Discussão em torno do Jabuti é um Fla-Flu literário

Colunista de livros comenta a polêmica gerada pelo prêmio dado a Chico Buarque

Milly Lacombe, colunista do iG |

São tempos de confrontos diretos. O mata-mata pode ter acabado no campeonato brasileiro, mas certamente não nos abandonou em outros campos da vida.

Emprestei a expressão da colunista da Folha de S.Paulo, Barbara Gancia, que chamou as discussões políticas da última eleição, pelo calor, de Fla-Flu eleitoral.

Agora, o Jabuti, dos mais importantes prêmios literários do Brasil, e toda a polêmica em torno da vitória de Chico Buarque e de seu “Leite Derramado”, que ficou com o caneco máximo, virou um Fla-Flu, com torcedores se espetando e se espezinhando de lado a lado; e a opinião pública dividida entre os que acham que Chico merece porque é genial também como autor, e os que acham que o prêmio foi concedido em caráter político, já que o vencedor é declarado eleitor do PT, e que o melhor livro é, sem dúvida, “Se eu Fechar os Olhos Agora”, de Edney Silvestre, que acabou sendo garfado.

Divulgação
O escritor Edney Silvestre
Vamos dividir esse jogo em dois tempos.

É possível que o prêmio tenha sido concedido com base em invisíveis critérios políticos?

Claro que é, e pensar isso não pode nem ser considerado teoria da conspiração. Desde que o primeiro homem andou por aqui, sexo e dinheiro (ou amor e poder, ou sedução e política, chamem como quiserem) movem, ainda que à espreita, todos os nossos atos. Interesses politicos estão por aí, e pensar diferente é pura ingenuidade.

É também possível que Chico Buarque, gênio musical, seja também autor que mereça deferência com um prêmio desse calibre?

Sem dúvida, e Chico, aliás, já ganhou o prêmio principal do Jabuti com “Budapeste”, em 2004, mesmo ficando em terceiro lugar em sua categoria de origem. Na época, se não me engano, não houve tanto barulho.

Boa parte da polêmica, aliás, se deve ao fato de “Leite Derramado” ter ficado em segundo lugar na categoria “romance”, atrás do elogiado “Se eu Fechar os Olhos Agora”, mas ter papado o prêmio geral.

O problema é que a possibilidade de um livro perder em sua categoria mas vencer no overall sempre esteve no regulamento, regulamento que todos viram antes de entrar na disputa.

E situação que não chega a ser incomum no Jabuti - em 2008, Ignácio de Loyola Brandão também venceu na principal, mesmo tendo ficado em segundo lugar na categoria de origem.

Embora, claro, aquela premiação não tenha acontecido no dia seguinte de uma disputa política das mais quentes, com o autor premiado apoiando abertamente o lado vencedor.

Me parece que estamos na situação do time que, no final do campeonato, não quer que a disputa seja decidida no saldo de gols, mesmo tendo aprovado o regulamento antes mesmo da primeira rodada. Depois de perdido o campeonato, não é mais hora de reclamar.

O que pode ser feito, e, ao que consta, é o que a Record fará, é não inscrever mais seus livros em uma competição na qual o regulamento desagrade. Ou, outra alternativa, jogar à luz as esquisitices do regulamento antes da disputa começar, e abrir diálogo.

Mas é igualmente importante saber que uma disputa que é definida pela opinião de pessoas rigorosamente diferentes estará sempre aberta a polêmicas. E talvez essa seja justamente uma de suas riquezas.

Porque o diabo da opinião, coisa que custamos a entender, é que não há a certa e a errada. Mas apenas a sua e a minha. E, diante delas, poderemos sempre discordar. Civilizadamente.

PS. Na minha opinião, o livro de Edney é melhor do que o de Chico. Mas essa é simplesmente a minha opinião.

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