Sobre a situação dos povos indígenas: “é uma espécie de Gaza brasileira”

Por Maria Carolina Gonçalves , enviada especial a Paraty |

compartilhe

Tamanho do texto

Os antropólogos Beto Ricardo e Eduardo Viveiros de Castro são convidados da Flip

“Quantos nomes de grupos indígenas você conseguiria pronunciar de memória? A imprensa brasileira consegue pronunciar pouquíssimos”, afirma o antropólogo Beto Ricardo. Ele e Eduardo Viveiros de Castro fizeram críticas à situação dos povos indígenas no Brasil na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

“Os índios estão mais visíveis que nunca e mais vulneráveis que nunca. É um momento muito difícil para os povos indígenas”, diz Viveiros de Castro. O antropólogo acredita na existência de uma campanha atual para revogar as conquistas dos índios em 1988, quando ocuparam o Congresso para exigir que suas reivindicações fossem incluídas na Constituição.

Confira imagens da exposição “Povos Indígenas no Brasil”, do Instituto Socioambiental, que tem uma série de livros publicados sob o mesmo nome:

Cineasta Paturi filma cacique Akã na terra indígena Panará, no Pará. Foto: Vincent CarelliPiracumã Yawalapiti pede calma a PMs no Congresso em Brasília, durante mobilização. Foto: André D’EliaPresidente Lula participa das comemorações pela homologação da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol (RR) em 2010. Foto: Mário Vilela/FunaiIndígenas em vigília no Congresso em Brasília, em 1988, para garantir seus direitos no texto final da Constituição. Foto: Beto Ricardo/ISAEsta imagem foi símbolo da campanha pelos direitos indígenas na Constituinte. Foto: Claudia AndujarMarco de bronze para a demarcação física das Terras Indígenas do Rio Negro. Foto: Pedro Martinelli/ISAAbertura da exposição Povos Indígenas no Brasil 1980 - 2013. Foto: Marri Nogueira/Cia de FotometriaVincent Carelli registra líder yanomami Davi Kopenawa na exposição. Foto: Beto Ricardo/ISA

Para Viveiros de Castro, a construção da usina de Belo Monte é “uma picaretagem em termos econômicos” e o Congresso tem uma maioria de grandes proprietários, o que dificulta a defesa de direitos de grupos minoritários.

Quanto à situação dos povos indígenas, acredita que “é uma espécie de Faixa de Gaza brasileira”. “Eles foram sendo pouco a pouco empurrados, encurralados, como o povo palestino”, afirma.

Esta é a segunda mesa dedicada aos índios e à antropologia brasileira nesta edição da Flip. Nesta sexta-feira, a fotógrafa Claudia Andujar esteve presente em debate com o líder yanomami Davi Kopenawa, que falou sobre o mito do “desabamento do céu”, que seria a destruição dos homens em consequência de suas próprias ações de degradação.

Leia mais: Pela primeira vez, Flip tem mesa dedicada aos índios e à Amazônia

Questionado sobre o assunto, Viveiros de Castro respondeu que “talvez só os índios sobrevivam, mostrando que é possível viver num mundo sem televisão a plasma e computador”.

Durante as mesas da Flip, as pessoas da plateia podem participar com perguntas aos convidados. Uma dessas perguntas questionou a existência de “bêbados que se autoafirmam índios”, causando exclamações de outras pessoas da plateia.

Viveiros de Castro lembrou, em resposta à pergunta, que “33% do nosso genoma vem do estupro de indígenas”. Beto Ricardo lembra que ser índio não é sinônimo de vestir um determinado tipo de roupa. Ele considera esse preconceito tão “patético” quanto dizer que o cidadão que consegue sua cidadania italiana deixa de ser brasileiro. “Há uma patrulha em cima dos índios. Quando eles escapam desse estereótipo, eles são condenados”, afirma.

Saiba mais sobre os convidados desta mesa:

Beto Ricardo

É antropólogo brasileiro e um dos fundadores do Instituto Socioambiental, onde coordena o programa Rio Negro, de incentivo à responsabilidade socioambiental e ao desenvolvimento sustentável da bacia do rio Negro, na Amazônia. Participou da fundação da Comissão para a Criação do Parque Yanomami (CCPY), em 1974. Publicou trabalhos como “Atlas - Amazônia sob pressão” (2012). Por sua atuação, recebeu em 1992 o Prêmio Ambientalista Goldman.

Eduardo Viveiros de Castro

É antropólogo brasileiro e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autor da coletânea de ensaios “A inconstância da alma selvagem” (2002). Realizou pesquisas entre os Yawalapíti do Parque do Xingu (MT) e os Araweté do Médio Xingu (PA). Publicou diversos artigos e livros sobre a antropologia brasileira e a etnologia americanista, como “Amazônia: etnologia e história indígena”.

Leia tudo sobre: flip

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas