"Não se faz jornalismo sem investimento", afirma David Carr, do "New York Times"

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Um dos nomes mais conhecidos do diário norte-americano, repórter fala ao iG sobre o jornal e tendências do mercado: "Precisamos olhar para os leitores como fonte de receita"

Desde que o documentário "Page One" foi lançado, em 2011, o repórter David Carr tornou-se um dos nomes mais conhecidos do jornal norte-americano "The New York Times". Seja na coluna Media Equation ou no Twitter, onde tem mais de 453 mil seguidores, o jornalista é considerado referência sobre o mundo da comunicação.

Carr entrou no "New York Times" em 2002, mas há 25 anos escreve sobre mídia e sua relação com economia, cultura e política, acompanhando as transformações do jornalismo e a dificuldade de veículos tradicionais, entre eles o próprio "Times", de se adaptar à era digital.

Walter Craveiro/Divulgação
David Carr durante debate na Flip 2014

É um defensor, por exemplo, do modelo de "paywall" adotado pelo jornal desde 2011, pelo qual o leitor tem de pagar por acesso ilimitado ao conteúdo online. "É um sucesso absoluto, um passo enorme e necessário em direção à nossa sobrevivência", afirmou, em entrevista por email ao iG. "Conforme os anúncios se tornam cada vez mais abundantes e baratos, precisamos olhar para os nossos leitores como fonte de receita."

Leia também: Política, drogas e os bastidores da mídia em discussão na Flip

Carr foi um dos convidados da edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Na entrevista a seguir, ele fala sobre tendências do jornalismo, o trabalho no "New York Times" e o livro que lançou em 2008, "A Noite da Arma", no qual usa técnicas de reportagem para investigar o próprio passado de viciado em cocaína e crack.

iG: Como foi reportar sobre sua própria vida em "A Noite da Arma"?
David Carr: Foi constrangedor, esclarecedor e muito surpreendente. A história que encontrei não era a que eu me lembrava.

iG: A luta contra o vício em drogas ainda está presente no seu cotidiano? Como?
Carr: Está presente no sentido de que todo dia tenho de fazer o que é necessário para continuar sóbrio: ir a reuniões, evitar más situações e lembrar, sempre lembrar, do que acontece quando escolho beber ou usar drogas.

iG: Você é conhecido como "a cara do New York Times" e já foi chamado de "estrela do rock" pelo publisher do jornal, Arthur Sulzberger Jr. Como se sente tendo tanta exposição e uma identificação tão forte com a empresa em que trabalha?
Carr: Se sou a cara do jornal, é uma cara velha e não muito bonita. Acho que eles deveriam escolher uma cara diferente. Eu pareço um sem-teto. Dito isso, tenho orgulho de onde trabalhamos e do que fazemos, e fico feliz em representar a instituição em todos os meus empreendimentos.

Divulgação
David Carr em cena de 'Page One: Inside The New York Times'

iG: Acha que o "New York Times" está fazendo um bom trabalho para se manter relevante na era digital?
Carr: O paywall é um sucesso absoluto, um passo enorme e necessário em direção à nossa sobrevivência. Conforme os anúncios se tornam cada vez mais abundantes e baratos, precisamos olhar para os nossos leitores como fonte de receita.

iG: Você já disse que este é um bom momento para ser jornalista. Por quê?
Carr: Porque temos mais ferramentas, mais plataformas e mais controle do que jamais tivemos. Quando você digitou estas perguntas, teve acesso imediato a tudo o que eu já disse e toda coisa besta que já fiz. Há um valor enorme nisso.

iG: No Brasil, como em outras partes do mundo, muitas empresas de comunicação estão passando por dificuldade financeira e, por isso, cortando gastos e funcionários. É possível fazer bom jornalismo sem investimento?
Carr: Não. Você não pode fazer mais com menos. E não pode esperar cobrar os leitores por um produto inferior. Você precisa gastar dinheiro e investir para se manter relevante.

iG: Em busca de mais leitores, muitos sites passaram a apostar em listas - os melhores filmes sobre zumbis, as pessoas mais ricas com menos de 25 anos etc. O que você acha desse tipo de jornalismo?
Carr: Vou te dar dez razões pelas quais as listas são legais. Brincadeira. Listas são uma forma de atrair as pessoas e quem sabe fazer com que elas permaneçam ali para algo mais nutritivo. As empresas de jornalismo usam testes da mesma forma. Não vejo problema nisso.

iG: Recentemente você escreveu sobre como a editora-executiva Jill Abramson foi despedida do "New York Times", com detalhes sobre os bastidores da demissão e da própria direção do jornal. Você tem completa liberdade para escrever esse tipo de reportagem? É um terreno difícil?
Carr: Estava dividido entre tentar fazer meu trabalho e manter meu emprego. Ainda bem que o "Times" se importa em contar a história verdadeira, mesmo quando é sobre ele. Foi difícil, em parte porque admiro muito a Jill, mas estava e estou orgulhoso da instituição.

iG: Que jornais, revistas e sites você lê e/ou admira?
Carr: [O jornal] "The Wall Street Journal" e [os sites] Quartz, The Awl, Vulture, Gawker e ReCode.

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