Editora lança 1º de sete livros da Coleção Bernanos

Primeiro livro do autor francês, que viveu no Brasil entre 1938 e 1945, a ser publicado é "Sob o Sol de Satã"

AE |

Apesar de ter morado na cidade mineira de Barbacena por sete anos, de 1938 a 1945, e ser considerado um dos principais autores franceses do século 20, o escritor francês Georges Bernanos (1888-1948) há anos não é publicado no Brasil. A Editora É, ao comemorar dez anos de existência, decidiu corrigir a falha. Está lançando o primeiro livro publicado por Bernanos, "Sob o Sol de Satã" (1926), e comprou os direitos de outros seis romances seus.

Para o lançamento da Coleção Bernanos, a editora promove hoje e amanhã, com o apoio do Estado, uma palestra e a exibição do filme "Sob o Sol de Satã", adaptado e dirigido por Maurice Pialat. Hoje, o professor de Literatura Comparada João Cezar de Castro Rocha faz uma palestra sobre o livro. Amanhã, ele participa de um debate após a projeção do filme.

"Sob o Sol de Satã" é uma das obras fundamentais de Bernanos, mais conhecido como autor de "Diário de um Pároco de Aldeia" (1936) e "Nova História de Mouchette" (1937), ambos transformados em obras-primas nos anos 1960 pelo cineasta francês Robert Bresson (1901-1999).

Além desses livros, que serão lançados em maio de 2011, a Editora É comprou um título que nunca foi traduzido no Brasil, "Les Grands Cimetières sous La Lune" (Grandes Cemitérios sob a Lua, 1938) e também sua última obra escrita em Minas, "Monsieur Ouine" (Senhor Ouine), publicada na França em 1946. Outros dois livros formam a coleção: "Um Mauvais Rêve" (Um Sonho Ruim,1950) e "Jeanne Relapse et Sainte" (Relapsa e Santa, 1934).

Esse último é considerado pelos críticos uma das obras mais puras e concisas de Bernanos, tratando da vida de Joana D’Arc, da qual sua mulher era parente distante. Escritor católico, sua obra foi definida por Tristão de Athayde como uma "cruzada espiritual para restaurar o sentido da honra no homem moderno".

Bernanos não o faz como um fundamentalista religioso nem dissolve Cristo numa geleia de ideologias - burguesa ou proletária. Era, para usar mais uma vez uma expressão de Athayde, um católico desassombrado, livre e solitário, "que atacava mais seus companheiros de fé que os infiéis". Sua cruzada purificadora contra um mundo dominado pelo tédio e pela indiferença já começa com o confronto com o próprio diabo em "Sob o Sol de Satã".

Nele, um padre de aldeia, Donissan, duvida de sua vocação e acaba topando com o próprio Satã numa estrada rural. Bernanos propõe uma nova visão do sagrado para o homem moderno, racional, autônomo, sem crenças, distante da transcendência. Já na primeira parte do livro, a presença do mal atinge a adolescente Mouchette no próprio corpo, obrigando-a a matar um marquês que a engravidou, a seduzir um médico para fazer um aborto e, finalmente, conduzindo a menina ao suicídio.

Donissan, o padre, considerado um santo na aldeia, ilustra à perfeição a galeria dos personagens atormentados de Bernanos, que enfrentam a tentação voltando-se contra a própria intensidade corpórea, como se trouxessem atados ao físico a serpente do Paraíso. Para transmutar sua incerteza em crença, Donissan vai ao limite, atingindo o paroxismo ao tentar ressuscitar uma criança morta. A simetria entre o bem e o mal vem estampada nesse romance de oposições que aprofunda as questões de "Sob o Sol de Satã". Mouchette também é uma variação do mesmo tema.

Sob o Sol de Satã - Hoje, às 19 h, palestra com João Cezar de Castro Rocha. Amanhã, às 19h, debate. Grátis. Local: É Realizações (Rua França Pinto, 498).

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