Na Flip, jornalistas dizem que Millôr Fernandes "era perigoso desde antes de 64"

Por Maria Carolina Gonçalves , enviada especial a Paraty |

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Em mesa nesta sexta-feira, amigos falam sobre o cartunista e escritor

A convivência com Millôr, sua atuação na redação de jornais e como ele foi censurado durante o regime militar foram alguns dos assuntos que estiveram na primeira mesa desta sexta-feira na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). "Somos uma redação de pessoas que conviveram com Millôr de alguma forma", introduziu o jornalista Hugo Sukman, que fez a mediação da mesa.

Mais: Veja frases de Millôr Fernandes

O debate, com o título de “Guru do Méier”, tem relação com a imagem do guru como “velho homem de imprensa que tinha a tradição de passar a sabedoria”, explica o mediador.

Millôr fez duras críticas à sociedade e às injustiças que observava ao seu redor. Foto: MillôrTrabalhou temáticas variadas de forma ousada. Foto: MillôrO humor esteve presente nos diversos assuntos das charges. Foto: MillôrFez críticas à política brasileira. Foto: MillôrCriticou a ordem social estabelecida. Foto: MillôrResgatou temas polêmicos e delicados. Foto: MillôrMillôr fez piada com a religião. Foto: MillôrE não deixou de fazer piada com o sexo. Foto: Millôr

Na redação e na vida pessoal, cada um dos quatro presentes foi influenciado por Millôr Fernandes, homenageado pela Flip em 2014. O jornalista e escritor Sérgio Augusto conta que já admirava o trabalho de Millôr antes de travar amizade com ele, no "Pasquim". "Eu ficava fascinado com a variedade de assuntos. Achava impossível que uma pessoa só fizesse todas aquelas páginas."

Para o cartunista Claudius, a relação com Millôr também começou com a admiração por seu trabalho muito antes de se conhecerem, lendo o Pif-Paf e tendo um professor que discutia a publicação em aula. “Tendo o Millôr em casa, tendo o Millôr na escola, quando eu fui trabalhar no Cruzeiro, com apenas 16 anos, eu já conhecia o Millôr”, diz.

O cartunista Cássio Loredano lembra os tempos do Pasquim, em que Millôr levava seus trabalhos prontos para o jornal: “Ele ia para a redação e atrapalhava o fechamento”. Hoje o cartunista é curador do acervo Millôr Fernandes no Instituto Moreira Sales. “A minha convivência com o Millôr não é muito pessoal, é mais de público”, diz.

Sobre o estilo do escritor, os quatro concordam que foi um “carioca de algema”, como disseram, marcado pela influência do Rio de Janeiro sobre a obra. “Millôr é absolutamente carioca, nasceu irreverente”, afirma Claudius.

O livre-pensar é uma marca do autor que não podia deixar de ser mencionada. “Ele era destemido em se lançar a pensar. Uma pessoa que teve uma enorme liberdade de abordar qualquer tema, abordar pelo avesso, abordar por dentro”, diz Claudius.

Algumas frases de Millôr foram recordadas, como: “Eu não gosto da direita porque ela é de direita e não gosto da esquerda porque ela é de direita”.

Os participantes da mesa lembraram-se da censura nas redações e das prisões efetuadas pelo regime militar. “O Millôr era perigoso desde antes de 1964. Em 1963 ele já foi censurado”, conta Hugo Sukman.

Millôr Fernandes foi responsável por duras críticas ao governo brasileiro, à forma de se fazer política e à sociedade em geral. No entanto, não chegou a ser preso nem torturado pelo regime. “O Millôr desconcertava inclusive seus censores, nem preso ele conseguiu ser”, lembra Sukman.

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