"Clarabóia", o livro perdido de Saramago, é lançado na Espanha

Originalmente escrita nos anos 50, obra já publicada no Brasil e em Portugal chega agora a outros países latino-americanos

AFP |

Quase dois anos após a morte de José Saramago, é lançado na Espanha o livro "Clarabóia", um romance perdido que o escritor reencontrou mais de 46 anos depois de enviá-lo a uma editora portuguesa.

Siga o iG Cultura no Twitter

"Chamava-o de livro perdido e encontrado no tempo", comentou nesta quinta-feira sua viúva, Pilar del Río, durante o lançamento, na Casa da América, em Madri.

"Clarabóia", que já foi editado no Brasil e em Portugal, sai agora na Espanha e nos demais países latino-americanos, pela editora Alfaguara, devendo ser lançado também em língua italiana, na próxima feira do livro de Turim.

A obra foi escrita por um jovem Saramago nos anos 50, mas na história que relata a vida de um grupo de inquilinos de um edifício em Lisboa se anuncia "o mundo de um grande autor".

Saramago entregou o manuscrito, através de um amigo, a uma editora portuguesa, em 1953, sem receber nenhuma resposta. Até que em 1989, já sendo um autor consagrado, a editora entrou em contato com ele para lhe dizer que o manuscrito havia sido encontrado durante uma mudança das instalações e que seria uma honra publicá-lo.

Leia também: Viúva de José Saramago fala com exclusividade ao iG

O autor de "Ensaio Sobre a Cegueira" rejeitou a oferta e recuperou o manuscrito, negando-se a deixar que fosse editado enquanto vivesse.

"Disse-nos que não queria vê-lo publicado em vida, mas que, quando morresse, podiam fazer o que achassem melhor. Todos sabíamos, e creio que também Saramago, que seria publicado", contou Pilar del Río.

A viúva do escritor, falecido em junho de 2010 , mostrou cadernos com as anotações feitas por Saramago enquanto escrevia o livro, assim como o manuscrito original da obra que só conseguiu recuperar depois de quase 47 anos.

"Saramago sofreu muito com esse desprezo", disse a viúva, recordando que, depois disso, o autor levaria 20 anos para voltar a escrever um romance.

"Clarabóia" é um "romance de transgressão", disse Pilar del Río, acreditando que a editora portuguesa não se atreveu a editá-lo porque "leram a obra e viram que era uma história dura para a época".

"É um livro no qual a família, que é o pilar da sociedade, se apresenta como um ninho de víboras. Há violação, amores lésbicos, maus-tratos... E a sociedade portuguesa dos anos 50 poderia suportar isso? Acho que não", acrescentou a viúva.

"Suponho que guardaram o manuscrito para tempos melhores, mas, na época, ninguém contava que (o ditador Antonio) Salazar duraria tanto", disse Pilar del Río, destacando, no entanto, que "quando alguém entrega a um outro o fruto de seu trabalho, o mínimo que espera é uma resposta, que digam alguma coisa".

"Saramago nunca releu o manuscrito depois de tê-lo recuperado, mas sabia que era de interesse para a época", muito semelhante à atual, segundo Del Río, para quem, então como agora, as pessoas "passavam todo o tempo a contar dinheiro e a falar da situacção internacional".

    Leia tudo sobre: josé saramagoclarabóiaespanha

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG