Biografia de Lady Gaga é uma mal-ajambrada armação

Com tradução descuidada e sem grandes apurações, livro tenta justificar a carreira da cantora como uma fábula de princesa

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Getty Images
Lady Gaga - Biografia insiste em criar um conto de fadas ao ignorar o monstro que o imediatismo da fama cria
É difícil negar que há pontos de extrema originalidade no trabalho da mais recente namoradinha do pop norte-americano (e mundial, por consequência), Lady Gaga. Mas Lady Gaga – Biografia (ed. Lua de Papel, 246 págs., R$ 35), recém-lançado no Brasil, é daqueles produtos que dão coceira de concluir que, não, é tudo uma grande e mal-ajambrada armação.

Perdida num sem-fim de livros sobre Gaga lançados às pressas, essa dita biografia é um evidente caça-níqueis, mal apurado e escrito no original e mal vertido para o português. Não faz mais que compilar entrevistas da estrela à mídia ao longo da curta história da cantora, compositora e performer, hoje com tenros 24 anos. Gaga em si não dá depoimentos à autora, a jornalista Helia Phoenix, de 30 anos, não creditada na capa brasileira. Ou seja, a protagonista do livro não parece participar diretamente do trabalho descuidado – mas certeza não se pode ter, pois a máquina Gaga de fabricar dinheiro não descansa um só segundo.

Para leitores brasileiros, a edição é irritante desde a tradução, assinada por alguém de nome M. Lopes. Pelo uso amalucado de pronomes e conjunções, parece adaptação tosca de alguma edição em português de Portugal. Por confusões como transformar “disco de dance music” em “disco de dança”, mostra sido traduzida ou revisada por alguém sem a menor familiaridade com música pop. Só dois exemplos: o histórico grupo de glam rock New York Dolls, formado nos anos 1970 exclusivamente por homens, vira na brochura “as” New York Dolls; e o Mötley Crüe é tratado como se fosse um lugar, e não o grupo de heavy metal oitentista que era.

E essa parte é fichinha, em comparação com o texto propriamente dito. Trata-se de um tipo de jornalismo que se esmera a todo instante em edulcorar os acontecimentos em prol de uma fábula de princesa, toda feita de sonhos prateados e realizações douradas. Lady Gaga é bem mais complexa que isso, e sai diminuída da leitura – mesmo que ela seja fruto de uma porção de armações, o figurino de princesinha inofensiva não lhe cabe, absolutamente.

Divulgação
Capa da biografia da cantora Lady Gaga
“Você tem que trabalhar muito, nada vem de graça” é uma das afirmações de Gaga que Helia destaca e repete ininterruptamente. O mito que a autora quer ajudar a fortalecer é a do “sonho (norte-)americano”, feito de determinação, suor, perseverança, suor, suor, suor e suor. A acreditar no texto, Stefani Germanotta sabia o que queria desde a barriga da mãe, e lutou para ser Lady Gaga desde o primeiro dia no mundo.

Nessa crença algo fanática, a biografia deixa de entender a outra metade da personagem, aquela que se refere não simplestmente à fama ( The Fame é o nome do primeiro CD, de 2008), mas ao monstro que a fama cria ( The Fame Monster é o segundo, de 2009). O livro termina exatamente quando acontece a estilização do monstro, na apresentação da MTV em que Gaga simula se ensanguentar e termina enforcada numa corda. A biografia encadeia com algum método o passo-a-passo do sonho da Cinderela electropop, mas não chegou a tempo de documentar momentos fortemente simbólicos, como o encontro com a rainha da Inglaterra e a estética tarantinesca (Telephone) e neonazi (Alejandro) empregada nos dois videoclipes mais recentes.

Lady Gaga pode até ser a mais nova representação do “american dream”, como quer a biógrafa, mas a própria profusão de livros sobre a garota dourada dá dimensão da pressa, do imediatismo e da reprodução descontrolada, tipo Gremlins, dos fãs “monstrinhos” de Lady Gaga. Pensando bem, em seu atual estágio o “american way of life” prevê, sim, que uma celebridade seja motivo de uma biografia de 250 páginas apenas dois anos depois de ter aparecido para o mundo.

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