Hitch 22, memórias do polêmico jornalista britânico" / Hitch 22, memórias do polêmico jornalista britânico" /

Christopher Hitchens, café e livrarias

A degustação in loco de Hitch 22, memórias do polêmico jornalista britânico

Milly Lacombe, especial para o iG Cultura |

Milly Lacombe
Mesa posta: indulgências e uma bela pilha de livros
Quando entrei pela primeira vez em uma livraria em Santa Barbara, Califórnia, para onde tinha acabado de me mudar, senti ter transcendido para outra dimensão. Ao contrário do ambiente sério e metódico das livrarias brasileiras, encontrei um lugar repleto de pessoas que tomavam baldes de café, conversavam e, principalmente, liam por todos os lados – nos sofás espalhados pela loja, sobre as mesas do café ali dentro, em pé pelos corredores e, em grande número, sentadas no chão.

Aquela cena me deixou quase sem ar. Então era permitido sentar em qualquer lugar, pegar qualquer livro e ficar ali tomando um café e lendo por tempo indeterminado? Ninguém vinha encher ou pedir para não mexer nos livros, para não sentar no chão, para não sair com o livro ziguezagueando pela loja?

Ir a livrarias passou a ser programa rotineiro e quase diário durante os seis anos em que morei nos Estados Unidos. Em 2002, ao voltar para o Brasil, tentei desesperadamente encontrar um lugar minimamente parecido, e não havia. Havia, claro, ótimas livrarias. Mas nenhuma nos convidava a ficar, sentar, tomar um café e ler. Todas, por maiores e mais completas que fossem, mantinham uma certa distância segura do freqüentador. Não existia até ali uma relação mais íntima entre o consumidor de livros e o ambiente ao redor, muito menos a possibilidade de pegar um livro, sentar no chão e ler.

Mas em anos recentes essa história mudou. Hoje, em São Paulo, no Rio e nas grandes capitais brasileiras é possível entrar em uma livraria aconchegante, pegar um ou mais livros, se mandar para o café que existe dentro de quase todas elas e simplesmente ler.

Faço isso com impressionante regularidade em São Paulo, onde moro atualmente. Alguns funcionários ainda olham meio de lado quando me vêem sair pelo ambiente com três ou quatro livros empilhados nos braços e me mandar para o café que fica dentro da livraria, mas a maioria é receptiva e estimula o saudável hábito. Como tem que ser em qualquer país que se pretende desenvolvido.

Divulgação
Christopher Hitchens em foto promocional, antes de descobrir câncer
Uma das livrarias mais agradáveis da cidade é a Livraria da Vila do Shopping Cidade Jardim. Grande, repleta de sofás espalhados pelos cantos, com uma revistaria cheia de títulos nacionais e estrangeiros, e uma filial interna do Santo Grão, que serve cafés e outras indulgências. Estive por lá na semana passada e carreguei para o café, entre outros, o novo livro do ateu praticante Christopher Hitchens ( Hitch 22 ).

Gosto do que Hitchens escreve, até pelo tom sempre provocativo, e me surpreendi levemente porque Hitch 22 , ainda apenas em inglês e sem previsão de lançamento no Brasil, traz um Hitchens mais doce e menos polêmico contando da infância, do suicídio da mãe, da experiência homossexual que teve durante a juventude, além de outras revelações, como a que diz que Margaret Thatcher é sexy.

Mas fui atrás de Hitch 22 porque, simultaneamente ao lançamento do livro nos Estados Unidos, em agosto, Hitchens soube que estava com câncer no esôfago, doença que acabou sendo fatal para seu pai, e minha curiosidade por ele ficou ainda mais aguçada.

Divulgação
Hitch 22
em miúdos


- O quê?
Hitch 22 , memórias do jornalista Christopher Hitchens (ainda sem previsão de tradução para o português).

- Por quê?
Hitchens é um homem polêmico. Entre outras coisas, é ateu praticante, defende a Guerra do Iraque, critica ferozmente o trabalho de Madre Teresa e tem inimigos por todos os lados. Hitch 22 faz com que decifremos o passado de Hitchens e, em larga escala, possamos entendê-lo.

- Preço
R$ 63,70 pelo site da Livraria Cultura, R$ 70,20 na Livraria da Vila em São Paulo e R$ 76,20 na Livraria da Travessa

- Número de páginas
435

- Ponto alto
Hitchens fala do suicídio da mãe e de como ele, aos 24 anos, teve que lidar com os cacos. Antes de se matar em um hotel em Atenas, registros telefônicos indicam que ela tentou por inúmeras vezes falar com ele, que estava em Londres. Impossível não se emocionar com a passagem.

- Livros de Christopher Hitchens lançados no Brasil
Cartas a um Jovem Contestador (Companhia das Letras)
Deus Não É Grande (Ediouro)
Amor, Pobreza e Guerra – ensaios e viagens pela cultura e o mundo de hoje (Ediouro)

- Referências
Em entrevista à TV americana, Hitchens fala sobre o livro pouco antes de saber que estava doente (assista aqui ). Já em texto publicado na The Atlantic , editora que publicou Hitch 22 , o autor desabafa, logo no começo: “Estou morrendo”.

- Aspa do dia
“Na vida, progredimos pelo conflito; e, na vida mental, por argumentos e debates”. Christopher Hitchens, em Cartas a um Jovem Contestador

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