Crime e castigo em Portugal

Romance de José Cardoso Pires reconstitui de forma primorosa um fato policial ocorrido durante a ditadura de Salazar, nos anos 60

Antonio Querino Neto, especial para o iG Cultura |

Um crime sangrento, repleto de detalhes obscuros, desses que as páginas policiais da imprensa se esmeram em desvendar, é o fio condutor do livro Balada da Praia dos Cães , vigoroso romance do escritor português José Cardoso Pires. Fundindo-se a esse ingrediente básico, há toda a atmosfera sufocante da ditadura de Antonio de Oliveira Salazar em confronto com movimentos revolucionários clandestinos nos anos 60.

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Cardoso Pires em noite de autógrafos nos anos 80: subversão do gênero policial
Dividido rigorosamente em duas partes – a Investigação e a Reconstituição – o livro narra todo o processo que tenta esclarecer o assassinato de um tal major Dantas C, cometido por seus companheiros, após sua fuga da prisão. O major, cujo corpo foi achado por cães numa praia deserta, havia se isolado com outros fugitivos e a amante, tentando reorganizar uma insurreição. Mas o medo e a paranoia vão transformando o carismático líder revolucionário num homem violento e opressor com os seguidores, que o executam.

A inspiração para essa história brotou de fatos reais, ligados a um célebre crime ocorrido durante o período salazarista. Pires, então, pesquisou o assunto nos arquivos oficiais após a queda da ditadura, em 1974. Em Portugal, depois da publicação e do consequente sucesso dessa obra polêmica, alguns dos personagens (camuflados pela ficção) revelaram-se em público, dando entrevistas.

À primeira vista, a idéia de contar uma história policial emoldurada com um contexto político não parece nada original. No entanto, nas mãos de Pires, a tarefa não resultou numa fórmula previsível – muito pelo contrário. Pois, como tão bem salienta o ótimo estudo introdutório presente na edição brasileira (que fornece um bom guia para o leitor), o livro não apenas escapa do romance político convencional como também acaba subvertendo completamente as bases do próprio policial.

Numa narrativa normal do gênero, o esclarecimento do crime constitui o clímax da trama. Com Pires, nada disso acontece, já que em seu texto não há uma conclusão que feche completamente as coisas. Predomina a dúvida e a incerteza de múltiplas versões dos fatos, numa trama entrecortada, com muitas vozes dissonantes, um verdadeiro quebra-cabeças para o leitor juntar as peças.

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Se podemos identificar influências em sua estrutura sofisticadíssima, certamente será dos emaranhados romances noir de Raymond Chandler ou Dashiell Hammett. A obra, de 1982, é um dos principais trabalhos de Pires, ao lado de O Hóspede de Job (1963), Alexandra Alpha (1987) e De Profundis, Valsa Lenta (1997). Traduzido em vários países, o escritor (falecido em 1998) é referência básica na prosa lusitana do século 20. Nascido em 1925 na aldeia de Peso, foi consagrado com uma infinidade de prêmios – entre os quais, o Grande Premio de Romance e Novela da APE ( Associação Portuguesa de Editores ), recebido por Balada da Praia dos Cães .

Balada da praia dos cães
José Cardoso Pires
Editora Bertrand Brasil, 364 págs, R$43






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