Exclusivo: O primeiro capítulo do livro do ator Carlos Vereza

Na obra ele narra como sua vida mudou a partir de um acidente na gravação de um seriado global. Comente

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Divulgação
Capa do livro "Efeito Especial"
Carlos Vereza lança no dia 25 de março o livro “Efeito Especial – Estilhaços Biográficos”, pela editora Ibis Libris. Atualmente no ar na novela “ Amor Eterno Amor ”, da TV Globo, Vereza concedeu em novembro do ano passado uma entrevista exclusiva ao iG , na qual relatou (e exibiu um vídeo ) sobre o que acredita ser a presença de extraterrestres próximos à janela de seu apartamento, no Rio. “Os extraterrestres estão limpando a crosta terrestre das explosões atômicas que acontecem no sul do oceano pacífico”, disse na ocasião. A matéria teve grande repercussão .

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O livro marca os 53 anos de carreira do ator, com prestígio nacional construído a partir de memoráveis papéis na televisão, premiado no teatro e com atuação marcante também no cinema.

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O primeiro capítulo da obra está disponível a seguir. Já nas primeiras linhas, Vereza relata um incidente ocorrido durante a gravação do seriado “Delegacia de Mulheres”, da TV Globo, há 22 anos. A partir do episódio detalhado, ele narra como se deu seu primeiro contato com o espiritismo, religião que segue até hoje.

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Primeiro Capítulo:

LAPA 1990

Lapa. A las cinco en punto de la tarde. O sol a meio metro de minha cabeça, enquanto olhava o ponteiro do relógio da Central, arquitetura stalinista. O poema de Drummond sobre a morte de Lorca. Odeio os trópicos. Depois eu edito. Um “descamisado” que provavelmente votou em Collor, anuncia refresco de limão verde. Que te quero verde.
Preparo-me para ser baleado por Lúcia Veríssimo, no final de um seriado medíocre. “Delegacia de Mulheres” (
O termo “medíocre” estava presente no texto enviado pela editora do livro. Mas na verdade o adjetivo foi suprimido da versão final já impressa ). O “técnico” em efeitos especiais, executa o que lhe ordena o diretor: “Mais pólvora”! Mais pólvora!”, enquanto eu penso em García Lorca, Nelson Cavaquinho, Assis Valente.
O “técnico” coloca o “efeito” sob meu paletó, no ombro, lado esquerdo: “Atenção! Gravando”! Corri pela calçada, virei-me, como estava marcado. A Lúcia atirou. O “técnico” apertou o controle remoto. Caí, como era para ser feito, o diretor gritou: “Corta!”, e os envolvidos na gravação bateram palmas:
– Valeu, Vereza! Esse é o Vereza!
No princípio era o verbo ou o som... A sensação era de uma reprodução em miniatura do Big Bang dentro da minha cabeça. Meus neurônios enlouquecidos pareciam fragmentos da explosão que se chocavam contra as paredes do meu crânio. Caí. Senti a pólvora entrando pelo meu ouvido como o fogo primordial.
No princípio era o som!
Continuei deitado e via em slow motion os passos do diretor que vinha em minha direção gritando em eco:
– Pode levantar, Vereza! Do caralho! Do caralho!
Tentei ficar de pé, a Lapa rodava, os arcos giravam como uma roda-gigante solta fora do eixo enlouquecida.
– Que foi cara? Que foi?
Era uma voz em eco, e me lembro de ter colocado as mãos nos ouvidos e cambalear até conseguir sentar-me numa mureta. O barulho agora alcançara um volume insuportável. Meu ouvido tinha como contraponto um apito com alguns milhões de decibéis acima do permitido.
Sim! No princípio era o som!
Escorreguei e sentei-me no chão com as mãos apertando ainda mais fortemente os ouvidos.
Vozes:
– Eu falei, porra! Pra que tanta pólvora?”
– Mas foi o senhor mesmo que mandou!
– Bota ele no carro e leva pro Souza Aguiar.
– Não tem mais carro, já foi com parte do figurino.
– Então bota na Kombi da produção e leva ele pro hospital... tal... tal... tal... tal...
O eco foi aumentando, enquanto me enfiavam numa Kombi que também rodava junto com a Lapa.

SOUZA AGUIAR

Um lixo como o próprio país.
Eu: – Tem otorrino?
Funcionário: – Ihh!... O cara da televisão!
Eu: – Cadê o otorrino?
Funcionário: – Deu uma saidinha, me dá um autógrafo?
Eu: – Chama o otorrino, pelo amor de Deus!
Funcionário: – Você não fez “Selva de Pedra”?
Eu: – O otorrino... rino... rino...

CAPITAL FATAL: COMUNISMO, TRISTE UTOPIA
1962

Não. Nunca lera “O Capital”. Admirava mais o Marx pelo caso que tivera com a empregada Lenchen, pelos furúnculos, por ler Shakespeare para suas filhas, pela vida miserável que levara, pelo anjo caído que sonhava a seu modo realizar o paraíso na terra para a humanidade.
Marx e Engels, profetas apocalípticos que revelaram ao mundo a lei da mais-valia, o furto legalizado pelas relações de produção; a infra-estrutura, influenciando a super... etc., a luta de classes, a convicção que o socialismo surgiria primeiramente na Inglaterra, a ditadura do proletariado, a panaceia que redimiria os desequilíbrios sociais... Estudei filosofia com o Mário Alves, posteriormente torturado e assassinado pela Ditadura Militar Brasileira.

PEQUENA PASSAGEM TREPIDANTE DE TEMPO

A Kombi me deixou em casa. Delma, minha mulher na época, “Que foi, Carlos?”, levou-me ao Largo da Freguesia. Tinha otorrino. Delicado como um trator:
– Olha se for tímpano furado tem cura... Agora, se foi no ouvido interno...
Examinou-me, passou uma receita.
– Toma isso de 12h em 12hs Volta na semana que vem. Aqui meu telefone de casa – disse estendendo-me um cartão.
Engraçado, mesmo naquela situação, anos depois, lembro-me de cada take, como se todo aquele absurdo tivesse sido gravado num acetato de carne viva a ferro e sangue.

Serviço :
Noite de autógrafos
Livro “Efeito Especial – Estilhaços Biográficos” (Ed. Ibis Libris)
Dia 25/3, a partir das 18h
R. Rainha Elizabeth, 122, loja E, Copacabana, Rio de Janeiro
Preço: R$ 40,00

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