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George Orwell antecipa o jornalismo literário

Em O Caminho Para Wigan Pier escritor expõe feridas da Inglaterra industrial

Guss de Lucca, iG São Paulo |

O Caminho Para Wigan Pier teria tantos ou mais motivos para figurar entre as duas obras famosas de George Orwell, 1984 e A Revolução dos Bichos . Apesar do nome menos atrativo, o livro é tido como precursor do jornalismo literário e, em especial para o público brasileiro, prova que além do futebol, os ingleses foram precursores do conceito de favela que vigora na atualidade.

Divulgação
Capa de O Caminho para Wigon Pier
Ao contrário de seus escritos mais conhecidos, O Caminho Para Wigan Pier dialoga diretamente com outras duas publicações do autor, Na Pior em Paris e Londres e Homenagem à Catalunha - que juntas formariam uma trilogia não-ficcional sobre o mundo da pobreza pela ótica e experiências de George Orwell.

Dividida em duas partes, a obra relata o cotidiano dos operários do norte da Inglaterra, em sua maioria mineiros vivendo com salários de fome e condições desumanas de trabalho - ou desempregados em situações ainda piores, e analisa em tom confessional a maneira equivocada como os socialistas de classe média e a aristocracia decadente tratavam esses trabalhadores.

Quando Orwell começa a narrar seu cotidiano na pensão do casal Brooker, que também funcionava como tripe shop , ou açougue especializado em tripa, é quase impossível não traçar um paralelo - mesmo que acidentalmente - com os cortiços existentes em grandes cidades brasileiras.

As maneiras como as pessoas se espremiam em imóveis insalubres, tratados pelo autor como "favelas", mostram que um operário inglês pobre era tão miserável quanto um operário pobre de qualquer lugar do mundo, salvo algumas peculiaridades culturais.

Suas imundas residências só não eram piores que as minas de carvão onde trabalhavam. Nelas, homens cumpriam jornadas diárias de sete horas e meia ajoelhados, quase que sem roupas e inteiramente cobertos de fuligem negra, tudo em ambientes escuros de 1,20 metros de altura.

"Nesses momentos a mina é como o inferno", relata Orwell. "A maioria das coisas que a gente imagina que existam no inferno está ali - calor, barulho, confusão, escuridão, ar fétido e, acima de tudo, um aperto insuportável."

Reprodução
O escritor George Orwell
Na segunda parte do livro, Orwell faz mea culpa e permite que o leitor esmiúce suas origens, como se tentasse ganhar crédito antes de disparar críticas ácidas a classe média britânica, tanto aquela que compra os preceitos socialistas, mas que não confraterniza com os trabalhadores, quanto a que não perde a pompa aristocrática, mesmo tendo que dividir seu espaço com o operariado.

Ao contrário de A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra , de Friedrich Engles, que tratou o mesmo tema quase que um século antes, O Caminho Para Wigan Pier é escrito de uma maneira mais convidativa, colocando o leitor ao lado do autor em suas andanças pelas cidades industriais enegrecidas de fuligem e habitadas pelo proletário britânico.

Esse desprendimento com a descrição pura e simples, somado a liberdade de comentários e análises de Orwell, faz com que O Caminho Para Wigan Pier seja apontado como precursor do jornalismo literário, gênero onde o autor descreve a realidade em tons ficcionais. E é, sem dúvida, o grande atrativo de uma obra com conteúdo tão pesado.

Trecho das descrições das minas de O Caminho Para Wigan Pier :

Observando os mineiros trabalharem, você percebe, por um breve instante, como são diferentes os universos habitados por diferentes pessoas. Os subterrâneos onde se escava o carvão são uma espécie de mundo à parte, e é fácil viver toda uma vida sem jamais ouvir falar dele. É provável que a maioria das pessoas até prefira não ouvir falar dele. E, contudo, esse mundo é a contraparte indispensável do nosso mundo da superfície. Praticamente tudo que fazemos, desde tomar um sorvete até atravessar o Atlântico, desde assar um filão de pão até escrever um romance, envolve usar carvão, direta ou indiretamente.

O Caminho Para Wigan Pier
George Orwell
270 páginas
Companhia das Letras

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