos prêmios José Saramago, em 2005, e Portugal Telecom, em 2007), todos já publicados no Brasil.

A personagem de Walser se insere nessa moldura pelo desinteresse: não questiona a guerra nem a traição da esposa, não interage no trabalho nem troca palavras com os companheiros de jogo de dados. Como Bartleby, célebre personagem criado pelo norte-americano Herman Melville e que, às perguntas ou ordens, responde sempre “acho melhor não”, Walser se nega a participar de seja o que for. Diferentemente de Bartebly, no entanto, cuja recusa não é explicada no interior da narrativa, Walser mantém uma relação que pode fornecer chaves para sua compreensão: a relação com a máquina. Ele “envelhece, mas mantêm a adoração pela ‘sua máquina’ de trabalho e por todos os mecanismos. Em diversos momentos o som do motor e o seu trepidar confundem-se com o bater cardíaco, pois ambos os ‘órgãos’ estão em pleno funcionamento, em plena excitação, e encostados um ao outro misturam-se”.

A transformação do homem em máquina e da razão em instrumento de morte – de que as grandes guerras do século 20 nos legaram inúmeros e trágicos exemplos – está no cerne do romance e condiciona a escolha das frases, que são exatas, precisas, desprovidas de excessos. Essa questão, a de o comportamento humano ganhar contornos maquinais, especialmente em situações extremas, ilumina de tal forma o modo de ser das personagens do romance de Tavares que a força do absurdo presente na narrativa diminui significativamente.

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A máquina de Joseph Walser
Gonçalo M. Tavares
Companhia das Letras
168 páginas
R$ 39,00

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