Adolescente excêntrico comanda o elogiado "Submarino"

Em entrevista ao iG, o escritor galês Joe Dunthorne fala sobre o livro e comenta a adaptação ao cinema

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Getty Images
O escritor Joe Dunthorne na última terça-feira, na estreia do filme "Submarino" em Londres
A adolescência é, grosso modo, uma coleção de contradições e, consequentemente, prato cheio para a arte. Presunção e imaturidade andam lado a lado, assim como uma família inteira de binômios, todos faces diferentes de uma mesma moeda - confiança e insegurança, esperteza e ingenuidade, sensualidade e candura, e por aí vai. As desventuras típicas desse meio de campo para a vida adulta nem sempre descambam para o humor, mas esse é o caso do brilhante "Submarino", romance escrito pelo galês Joe Dunthorne e matriz do filme homônimo, que estreia neste final de semana nos cinemas da Grã-Bretanha com produção de Ben Stiller e ótimas críticas

Prestes a completar 15 anos, o herói e narrador Oliver Tate mora na litorânea Swansea, segunda maior cidade do País de Gales. Por fora, ele pode parecer apenas um cara excêntrico, mas aos poucos o leitor adentra um turbilhão de pensamentos complexos, manias, palavras difíceis e teorias próprias sobre o mundo. A frieza e a distância da realidade lembram a Síndrome de Asperger. Não é nada disso: são indícios de um personalidade ímpar, que começa no personagem principal e se espalha por toda a narrativa. A esquisitice dá o tom de "Submarino".

A definição mais apropriada para Oliver é a de nerd, embora ele fuja dos padrões. Para não se tornar alvo na escola, vira um dos melhores amigos do brutamontes Chips e até ajuda no bullying de uma colega gordinha - a seleção natural serve de álibi. Além de investir na perda da virgindade com a piromaníaca Jordana, Oliver procura salvar o casamento dos pais, um historiador depressivo e um mãe deslumbrada pelo ex-namorado hippie, seu instrutor de meditação, surfe e capoeira - isso mesmo, capoeira no País de Gales.

Hoje com 29 anos, radicado em Londres, Joe Dunthorne publicou "Submarino" aos 26. A poesia foi sua principal ocupação nos primeiros anos como escritor, mas foi com seu romance de estreia que conseguiu elogios rasgados e comparações com "O Apanhador no Campo de Centeio", clássico de J.D. Salinger. Natural de Swansea, mesma cidade do protagonista, o autor admitiu que por causa disso muita gente imagina que os dois sejam a mesma pessoa.

Divulgação
A edição brasileira de "Submarino"
"É impossível que isso deixe de acontecer, ainda mais com um narrador em primeira pessoa", afirmou Dunthorme ao iG . "Todo mundo aceita que Oliver seja eu. Fico feliz pelas pessoas que acreditam que algumas partes de Oliver são minhas, mas não estou disposto a dizer quais são."

Com um novo livro previsto para o segundo semestre, Dunthorne fala com humildade da "sorte" que foi ter sido publicado tão jovem. O sentimento desaparece, no entanto, ao lembrar de "Submarino", o filme, em que atuou como consultor do roteiro. O longa-metragem foi escrito e dirigido pelo ator inglês Richard Ayoade, conhecido por papéis cômicos, o mais famoso deles na série britânica "The IT Crowd", e por comandar vídeos da banda Arctic Monkeys. Tratado como a resposta da Inglaterra a Wes Anderson ("Os Excêntricos Tenenbaums", "Viagem a Darjeeling"), Ayoade já começa a ganhar estatus de cult.

Integrante do Clube de Escritores Ingleses, time de futebol que viaja pela Europa para enfrentar adversários de outros países, Dunthorne ficou entusiasmado com a ideia de jogar uma partida no Brasil (mesmo que não haja uma oferta concreta). Confira abaixo a entrevista na íntegra com o autor.

iG: Como foi o processo de escrita do livro? Você voltou a Swansea ou fez tudo de memória?
Joe Dunthorne: O livro levou cerca de três anos. Perto do final, tinha páginas penduradas por todas as paredes e teto do meu quarto. Podia levantar, ver o problema numa frase e dar uma pequena mexida antes de sair para o trabalho. Ouvi dizer que [o humorista inglês] P.G. Wodehouse usava uma técnica similar – prendia páginas na parede e, à medida que elas evoluiam, colocava num lugar mais perto da janela. Quando chegavam lá, estavam prontas. Meus pais ainda moram em Swansea e também vários amigos, então volto para lá com bastante frequência. Mas enquanto escrevia "Submarino", fiz tudo só com a memória.

iG: Você encara "Submarino" como uma espécie de exorcismo do passado?
Joe Dunthorne: Um pouco. Nunca pensei que o livro fosse ser publicado, então escrevi de forma inconsciente e incluí tantos personagens reais da minha infância quanto queria. Então acho que é um espécie de exorcismo – gastar muito tempo com suas próprias lembranças é uma experiência enervante. Começam a surgir detalhes estranhos que você nunca pensou, ou imaginou, que lembraria.

iG: Esses garotos estranhos guardam alguma relação com os personagens esquisitos dos roteiros de Wes Anderson e Charlie Kaufman ("Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças", "Adaptação")?
Joe Dunthorne: É uma ideia interessante. Claro que sou um grande fã de Anderson e Kaufman e sempre estive tão ligado em cinema quanto em literatura. Mas também fui influenciado por escritores como Kurt Vonnegut e "Ruído Branco" de Don DeLillo - eles têm uma qualidade do humor americano que estava tentando aplicar na realidade britânica.

iG: Qual é a sensação de ter sido publicado tão jovem?
Joe Dunthorne: Abrir a caixa de livros que chegou na minha porta quando "Submarino" foi publicado foi provavelmente o melhor momento da minha vida. Sei que tive muita sorte, por isso fico me lembrando disso o tempo inteiro.

iG: A poesia ajudou na ficção ou, para você, é uma arte completamente diferente?
Joe Dunthorne: Elas se alimentam uma da outra. Bons versos de maus poemas podem encontrar lugar em contos ou romances. Metáforas descartadas de um livro podem ganhar vida nova num poema. Também acredito que é bom aplicar o olhar do poeta para detalhes na ficção, e tentar compactar o quanto de prazer você puder numa pequena sentença.

null iG: Como o livro acabou chegando ao cinema? Qual é sua opinião sobre o filme?
Joe Dunthorne: Aconteceu de forma bastante orgânica. Eu era um grande fã do selo de música eletrônica Warp Records [casa de artistas como Aphex Twin, Brian Eno, Maxïmo Park e !!!], e quando eles criaram uma empresa de cinema [Warp Films], fiquei interessado por isso também. Soube que estavam procurando um estagiário e disse para meu bom amigo Ally Gipps tentar a vaga. Ele conseguiu o emprego. Terminei o livro e entreguei para ele. Parece fácil! Acho o filme realmente fantástico, e eu seria o primeiro a falar mal se fosse uma droga! É admiravelmente elaborado, filmado de forma belíssima, os atores estão impecáveis. Estou muito, muito orgulhoso dele.

iG: Está satisfeito como o filme ficou visualmente? É parecido com o que você imaginou enquanto escrevia?
Joe Dunthorne: É diferente do que estava na minha imaginação, mas não tenho nenhum problema com isso. O filme é um meio diferente, então precisa ser diferente de um livro. Acho que Richard [Ayoade, o diretor] tem gosto e visão únicos, e isso aparece na iluminação natural, no uso da cor e nas locações desertas.

iG: Recentemente, o produtor Harvey Weinstein [responsável pela distribuição do filme nos EUA] fez uma sessão teste em Nova York e o público não reagiu tão bem quanto nos festivais em que "Submarino" participou. Ele disse, inclusive, que pretendia fazer algumas mudanças. Por que você acha que isso aconteceu?
Joe Dunthorne: É curioso porque não é um filme com grandes tiradas ou piadas. O humor vem através dos personagens. Então não sei se Harvey estava esperando risadas ruidosas, mas não acho que seja esse tipo de filme.

iG: Você postou uma capa da edição brasileira em seu site. Imaginava que seria publicado aqui?
Joe Dunthorne: Estou maravilhado, é tão excitante. Nunca fui ao Brasil, mas adoraria conhecer. A capa é muito bonita também, então estou muito orgulhoso e ansioso para ter uma cópia em mãos.

iG: Por falar no Brasil, há uma referência sobre capoeira, uma das diversas habilidades do personagem de Graham. Por que você resolveu incluir isso?
Joe Dunthorne: Houve uma época, há não muito tempo, em que capoeira virou moda na Grã-Bretanha. Muitas pessoas estavam praticando. Apenas parecia a coisa certa para aquele personagem estar fazendo.

iG: Sei que você é um dos membros do Clube de Escritores Ingleses. Você tem planos de vir ao Brasil para uma partida?
Joe Dunthorne: Óbvio que sim! Nós adoraríamos. Vocês têm um time de autores brasileiros? Se não tem, deveriam montar um. Tenho certeza que nos destruiriam. Mas estamos acostumados com isso.

iG: Sobre o que é o seu novo livro? Quando ele será lançado?
Joe Dunthorne: Meu próximo romance se chama "Wild Abandon" ("abandono selvagem", na tradução) e será publicado na Inglaterra no dia 4 de agosto. É sobre uma comunidade no País de Gales. Alguns dos personagens acreditam que o mundo vai acabar e outros, não. Fala da decadência da comunidade. As últimas 100 páginas se passam numa única noite durante uma grande festa de "Fim do Mundo".

    Leia tudo sobre: joe dunthornesubmarinoliteraturarichard ayoade

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG