Antonio Prata: “Descobri que sou paquistanês”

Por Maria Carolina Gonçalves ,enviada especial a Paraty | - Atualizada às

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Seguindo a tradição de misturar nacionalidades, o escritor brasileiro conversou com um autor paquistanês na Flip

O que dois autores, um brasileiro e um paquistanês, têm em comum? Mais do que poderiam imaginar. A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) promoveu um encontrou entre Antonio Prata e Mosin Hamid, autor de origem paquistanesa.

Os dois nasceram na década de 1970 e têm como marca o uso da ironia e autoironia em seus livros. Lendo um pouco mais das obras, encontraram outros pontos em comum.

“Eu descobri que era paquistanês lendo um trecho do livro”, conta Antonio Prata. O trecho em questão faz parte do livro “O fundamentalista relutante” (2007) de Hamid, em que o protagonista, também paquistanês, fala de sua situação: considerado rico no país de origem e pobre morando nos Estados Unidos.

Antonio Prata, tendo morado no Itaim Bibi em sua infância, bairro nobre de São Paulo, viveu contrastes como esse. Alguns desses contrastes ele transformou em textos no livro “Meio intelectual, meio de esquerda”, que trabalha tentativas de aproximação entre as classes sociais.

Prata enxerga uma semelhança entre o Brasil e o Paquistão como “periferias”. “Como diria Mano Brown, periferia é periferia em qualquer lugar”, diz. Ele conta que começou a ler o livro de Hamid colocando-se no lugar de um americano, enxergando-o como um “exótico”, e somente depois foi entender sua proximidade com ele.

O livro mais recente de Hamid, “Como ficar podre de rico na Ásia emergente”, lançado em português neste ano, é uma paródia de livros de autoajuda. Durante a mesa, Hamid aproveitou para criticar o que chama de “autoajuda narcisista”. “Como ter 20 orgasmos em meia hora e coisas do tipo”, brinca.

“Talvez escrever romances seja uma autoajuda para mim, como autor”, acrescenta. Para ele, escrever um romance é um momento em que um ser humano se transforma em dois para criar personagens.

Já o escritor Antonio Prata trabalha com crônicas. Ele conta que o primeiro texto que escreveu foi uma crônica sobre a rua onde morava, que corria o risco de ser destruída. Entregou à mãe e à irmã e foi tomar banho. Quando saiu, elas estavam chorando. “Gostei disso, mulheres chorando”, brinca.

Para ele, a literatura é o lugar de contar “a vida como ela é, com suas estrias e as celulites que ela tem”. É também um espaço para falar de si mesmo e de todo um grupo de pessoas ao mesmo tempo. “Quem consegue falar de si e de ninguém mais não está fazendo literatura”, diz.

Foi o que Hamid constatou com seu livro, quando as pessoas que menos esperava identificavam-se com “O fundamentalista relutante”. Ele percebeu que, antes de tratar de uma história muito parecida com a sua, o livro tratava de um jovem idealista que tem seu primeiro emprego e uma série de frustrações, aplicando-se a um grande número de jovens.

Saiba mais sobre os escritores:

Antonio Prata

É escritor brasileiro, filho do também escritor Mario Prata. Publicou contos e crônicas. É colunista da Folha de S. Paulo e colabora como roteirista de telenovelas na Rede Globo. É autor de livros como a coletânea de textos “Meio intelectual, meio de esquerda” (2010). Escreveu crônicas para a revista Capricho e para o jornal O Estado de S. Paulo. Em 2013, publicou “Nu, de botas”, pela Companhia das Letras.

Mohsin Hamid

É escritor paquistanês. Escreveu livros como “O fundamentalista relutante” (2007), que teve publicação no Brasil. Seus ensaios e histórias curtas já foram publicados em jornais como o The New York Times, The Guardian, e The New Yorker. O livro “Discontent and Its Civilizations”, que reúne ensaios do autor de 2000 a 2014, será lançado este ano na Inglaterra, onde o escritor vive atualmente.

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