Coetzee brilha no ano da autoficção

Uso da história particular para refletir sobre a vida pública marcou a literatura da primeira década do novo milênio

Agência Estado |

"Verão", o último volume da trilogia "Cenas da Vida na Província", é mesmo o livro do ano, graças à capacidade do Nobel sul-africano J.M. Coetzee de se expor à radiação de um novo gênero que ameaça a supremacia do romance nesta segunda década do século 21: a autoficção.

O livro começa onde termina "Juventude" (2002), a sequência de "Infância" (1997). Em "Verão", um pesquisador inglês escreve a biografia de John Coetzee consultando suas anotações e entrevistando seus amigos. Detalhe: Coetzee está morto quando o estudioso começa a pesquisa, o que dá liberdade ao vivo Coetzee de fazer um balanço de sua experiência existencial e escrever ficção, adotando a si mesmo como modelo.

Essa tendência de usar a história particular para refletir sobre a vida pública marcou a literatura da primeira década do novo milênio, em especial o livro mais polêmico publicado no período, "As Benevolentes", escrito por Jonathan Littel há seis anos - justamente no ano em que nascia o Facebook, website em que a vida privada dá seus últimos suspiros.

O autor resume seu livro como um conto moral edificante sobre um personagem sombrio, o de um oficial nazista. O narrador (que se confunde com Littel, escritor judeu) tenta entender a cabeça do carrasco, colocando-se no seu lugar.

Coetzee também cria sua persona em "Verão", a de um escritor contraditório que, na vida real, não bebe, não fuma, não consome drogas, não come carne e luta contra as injustiças, e que, na autobiografia transformada em ficção, aparece como um autor 40 anos mais jovem, vivendo na década de 1970, acomodado, avesso a mudanças e visto com reservas por seus familiares.

O romance do novo milênio, como se vê, é o do autoconhecimento. Não é impossível que reapareçam famílias como a dos irmãos Karamazov ou adúlteras como Bovary, mas outros exemplos reforçam a tendência de "Verão", como o da trilogia "Seu Rosto Amanhã", escrita pelo espanhol Javier Marías - hoje o maior autor de seu país, seguido por Enrique Vila-Matas, que em "Doutor Pasavento", um dos grandes lançamentos do ano, esgota todas as desgraças do romance numa única história, a de um homem abandonado pela mulher que perde também a filha, morta de overdose, e os pais, que se matam, e ainda tenta desaparecer ao inventar um passado fictício para colegas de ofício.

Marías, a exemplo de Littel e Coetzee, usa o alter ego para concluir que a traição move o mundo. Seríamos todos caimitas? Cabe novamente responder com a tese de Littel, a de que todo escritor é, no fundo, seu biógrafo ficcional e se trai, considerando que os papéis de autor e personagem são intercambiáveis. Afinal, não foi Flaubert que dizia ser ele mesmo madame Bovary?

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