¿Fiquei como um zumbi¿, diz Vargas Llosa sobre Nobel

Escritor peruano concedeu entrevista coletiva em Porto Alegre antes da palestra que dará à noite

Alexandre Haubrich, iG Porto Alegre |

Futurapress
Mario Vargas Llosa durante a coletiva que antecedeu sua conferência do Fronteiras do Pensamento
Mario Vargas Llosa chegou com pontualidade à coletiva que antecedeu sua conferência do Fronteiras do Pensamento, que acontecerá na noite de hoje em Porto Alegre. Os jornalistas foram avisados que apenas as perguntas feitas com antecedência seriam respondidas, que a entrevista teria uma hora e meia, e que o escritor peruano não daria autógrafos. O tratamento de estrela não é por acaso: Mario Vargas Llosa foi anunciado há exatamente uma semana o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.

O escritor jura que, ao receber a ligação anunciando o prêmio, lembrou-se de um trote recebido pelo escritor italiano Alberto Moravia, e acreditou tratar-se de uma brincadeira do tipo. A voz do outro lado disse que, em 14 minutos, a notícia seria oficial. “Foram 14 minutos de ansiedade”, disse Llosa. O autor de "Travessuras de Menina Má" explica que ficou, então, “como um zumbi, como se outras forças conduzissem meus movimentos”.

Ex militante de esquerda, ex simpatizante da Revolução Cubana e atual defensor do liberalismo e da social democracia, Vargas Llosa não se furtou a responder a mais perguntas sobre política do que sobre literatura. Disse que a situação da América Latina melhorou muito, que hoje as ditaduras são exceções, mas criticou alguns governos: “Temos uma ditadura em Cuba, uma semiditadura com Chávez, governos populistas com tendências autoritárias, como na Bolívia e na Nicarágua, mas também temos governos de esquerda que respeitam a democracia, como no Uruguai e no Brasil, e uma direita democrática, que não quer mais dar golpes, como no Chile, na Colômbia e no Peru”, afirmou o escritor.

Mudanças na visão política e na literatura

Não foi apenas em relação à política que Llosa modificou suas posições com o passar do tempo. Sua literatura também foi perdendo, aos poucos, a influência de Sartre. Após começar a escrever vendo na literatura uma forma de buscar mudanças sociais, de intervir na vida pública, sua percepção mudou: “Com o tempo, vi que a realidade não confirmava essa possibilidade. A literatura tem efeito, mas é um efeito apenas indireto, e não pode ser controlado pelo escritor”, disse.

Com o livro "Pantaleón e as Visitadoras", lançado no Brasil em 2003, Vargas Llosa diz que abandonou outra ideia de Sartre: “Descobri que o humor podia ser usado para fazer literatura”, conta, explicando que, para Sartre, nem um sorriso era permitido.

Mesmo com a literatura em pauta e com o Prêmio Nobel fresquinho, a política fica um pouco à espreita e logo volta à tona, com o Brasil em discussão. O escritor elogia o governo Lula, diz que há um grande reconhecimento internacional e que o Brasil “é visto como um exemplo a ser seguido”. E que, ao contrário do que se temia que Lula faria após assumir, o petista respeitou a democracia, e aplicou na economia fórmulas da social democracia. Vargas Llosa criticou, porém, a relação de Lula com Cuba, Venezuela e Irã.

Sobre as eleições brasileiras, o peruano disse não estar muito informado, mas comemorou “que haja eleições”, e afirmou esperar “que os brasileiros votem com consciência, para que o governo que venha mantenha as conquistas que o atual alcançou e corrija os problemas que este teve”.

Muitas mudanças com os anos, poucas mudanças com o Nobel

Com opiniões mutantes sobre política e literatura, Mario Vargas Llosa não acredita que sua forma de escrever poderá mudar a partir do Prêmio Nobel. “Não creio que o prêmio vá ter influência na minha literatura, não vai mudar para melhor nem para pior, nem vai influenciar nos temas, que foram construídos e escolhidos por mim”, garante. O escritor admite, porém, que a vida pessoal não será mais a mesma: “Minha vida vai ser alterada, minha privacidade vai diminuir, terei dificuldades para me isolar, o que é necessário para escrever”, lamentou.

O escritor preferiu não responder a duas perguntas, que tratavam de seu conceito de cultura. Isso porque é esse o fio condutor da conferência que dará à noite, como parte do curso de alta cultura Fronteiras do Pensamento. A língua de poucas papas de Vargas Llosa ainda tem muito a dizer, e suas palavras não cabem em uma hora e meia de coletiva.

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