Concordata da Borders foi causada por má gestão, diz especialista

Segunda maior rede de livrarias dos EUA passou "de uma má administração para outra por mais de uma década"

Augusto Gomes e Guss de Lucca, iG São Paulo |

Getty Images
Uma das lojas fechadas da Borders, a segunda maior rede de livrarias dos Estados Unidos
O pedido de concordata da Borders, segunda maior rede de livrarias dos Estados Unidos, foi provocado principalmente por má gestão da empresa, e não por problemas generalizados no setor de venda de livros. Essa é a opinião de Mike Schatzkin, fundador da Idea Logical Company, uma das principais consultorias do mundo na área editorial. "A Borders passou de uma má administração para outra por mais de uma década. Eles teriam problemas até numa economia estável ou em crescimento. Numa economia em recessão como a nossa, eles estão condenados", afirma.

A Borders pediu concordata na semana passada. O impacto imediato é que a rede terá de fechar cerca de 200 lojas, um terço de seu total de unidades. Perguntado se isso é suficiente para salvar a empresa, Shatzkin é taxativo: "na minha opinião, não". "Todas as livrarias dos Estados Unidos estão diante de grandes desafios. Mas a outra grande rede, a Barnes and Noble, é bem administrada. (Tem) Poucas dívidas e uma rede de fornecedores muito bem organizada. A rede número três, Books-a-Million, também parece estar razoavelmente saudável no momento", explica.

Isso não significa que essas empresas terão um futuro fácil. E o grande culpado, segundo Shatzkin, é o e-book. Um grande entusiasta do formato (garante não ler um livro em papel há mais de quatro anos), ele acredita que o setor estará completamente mudado na próxima década. "Os e-books vão matar as livrarias físicas nos próximos dez anos. Elas terão o mesmo destino que as locadoras de vídeo e as lojas de discos tiveram na última década. Vão fechar", diz. Sua previsão: daqui a cinco anos, os livros digitais representarão entre 60% e 70% do mercado nos Estados Unidos.

Claudio Wakahara / Divulgação
Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo
No Brasil, isso deve demorar mais para acontecer. "Há algumas barreiras, e a principal delas é o alto custo do hardware", afirmou, referindo-se aos e-readers (aparelhos para leitura de livros digitais). Nesse quesito, a opinião de Shatzkin é parecida com a de Ednilson Xavier, vice-presidente da Associação Nacional das Livrarias. "No momento, os aparelhos de leitura ainda são muito caros para a realidade brasileira", acredita. Quanto à possibilidade de os e-books representarem o fim das livrarias físicas, ele discorda.

"Quando a internet surgiu, apareceu um monte de gente prevendo o fim das livrarias. Diziam que ninguém mais ia sair de casa para comprar livros quando poderiam adquirir pelo computador. E isso não aconteceu", afirma. No caso da Livraria Cultura, o site representa entre 17% e 18% das vendas da empresa. "A internet é nossa segunda loja - a primeira é a do Conjunto Nacional (na avenida Paulista, em São Paulo)", diz Pedro Herz, presidente do conselho administrativo da Cultura. Segundo ele, internet e lojas físicas são complementares, estimulam as vendas umas das outras.

"É um fenômeno interessante. Onde a gente abre uma filial, as vendas feitas pela internet na cidade ou no entorno crescem. Tenho a sensação de que o consumidor se sente mais seguro", afirma. "Há dois anos, nós abrimos a loja em Campinas e as vendas pela internet na região cresceram - apesar de a venda física ter crescido também. O site serve também de apoio ao cliente. Ele usa a internet como fonte de pesquisa". Segundo ele, muitos ainda preferem comprar nas próprias lojas. "Alguns clientes querem sentir o cheiro, saber se a letra é grande ou pequena."

E quanto aos e-books? “No momento, temos cerca de 150 mil títulos disponíveis no formato eletrônico. Mas a vendagem é pequena”, afirma Herz. “De qualquer modo, continuaremos vendendo conteúdo. Você escolhe se a capa é dura ou não, por exemplo. Mas o conteúdo nós teremos”. Ele não acredita que o novo formato possa atrair novos leitores. “Quem não lê, certamente não lerá. Já quem lê, vai poder escolher a mídia em que quer ler. Pode ser que amanhã você leia na porta da sua geladeira, enquanto espera sua cervejinha gelar. Tecnicamente vamos achar solução para isso.”

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