Com tradução descuidada e sem grandes apurações, livro tenta justificar a carreira da cantora como uma fábula de princesa

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Lady Gaga - Biografia insiste em criar um conto de fadas ao ignorar o monstro que o imediatismo da fama cria
É difícil negar que há pontos de extrema originalidade no trabalho da mais recente namoradinha do pop norte-americano (e mundial, por consequência), Lady Gaga. Mas Lady Gaga – Biografia (ed. Lua de Papel, 246 págs., R$ 35), recém-lançado no Brasil, é daqueles produtos que dão coceira de concluir que, não, é tudo uma grande e mal-ajambrada armação.

Perdida num sem-fim de livros sobre Gaga lançados às pressas, essa dita biografia é um evidente caça-níqueis, mal apurado e escrito no original e mal vertido para o português. Não faz mais que compilar entrevistas da estrela à mídia ao longo da curta história da cantora, compositora e performer, hoje com tenros 24 anos. Gaga em si não dá depoimentos à autora, a jornalista Helia Phoenix, de 30 anos, não creditada na capa brasileira. Ou seja, a protagonista do livro não parece participar diretamente do trabalho descuidado – mas certeza não se pode ter, pois a máquina Gaga de fabricar dinheiro não descansa um só segundo.

Para leitores brasileiros, a edição é irritante desde a tradução, assinada por alguém de nome M. Lopes. Pelo uso amalucado de pronomes e conjunções, parece adaptação tosca de alguma edição em português de Portugal. Por confusões como transformar “disco de dance music” em “disco de dança”, mostra sido traduzida ou revisada por alguém sem a menor familiaridade com música pop. Só dois exemplos: o histórico grupo de glam rock New York Dolls, formado nos anos 1970 exclusivamente por homens, vira na brochura “as” New York Dolls; e o Mötley Crüe é tratado como se fosse um lugar, e não o grupo de heavy metal oitentista que era.

E essa parte é fichinha, em comparação com o texto propriamente dito. Trata-se de um tipo de jornalismo que se esmera a todo instante em edulcorar os acontecimentos em prol de uma fábula de princesa, toda feita de sonhos prateados e realizações douradas. Lady Gaga é bem mais complexa que isso, e sai diminuída da leitura – mesmo que ela seja fruto de uma porção de armações, o figurino de princesinha inofensiva não lhe cabe, absolutamente.

Capa da biografia da cantora Lady Gaga
Divulgação
Capa da biografia da cantora Lady Gaga
“Você tem que trabalhar muito, nada vem de graça” é uma das afirmações de Gaga que Helia destaca e repete ininterruptamente. O mito que a autora quer ajudar a fortalecer é a do “sonho (norte-)americano”, feito de determinação, suor, perseverança, suor, suor, suor e suor. A acreditar no texto, Stefani Germanotta sabia o que queria desde a barriga da mãe, e lutou para ser Lady Gaga desde o primeiro dia no mundo.

Nessa crença algo fanática, a biografia deixa de entender a outra metade da personagem, aquela que se refere não simplestmente à fama ( The Fame é o nome do primeiro CD, de 2008), mas ao monstro que a fama cria ( The Fame Monster é o segundo, de 2009). O livro termina exatamente quando acontece a estilização do monstro, na apresentação da MTV em que Gaga simula se ensanguentar e termina enforcada numa corda. A biografia encadeia com algum método o passo-a-passo do sonho da Cinderela electropop, mas não chegou a tempo de documentar momentos fortemente simbólicos, como o encontro com a rainha da Inglaterra e a estética tarantinesca (Telephone) e neonazi (Alejandro) empregada nos dois videoclipes mais recentes.

Lady Gaga pode até ser a mais nova representação do “american dream”, como quer a biógrafa, mas a própria profusão de livros sobre a garota dourada dá dimensão da pressa, do imediatismo e da reprodução descontrolada, tipo Gremlins, dos fãs “monstrinhos” de Lady Gaga. Pensando bem, em seu atual estágio o “american way of life” prevê, sim, que uma celebridade seja motivo de uma biografia de 250 páginas apenas dois anos depois de ter aparecido para o mundo.

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