Livro "Pavões Misteriosos" reavalia artistas como Gretchen e Guilherme Arantes

Por Susan Souza , iG São Paulo |

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Escritor e jornalista André Barcinski contextualiza a relevância de cantores e bandas surgidos no Brasil nos anos 1970

Em "Pavões Misteriosos" (editora Três Estrelas), o jornalista André Barcinski destrincha, de maneira fácil para leigos, o surgimento e o estabelecimento da música pop no Brasil. A abordagem do livro começa com o disco de estreia do grupo Secos & Molhados, que alcançou o primeiro lugar de vendas em 1974, derrubando uma hegemonia de Roberto Carlos nas paradas.

Capa do livro 'Pavões Misteriosos'. Foto: DivulgaçãoO jornalista André Barcinski, autor de 'Pavões Misteriosos'. Foto: Divulgação

Em dois anos de pesquisa, Barcinski entrevistou 65 pessoas e disse ter se surpreendido com algumas histórias apuradas, como a importância do grupo de músicos de estúdio Os Carbonos, que passou 20 anos trabalhando como "fantasmas" para o grande público, apesar de ter participação em inúmeros discos do período.

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"Muita gente que entrevistei ficou contente por falar, pela primeira vez, sem ser na defensiva ou sem ser entrevistado de maneira distorcida", conta o autor em entrevista ao iG. Com uma narrativa dinâmica, "Pavões Misteriosos" humaniza artistas populares que às vezes são tidos como "bregas", mas que no período em que surgiram foram fundamentais para o desenvolvimento da discoteca e da indústria fonográfica do País.

iG: Você se surpreendeu por algum entrevistado ou história?
André Barcinski: Acho que a história do grupo Os Carbonos foi uma delas. Eu nunca tinha ouvido falar sobre os caras, já sabia que existia uma banda com esse nome, mas não sabia que eram tão importantes, foi uma surpresa (A formação mais prolífica d'Os Carbonos tinha os irmãos Mário, Beto e Raul Carezzato, 'Ricardão' Fernandes de Moraes, Igor Edmundo e Antônio Carlos de Abreu. O autor de "Pavões Misteriosos" estima que, ao todo, esse grupo de músicos tenha gravado aproximadamente 50 mil faixas em 20 anos de parceria com artistas de vários selos, além de ter gravado discos de covers, jingles e trabalhado como banda de baile. Os Carbonos gravaram hits como "É o Amor", de Zezé di Camargo & Luciano, "Fuscão Preto", de Almir Rogério, "Flying", de Jessé, entre outras músicas não creditadas em LPs).

iG: Como os entrevistados reagiram?
André Barcinski: Muita gente que entrevistei ficou contente por falar, pela primeira vez, sem ser na defensiva ou sem ser entrevistado de maneira distorcida. O Odair José, por exemplo, é sempre lembrado como brega, cafona, coisa que ele não gosta - e com razão -, porque não é exatamente isso. Recebi agradecimento do Massadas, da Vivian Costa Manso. São artistas que foram importantes e que não tiveram nada escrito sobre ou escrito de maneira mais analítica, sempre foi com muita crítica sobre o comercialismo do som deles. O livro não tem uma tese, nao é acadêmico. Quero contar uma história legal para pessoas leigas no assunto. Temos de lembrar que muitos dos discos citados têm mais de 40 anos de idade. Os mais jovens não têm obrigação de saber o que é Secos & Molhados, não toca mais em rádio, você não os vê na televisão. O livro é para quem tem interesse em música brasileira, mas não precisa ser grande conhecedor. Ficar pregando para convertido é muito chato.

iG: Por que você acha que há rejeição da música pop brasileira desse período?
André Barcinski: Aconteceu a mesma coisa depois do Plano Real com o surgimento das classes C e D. Você teve uma massa de consumidores novos entrando no mercado e isso mudou a correlação de forças com a música. De repente, houve o surgimento de vários astros que não existiam cinco anos antes. Quando você tem um disco de estreia como o dos Secos & Molhados, que chega em primeiro lugar na parada de sucesso, isso causa certo ressentimento por parte de quem está há um tempo no mercado e não conseguiu vender tanto, isso é natural. Sempre que existe um grande sucesso, há uma reação de uma certa parcela da população e de uma parte da crítica. É muito raro um disco de muito sucesso receber críticas unânimes. Os Beatles, no começo, não eram queridos por todo mundo. Elvis era considerado uma coisa lasciva, de quinta categoria, música para criança, só depois ele foi devidamente reconhecido. O Guilherme Arantes começou a bombar na trilha sonora da novela e algumas pessoas que se consideram mais intelectualizadas começaram a falar mal dele. Isso aconteceu com um monte de gente. E com os artistas retratados no livro não foi diferente.

iG: Sobre os artistas que foram "pré-fabricados" para o sucesso, como Sidney Magal e Gretchen, por que hoje eles são considerados tanto como "bregas" como por "cults"?
André Barcinski: As pessoas tendem a analisar fenômenos culturais baseadas em seus próprios gostos e não como parte integrante de uma indústria cultural. O Sidney Magal surgiu na época em que a televisão se popularizou de maneira extraordinária no Brasil, havia uma massa de consumidores. Magal e Gretchen, por serem artistas de forte apelo visual, apelavam para esse público. É tudo uma questão de mercado. Antes da popularização da TV, as pessoas ouviam a música no rádio e, às vezes, nem sabiam como os artistas eram. Depois que a TV "explodiu", se você é um programador de TV, você vai colocar o João Gilberto sentado em um banquinho tocando violão e cantando baixinho ou o Sidney Magal dançando uma música cigana com um monte de gostosas em volta dele? É uma coisa tão óbvia, que eles foram produtos culturais, não de maneira pejorativa, mas feitos de acordo com a necessidade de uma época. Quando você pensa nisso, passa a ter um respeito maior por esses artistas. Você pode achar a música da Gretchen um lixo, eu não ouço em casa, mas não entender a importância dela no mercado, e como ela surgiu, para qual público ela apelou e como ela se inseriu na época, é querer tapar o sol com a peneira.


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