Cartunista Claudius sobre Millôr: "Não vejo sucessor, ninguém lhe chega aos pés"

Por Maria Carolina Gonçalves , enviada especial a Paraty |

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Em entrevista ao iG, cartunista fala sobre a influência do escritor em sua carreira

A programação da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nesta sexta-feira (1) começa com a mesa "O guru do Méier", às 10h. O nome dado ao debate é uma das alcunhas pelas quais Millôr Fernandes ficou conhecido. O escritor é o homenageado da edição de 2014 da Flip.

O cartunista Claudius Ceccon falou ao iG sobre sua relação com Millôr Fernandes, que, além de escritor, também destacou-se na arte dos cartuns.

"Homenagem a Millôr". Foto: Claudius"Gulliver". Foto: Claudius"Brincando de Chagall". Foto: Claudius"Esquemão empreiteiras". Foto: Claudius"Habemus problemas". Foto: Claudius"Anistia". Foto: ClaudiusCartum sobre a violência. Foto: Claudius

iG: Como você conheceu Millôr Fernandes?
Claudius: Minha relação com o Millôr data de muito antes de eu conhecê-lo pessoalmente. Quando eu era garoto, meu pai comprava semanalmente muitas publicações estrangeiras e nacionais, entre elas a revista "O Cruzeiro". O Pif Paf, assinado por Vão Gôgo e ilustrado por Péricles, também autor do Amigo da Onça, era a minha seção preferida. Como se isso não bastasse, tive um professor de português, no Colégio Andrews, chamado Niel Aquino Casses, cuja aula das segundas-feiras consistia em ler e comentar o que Millôr escrevia.

iG: E na sua carreira, qual foi a relação com Millôr?
Claudius: Aos 16 anos comecei a trabalhar na revista "O Cruzeiro" como auxiliar de paginação, como se chamava a diagramação naquela época. Convivi com Péricles, Carlos Estêvão e o próprio Millôr, que vinha toda semana trazer a sua seção. Quando entrei na faculdade de Arquitetura, meu chefe me fez responsável pela parte de cor da revista. Era eu que recebia Millôr e conversava com ele. Mais tarde, quando comecei a desenhar profissionalmente, ele me incentivou muito. Nos tornamos amigos e tenho testemunhos de seu apreço pelo meu trabalho.

iG: De que forma o escritor influenciou seu trabalho?
Claudius: Creio que a influência mais marcante, o que sempre me impressionou no Millôr, foi a sua independência, seu livre-pensar e sua inteligência privilegiada.

iG: Qual é o legado de Millôr?
Claudius: Millôr deixa o legado de um intelectual de múltiplos interesses, de um profissional de enorme capacidade de trabalho. Tudo o que produziu tem a marca da qualidade. É um exemplo de integridade. Mas não vejo sucessores, ninguém que lhe chegue aos pés.

iG: O que mudou nas charges dos jornais desde o início da sua carreira até agora?
Claudius: Temos menos jornais, menos chargistas, menos charges. Gosto do time da "Folha de S.Paulo". Jaguar faz uma charge no jornal O Dia. Chico Caruso conquistou um lugar permanente num jornal cuja linha editorial coincide com a sua: é muito efêmero. Daqui a seis meses, um ano, você vai ter de explicar o que aquilo queria dizer.

iG: Qual é a posição das charges nos jornais?
Claudius: Os jornais têm todos a mesma posição, que é opor-se ao "governo do PT", mesmo sabendo que isso é uma ficção. Não é nostalgia, é simples constatação: os jornais publicam artigos de colunistas que defendem posições diferentes da sua linha editorial, mas não há espaço nesses mesmos jornais para uma charge editorial independente.

iG: Qual a importância de Millôr na discussão de política e sociedade?
Claudius: Millôr era um cético e um feroz crítico da política e dos políticos. Era um extremado individualista, com um pensamento que se aproximava da anarquia, no bom sentido. Isso não o impediu de, ocasionalmente, exprimir sua opinião em favor de algum político. Fez isso, por exemplo, nas eleições de 1982, quando apoiou Brizola, contrariando a linha editorial do veículo que publicava sua coluna. Pagou um preço por isso, mas se manteve firme.

iG: E qual a semelhança do que Millôr fez com o seu trabalho?
Claudius: Talvez o comum viés da crítica. Mas, contrariamente ao Millôr, eu ainda não perdi as esperanças de que este país melhore e procuro fazer minha parte no esforço coletivo para que isso aconteça. Eu acredito que é possível mudar. Talvez essa minha ingenuidade, digamos assim, seja uma das diferenças entre nós.

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