Biblioteca Nacional completa 200 anos com raridades longe dos olhos do público
Reportagem do iG teve acesso a algumas dessas obras protegidas sob forte esquema de segurança. Exposição marca data comemorativa
Quando D. João VI fugiu das tropas napoleônicas trouxe para o Brasil o rico acervo de livros pertencentes à Corte Real. Em 1810, foi fundada a Biblioteca Nacional (então Real Biblioteca), que atualmente tem sede em um imponente palácio na praça da Cinelândia, centro do Rio de Janeiro. Duzentos anos depois, comemorados nesta sexta-feira (29), parte destes exemplares, somados a muitos outros que foram sendo doados ao longo dos séculos, conferem à instituição o título de a mais importante biblioteca da América Latina, que a ela se somam hoje nove milhões de obras.
É preciso todo cuidado ao se manusear uma obra como esta. Após uma série de autorizações de diretores, o cofre climatizado é aberto por um segurança e uma técnica da sessão de “obras raras”, cuidadosamente, a retira com luvas brancas. Somente ela pode manusear as páginas do livro. As fotos devem ser feitas com certa rapidez, para que a peça volte logo em seguida à proteção do cofre. O “impresso mais precioso da América Latina” está na sessão “mais raro entre os raros” do acervo.
“Memória do mundo”
Outra preciosidade da Biblioteca Nacional, que também está longe dos olhos do público, é o documento original assinado por D. João VI autorizando a abertura dos portos às nações amigas, fato que trouxe prosperidade comercial à nova sede do império português. A carta de 28 de janeiro de 1808, escrita ainda na Bahia, traz uma curiosidade: D. João assina como “príncipe” e faz cinco pontos, referentes à constelação do cruzeiro do sul. Este documento concorre ao título de “memória do mundo”, conferido pela Unesco.
No “setor de manuscritos”, cercado de todo tipo de cuidado, está o “livro das horas”, do século 14, que pertenceu – por último - à Dona Thereza Cristina, mulher de D. Pedro II. Feito a mão, escrito em latim e com iluminuras em ouro, o livro é uma relíquia que venceu o tempo e está intacto até hoje. Ali também está a coleção de 1180 estampas sobre a fauna e a flora feitas por Alexandre Rodrigues Ferreira, durante uma expedição no norte do Brasil em 1763.
Manuscritos e cartografias
São mais de 800 mil manuscritos referentes à história brasileira, arquivos literários, fotos e registros de época. No setor de “cartografia”, 30 mil mapas e três mil atlas estão dispostos em imensas gavetas. Impressiona um deles, do começo do século 16, bastante colorido, com uma configuração bem diferente da visão de mundo atual – a América do Sul é “ilha Brasil” e a do Norte um trecho de terra definido como “Flórida”, nos oceanos estão desenhos de dragões e bestas.
Considerado a “UTI da biblioteca”, o setor de restauração é o local para onde se destinam peças que precisam de reparo urgente. Por lá já passou o precioso original de “Os Lusíadas”, de Luis de Camões, guardado sob sigilo total.
Aniversário do bicentenário
Entre as raridades expostas estão o fac-símile da primeira edição de “Os Lusíadas”; “A menina do narizinho arrebitado”, de 1920, de Monteiro Lobato; peças que integram edições de periódicos como o jornal “O Pasquim”; manuscritos de Clarice Lispector, Raul Pompéia, Castro Alves, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade; a ópera “O Guarani” (1871), de Carlos Gomes, entre outros.
SERVIÇO
Exposição “Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito”
Biblioteca Nacional - Rua México, s/nº - Centro, Rio de Janeiro, RJ
De 3 de novembro a 25 de fevereiro
Segunda a sexta, 10h às 17h/ sábado, 10h às 15h