Apoiado em depoimentos, livro tenta desvendar o tropicalismo

'Tropicália – Um Caldeirão Cultural' traz declarações de Caetano, Arnaldo Baptista e Rogério Duprat, entre outros

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

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Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1972
O novo livro “Tropicália – Um Caldeirão Cultural” (ed. Ferreira, 430 págs.), do carioca Getúlio MacCord, foi construído ao longo de 32 anos, contados a partir de uma entrevista do autor com o não-tropicalista Paulinho da Viola, em 1978. De lá para cá, ele colecionou depoimentos de um leque variado de personagens, desde Cláudio César Dias Baptista, irmão mais velho dos irmãos Mutantes Arnaldo e Sérgio, até os protagonistas inevitáveis Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé.

Hoje com 50 anos, Getúlio é definido na contracapa como radialista, pesquisador de MPB, compositor, engenheiro e especialista em refrigeração. É, de certa forma, um outsider, e isso fica perceptível na parte inicial do livro, na qual procura traçar um resumo histórico do movimento iniciado em 1968. Sua narrativa é irregular, desencontrada, e pouco avança em relação a tudo o que já foi pisado e repisado à exaustão em solos tropicalistas.

Mas aí há a segunda parte do trabalho, dedicada a transcrever (novamente de modo mais ou menos acidentado) os depoimentos prestados ao autor pelos atores tropicalistas, tanto os principais quanto os coadjuvantes. Aí o Caldeirão Cultural de Getúlio esquenta.

O crítico musical José Ramos Tinhorão, notório detrator da bossa nova e da tropicália, aparece logo de início, numa entrevista datada de 1982. Ele tece considerações conservadoras, tanto quanto lúcidas, em reação a teses tipo “o mundo é uma aldeia” dos anos 1960, de teóricos como Marshall McLuhan e Herbert Marcuse: “Universalidade é, no plano ideológico, uma coisa que corresponde aos interesses das multinacionais. (…) Qualquer fronteira, qualquer originalidade regional prejudica o interesse da multinacional”.

O sabor começa a se revelar no depoimento (de 1983) de Kleber Santos, que nos anos 1960 dirigia no Rio o Teatro Jovem, ponto de confluência e debate para os futuros tropicalistas. Conta Kleber, por exemplo, sobre Gal Costa: “Ficávamos falando para ela ir à cidade fazer um teste para cantora na gravadora Philips (…). Mas Gal tinha preguiça de ir. As pessoas davam dinheiro para ela ir à cidade e ela não ia”. A informação soa involuntariamente humorística em tempos atuais, quando Gal provoca encrenca no Twitter acusando cidadãos baianos (como ela) de “preguiçosos”.

Kleber rememora a rixa inicial de Elis Regina com o grupo tropicalista: “Foi intolerante com Gil e Caetano, logo no começo. Qualquer comportamento diferente era confundido com o uso de drogas, e a Elis, na época, era a careta das caretas”. Ironicamente, não seria nenhum tropicalista, mas antes Elis que morreria de overdose, em 1982, colocando fim abrupto ao conceito MPB como era conhecido desde meados dos anos 1960.

MPB e cafonice

Caetano aparece incomumente didático, num mix de depoimentos colhidos em 1989 e 1996. Narra com clareza, momento por momento, a gênese do movimento, e parece lamentar o fato de a tropicália ter se descolado traumaticamente da esquerda emepebista de 1967.

Segundo Caetano, seu parceiro Gil convocara reuniões que ocorreram na casa do compositor bossanovista Sérgio Ricardo, com o objetivo de atrair toda a chamada MPB universitária dos 1960 para os ideais da revolução tropicalista. “Quando nós fizemos, até eles acharam como se tivessem sido surpreendidos e traídos, mas não é verdade, porque o Gil fez um esforço grande para convencer todos a fazermos, juntos, o tropicalismo. Queria que fosse feito pela geração toda”, afirma.

Um breve depoimento de 1991 introduz a figura do antitropicalista Sérgio Ricardo, que passaria à história como o homem que quebrou o violão no mesmo festival (de 1967) que consagrou Gil com “Domingo no Parque” e Caetano com “Alegria, Alegria”. “Castrado o processo cultural pela ditadura, optou-se por importar cultura do exterior e em breve o que fosse nacional na sua essência seria chamado de cafona”, afirma Sérgio, numa aproximação entre MPB nacionalista e “cafonice”.

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Os Mutantes em 1968
Arnaldo Baptista


Depoimento levemente apimentado é o do caçula dos Mutantes, Sérgio Dias (de 1991), no qual sobram críticas ao ex-homem forte da indústria fonográfica André Midani e à ex-companheira de banda Rita Lee. “André Midani foi desumano ao botar aquela capa ‘Arnaldo Loki? Baptista’, com aquela interrogação. Aquilo foi de uma maldade sem par”, queixa-se, mencionando o primeiro álbum solo de Arnaldo, de 1974, que antecipou uma fase de distúrbios psiquiátricos e tentativa de suicídio do irmão.

Sérgio desmente afirmação de Rita de que o casamento com Arnaldo, na época dos Mutantes, fosse uma farsa. E dispara: “Eu nunca quis ir à imprensa desmascará-la, porque acho isso muito feio”. As intrigas entre ex-Mutantes parecem intermináveis, como demonstrou em 2006 a reunião do grupo (sem Rita), truncada pouco tempo depois pela ruptura e saída de Arnaldo. Rita segue adiante ignorando solenemente intrigas e acusações, qual fosse monstro sagrado da MPB parecido com os que ela ironizava em 1976, no rock “Arrombou a Festa”.

Serena é a participação de Gil no livro, em depoimento de 1987. Sem pronunciar nenhuma frase bombástica, ele relata com franqueza a industrialização de sua carreira a partir dos anos 1970 e as concessões que tal processo acarretou. Fala pouco, mas fala mais que neste 2011, quando, ex-ministro da Cultura, tem mantido silêncio diante da sucessão de controvérsias protagonizada por sua sucessora Ana de Hollanda.

Elitismo

O livro de Getúlio acumula méritos ao listar entre os personagens ouvidos artistas de outras áreas da cultura que em algum momentos se engajaram à revolução tropicalista, como o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, o cenógrafo Cyro del Nero e a estilista Regina Boni, ou figuras de bastidor, como o empresário original dos tropicalistas, Guilherme Araújo, morto em 2007.

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O maestro Rogério Duprat
Nesse “grupo B” pode-se classificar também o maestro erudito Rogério Duprat, confeccionador de muitos dos arranjos hoje clássicos do cancioneiro tropicalista. Seu depoimento é dos mais substanciosos, contundentes e atuais.

“A classe média intelectualizada sempre foi como é hoje: elitista. Ou seja, ela classifica como brega ou como cafona as coisas que não interessam a ela”, afirma Duprat, em opinião que coincidiria com as do Caetano de 1968 ou de 2011. “Quando a classe C toma conta de uma linguagem, as classes A e B rejeitam. Rejeitam e inventam um nome para ridicularizar”, provoca, cutucando um nervo que dói ainda hoje, o da elitização e do isolamento progressivo da sigla MPB.

Há poucos dias, Caetano praticou mais uma vez o esporte de causar espécie, ao afirmar que a internet “é uma bolha mítica”. “Sou velho o suficiente para dizer que é bobagem”, disse em entrevista à “Folha de S. Paulo”, soando mais como José Ramos Tinhorão ou Sérgio Ricardo do que como Caetano Veloso.

Rogério Duprat não concordaria com ele. Sai de sua boca, em “Tropicália – Um Caldeirão Cultural”, a seguinte proposição, que parece feita sob medida para o século 21: “Talvez no século que vem se considere esta a grande era da coletivização da produção. Quem quiser ser compositor, que seja. Quem quiser faturar status de grande artista, de gênio, que fature. Mas, para mim, tudo isto é baboseira e palhaçada. Isto tudo acabou e esqueceram de enterrar”.

Tais argumentos foram formulados por Rogério Duprat quando a internet nem fazia parte do cotidiano dos terráqueos, em 1987. E o maestro tropicalista está morto desde 2006.

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