Ao lançar o romance Cordilheira pela Companhia das Letras, em 2008, o escritor Daniel Galera deu inicio ao projeto Amores Expressos, série de livros escritos por autores brasileiros que por um período visitaram capitais de outros países e as utilizaram em suas obras.
Agora, dois anos depois, Galera está envolvido em outro projeto que, mesmo sem essa intenção, deve se tornar o primeiro de uma lista de graphic novels publicadas pelo selo Quadrinhos na Cia, que vai misturar escritores e quadrinistas em parcerias inéditas.
O precursor desse movimento é Cachalote, graphic novel escrita por Galera e ilustrada por Rafael Coutinho, cujo lançamento está previsto para maio de 2010. Desenvolvida durante dois anos, a HQ promete ser o apenas o início de uma parceria que, antes mesmo de ter um trabalho publicado, parece ter dado certo.
De passagem pelo estúdio de Rafael Coutinho, em São Paulo, Galera conversou com o iG Cultura e revelou detalhes de sua primeira empreitada no universo dos quadrinhos.
O que é graphic novel para você?
Acho que se pegar a tradução literal, romance gráfico, é isso, uma HQ que tem semelhança narrativa com o romance, mais longa, complexa... Originou um certo modelo de livro nos Estados Unidos. Entendo que o que o romance representa para a prosa, a graphic novel representa para os quadrinhos.
Você poderia ter escrito Cachalote como um livro? A possibilidade existiu?
Possivelmente sim, mas a ideia surgiu para o formato de HQ. As ideias da Cachalote se prestariam a um romance literário, mas nunca foram pensadas dessa forma. Conheci o Rafa no fim de 2007 e desde o início decidimos que trabalharíamos juntos, e resolvemos fechar a parceria sem ter a história pronta.
Tivemos um momento inicial de contar nossas ideias um para o outro e selecionamos coisas que achamos legais. Juntamos um conjunto de histórias que já nasceram como uma HQ, não eram ideias de romances adaptadas. Mas pensando nas histórias, poderiam ser feitas em forma de romance.
Qual foi a sua participação na criação da graphic novel?
A gente trabalhou junto o tempo todo, desenvolvendo os personagens, as histórias, tudo foi feito em conjunto. O que fiz como escritor e roteirista foi colocar tudo no papel, primeiro num formato mais livre, literário, e depois adaptando para o formato das HQs, pensando na imagem com texto.
Mas trabalhos juntos o tempo todo. O Rafa sempre estava comigo, intervindo, fazendo esboços, e eu também participei vendo o que ele desenhava, sugerindo mudanças... Apesar de termos domínios diferentes, a criação da HQ foi em trabalho conjunto o tempo todo.
Pretende fazer mais trabalhos em quadrinhos?
Acho que sim. Gostei muito da experiência, gostaria de trabalhar com HQs de novo. Eu e o Rafa temos ideia de voltar, mas não há um trabalho pensado no momento. Só uma disposição mútua de fazer um trabalho juntos. Acho que vai acontecer.
Conseguiu escrever outras coisas enquanto o Rafael desenhava?
Fiquei acho que em 2008 e até metade de 2009 mais focado em trabalhar na "Cachalote". Fiz outros trabalhos de literatura, coisas pequenas, mas só em outubro de 2009 que comecei um novo romance. A parte mais pesada da Cachalote já estava pronta.
Há expectativa que o sucesso da Cachalote impulsione o mercado nacional de graphic novels?
Eu não diria dessa forma, acho que ela não é detonadora de uma tendência, ela faz parte dessa tendência de novos autores de HQs e escritores que se envolvem nisso. Não gosto de pensar que temos um papel que desencadeou, mas que somos parte de um processo. Não vejo a Cachalote como uma espécie de marco, seria pretensioso pensar assim. Somos mais um no meio de uma tendência.
Você sempre leu gibis?
Desde pequeno eu lia Groo, o Errante, mas nunca fui muito de ler histórias de super heróis. Não acompanhava as séries mensais, mas lia as graphic novels como Elektra Assassina, de Frank Miller. Eu comprava o que saía de graphic novel nas bancas.
E as graphic novels mais autorais, alguma preferência?
Eu gosto muito de ler coisas mais inspiradas pelas HQs européias, menos heróis, histórias mais urbanas, contemporâneas. Muitas coisas que a Conrad lançou, ela fez um trabalho muito importante lançando graphic novels antes de todo mundo começar a lançar.
Dos títulos que me lembro de ter gostado estão Black Hole, O Epilético... são o tipo de coisa que eu gosto.