A dura vida dos gênios

Biografias analisam a existência conturbada de Franz Kafka e Charles Chaplin, ícones do século 20

Antonio Querino Neto, especial para o iG Cultura |

Dois artistas que legaram uma marca imprescindível ao século 20, conduzindo uma legião de fiéis adoradores. Dois gênios, duas personalidades contraditórias e complexas, com dramas pessoais refletidos no espelho de suas criações. Dois livros recentes dissecam a vida conturbada de Charles Chaplin e Franz Kafka. Não seria nada extravagante afirmar que muito do perfil do século passado ficou rotulado pelos adjetivos “chapliniano” e “kafkiano”.

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Chaplin como o vagabundo imortal inspirado na figura do pai
Chaplin norteou os rumos do cinema ( mudo e sonoro ) e Kafka deu novos parâmetros para as letras modernas. Qual a relação de suas obras com os homens reais Kafka e Chaplin, que estão longe de terem sido pessoas “felizes”? Esse é o foco de ambos os estudos biográficos. Embora não acrescentem fatos radicalmente novos ao que já se sabe, são bem fundamentados em suas pesquisas e especulações, abrem leques novos de análises, tornando-se leitura indispensável para fãs dos dois criadores.

Psiquiatra de profissão e professor da Washington School of Psychiatry, Stephen Weissman tenta fazer em Chaplin, uma vida aquilo que a própria Geraldine (filha do cineasta) definiu como “ psicanálise póstuma “ Mas nada de incursões técnicas chatas nesse seu caso clínico. Weissman relata com fluência toda a jornada do inventor de Carlitos, com destaque para a miséria dos primeiros anos, a vida no reformatório e outras experiências traumáticas.

Rebento de artistas do show business, mal-sucedidos no casamento e na profissão, sua carreira começou cedo nos teatros britânicos. Numa excursão pelos EUA, tudo muda com o apadrinhamento de Mack Sennett, do estúdio Keystone. É quando vai nascendo um Chaplin celebridade e um tanto egocêntrico que todos conhecem.

Weissman bate na tecla do histórico familiar. Tendo um pai alcoólatra, perdulário e irresponsável, e uma mãe que morreu com sífilis e psicótica, a infância de Chaplin não foi nenhuma moleza. Do pai, viria a inspiração para o estilo do vagabundo Carlitos. E diversas heroínas engendradas por Chaplin nos filmes teriam brotado da personalidade da mãe Hannah, definida pelo próprio cineasta como não menos que “promíscua”. O livro compõe o retrato de uma mulher infiel e interesseira.

A apaixonante metamorfose dele, de um ambiente de fracasso para a genialidade, do infortúnio para a comédia (embora trágica), é o que interessou a Weissman em sua narrativa. Uma investigação que – como avisa o próprio autor – exigiu todo um trabalho detetivesco de peneirar os fatos entre falsidades e omissões, muitas vezes altamente reveladoras.

Tímido e gentil

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Kafka: funcionário obscuro de uma obscura companhia de seguros
O projeto do escritor Louis Begley (imigrante europeu, estabelecido nos EUA) em O mundo prodigioso que tenho na cabeça – Franz Kafka : um ensaio biográfico, foi vasculhar a breve existência daquele homem atormentado e reservado e, a partir daí, lançar luzes sobre o significado de sua escrita magistral.
Sentindo-se todo o tempo inepto e desconfortável diante do mundo, Kafka deixou a herança de uma literatura segura e incrivelmente bem acabada que contrasta com a turva fadiga de sua vidinha de funcionário do “Instituto de Seguro contra Acidentes de Trabalho”, uma semiestatal da qual se aposenta precocemente por causa da devastadora tuberculose.

Esse judeu de Praga, esmagado por Herman, o pai pouco refinado, eternamente indeciso e em crise com a própria condição judaica, desejou (conforme ordena à seu amigo e biógrafo Max Brod, numa carta encontrada após sua morte) que toda sua obra não publicada fosse queimada. Não foi acatado, para o bem da humanidade.

Essas e outras idiossincrasias são bem exploradas num ensaio que se fixa sobretudo na enigmática vida sentimental do autor de O Castelo, Metamorfose e O Processo (romance cuja análise detalhada é uma das melhores sacadas do livro ). A obra deixada por Kafka colide completamente com a incapacidade geral que foi a sua vida. Como bem observa o autor, entre outras mulheres que tentou amar, foi Milena Jesenská quem o compreendeu melhor, definindo-o com precisão: “Ele era tímido, ansioso, meigo e gentil, e no entanto os livros que escreveu são aterradores e pungentes”.

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Capas das obras sobre Chaplin e Kafka

Chaplin Uma Vida
de Stephen Weissman
Tradução de Alexandre Martins
Editora Larousse do Brasil, 322 págs, R$ 44,90

O Mundo Prodigioso que Tenho na Cabeça – Franz Kaka : Um Ensaio Biográfico
de Louis Begley
Tradução de Laura Teixeira Motta
Companhia das Letras, 264 págs, R$ 37

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