Bom humor marca festival literário da Mantiqueira

Evento aconteceu neste final de semana no interior de São Paulo e reuniu nomes como Federico Andahazi e Luiz Ruffato

AE |

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O escritor argentino Federico Andahazi
Antiperonista convicto, o escritor argentino Jorge Luis Borges recebeu ajuda, certa vez, para atravessar uma larga e movimentada avenida em Buenos Aires. No meio do caminho, entretanto, a pessoa confessou: "Sou peronista". De pronto, o autor respondeu: "Não se preocupe: também sou cego".

A anedota foi uma das boas e várias proferidas pelo também argentino Federico Andahazi, uma das estrelas do 4º Festival da Mantiqueira, que terminou ontem em São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos.

O bom humor foi uma das marcas dessa edição, que contou com comentários inspirados, além de Andahazi, de Luiz Ruffato, Márcia Tiburi, Xico Sá, Ignácio de Loyola Brandão. Uma boa alternativa para combater o frio, estabelecido em temperaturas de apenas um dígito.

Os temas versavam principalmente sobre literatura e sexo. O argentino, por exemplo, trouxe detalhes sobre sua recém terminada pesquisa, a história da sexualidade de seu povo, que rendeu três volumes. Andahazi está convicto de que é impossível compreender de fato a natureza de uma nação sem saber como funcionam os meandros de sua sexualidade.

"Se a família Bush entendesse um pouco da sexualidade dos muçulmanos, certamente não faria guerras contra eles", disse, acrescentando que é também a forma peculiar de desejo que movimenta os peronistas até hoje, ora a flertar com a direita, ora com a esquerda.

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Luiz Ruffato
Sobre seu ofício, Andahazi acredita que os escritores sempre contam a mesma história. "O que nos difere é o talento para fazer com que o leitor não perceba que está lendo a mesma obra", afirmou, acreditando que talvez esse pensamento explique sua predileção por restaurar motocicletas antigas. "A literatura serve para preencher os vazios deixados pela História. É um método não científico para a reconstrução dessa História."

Pelo mesmo caminho seguiu Ruffato, que dividiu o debate com Sérgio Sant’Anna, na abertura do festival, sábado de manhã. Ele, que termina sua série de cinco volumes sobre o proletariado brasileiro (o último, "Domingos Sem Deus", deverá sair em agosto), acredita que a literatura pretende sempre formalizar a inquietação. "Mas não utilizo uma escrita naturalista, especialmente para escrever sobre o proletariado - não faço concessão à linguagem nem à representação social."

No encontro entre Márcia Tiburi e Xico Sá, prevaleceu uma conversa informal - enquanto ele confessava sua predileção por mulheres de "carnes mais macias", ela atacava os radicalismos, fossem machistas descontrolados a controladores de natividade. O público, que lotou a sala, divertiu-se embora discordasse de alguns pontos de vista. Uma forma saudável de discussão.

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