Com "Netflix dos livros", Amazon quer ampliar influência no mercado editorial

Por Luísa Pécora , iG São Paulo |

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Kindle Unlimited permite que usuários paguem mensalidade e leiam quantas obras quiserem; serviço pode dificultar relação com editoras e estimular leitores a descobrir novos escritores

"Netflix dos livros" foi o apelido dado ao Kindle Unlimited, serviço lançado pela Amazon no qual, pagando uma assinatura mensal, o usuário pode ler quantos e-books quiser. Anunciada há duas semanas, a novidade da gigante do comércio online movimentou o mercado editorial, que avalia o impacto do modelo para autores, editores e leitores.

Ainda não disponível no Brasil, o Kindle Unlimited cobra pouco menos de US$ 10 (R$ 22) ao mês e permite que o usuário leia um número ilimitado de livros dentro de um catálogo de 600 mil títulos. O sistema funciona mais como biblioteca do que como livraria: o leitor "aluga" as obras, mas não é dono delas; se a assinatura é cancelada, o livro é retirado do e-reader.

Thinkstock/Getty Images
Venda de ebooks por assinatura mensal são nova tendência nos EUA


O serviço pode ampliar a já enorme influência da Amazon no mercado editorial e de e-books, que a empresa ajudou a fortalecer com o lançamento do Kindle, em 2007. Hoje, só livros digitais para adultos movimentam US$ 1,3 bilhão (R$ 2,9 bilhões) nos Estados Unidos, de acordo com dados da Association of American Publishers relativos a 2013.

Entre o Kindle e seus competidores, como Apple iBooks e Kobo, 79 milhões de norte-americanos usarão e-readers em 2014, quase 9% a mais do que no ano passado, de acordo com pesquisa da eMarketer.

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A Amazon é a primeira grande companhia a apostar no mercado de livros por assinatura, mas o serviço já é oferecido por empresas norte-americanas menores como a Oyster e a Scribd. Por mensalidades similares à do Kindle Unlimited, elas oferecem acesso ilimitado a 500 mil e 400 mil títulos, respectivamente.

As três empresas apostam na ideia de que o consumo de mídia digital por assinatura, que tem funcionado para serviços como o Netflix e o Spotify, chegou para ficar. Mas ainda não está claro se o sistema tem o mesmo apelo quando aplicado à literatura: afinal, a maior parte das pessoas lê menos livros por mês do que assiste a filmes ou ouve música.

AP
Alguns dos livros disponíveis no Kindle Unlimited

"Há uma diferença no consumo do produto e no hábito do leitor. Filme eu assisto em uma hora e meia. No caso de um livro, posso levar duas semanas ou mais", afirma Breno Lerner, superintendente da editora Melhoramentos, em entrevista ao iG

Duas semanas é pouco: dados divulgados em janeiro pelo Pew Research Center apontam que a média de norte-americanos leu 5 livros em 2013. Para estes consumidores, assinar o Kindle Unlimited pode ser menos interessante do que comprar os e-books individualmente. O Amazon Prime, da própria empresa, pode ser uma opção mais vantajosa, já que, por preço mais barato, oferece conteúdo de vídeo, vantagens na entrega de produtos e o "empréstimo" de um e-book grátis por mês.

Amazon x editoras

Para leitores mais vorazes (2% dos usuários do Scribd leem mais de 10 obras por mês, segundo o "New York Times"), o que fará a diferença será o acervo. Como o Netflix, nenhum dos serviços de assinatura de livros oferece lançamentos muito recentes e o número de títulos disponíveis é relativamente pequeno: o catálogo completo da Amazon, por exemplo, ultrapassa 2,5 milhões de e-books.

Além disso, ao contrário da Oyster e do Scribd, o Kindle Unlimited por enquanto não inclui obras das cinco principais editoras norte-americanas: Penguin Random House, Macmillan, HarperCollins, Hachette and Simon & Schuster.

Getty Images
Stephen King é um dos 900 autores da Hachette que assinaram carta contra a Amazon

A ausência não foi comentada oficialmente, mas há meses a Amazon trava uma disputa com a Hachette. A empresa foi acusada de usar táticas agressivas - entre elas o atraso na entrega de obras da editora - para garantir vantagem nas negociações sobre preços e conseguir aumentar sua renda com a venda de e-books.

A chegada do Kindle Unlimited deve tornar mais complexa a já difícil negociação entre as editoras e a empresa quanto ao pagamento. É possível, por exemplo, que o serviço acabe puxando uma queda nos preços que não interessa às editoras.

"Há uma preocupação na indústria de que o serviço por assinatura pode desvalorizar os livros por torná-los 'grátis'", afirma Mark Coker, criador do Smashwords, plataforma de autopublicação e distribuição de e-books.

O site de Coker é o maior fornecedor de títulos do Oyster e do Scribd, com mais de 250 mil títulos disponíveis em cada serviço. Mas ele não faz negócios com a Amazon, já que a empresa só dá espaço a autores independentes que lhe cedam exclusividade, ou seja, retirem sua obra de todos os sistemas concorrentes.

Novos autores

A negociação é delicada: por um lado, o autor se beneficia da estrutura e do alcance da Amazon; por outro, se submete a um sistema de pagamento mais incerto. No Oyster e no Scribd, o valor pago por cada livro é definido previamente no contrato. No Kindle Unlimited, varia a cada mês, com a divisão de um fundo entre todas as obras "emprestadas" definindo o preço unitário.

"No Oyster e no Scridb, nossos autores ganham 60% do preço da venda", diz Coker. "O Kindle Unlimited não paga sob os mesmos termos, o que significa que os autores de livros mais caros vão ganhar menos em assinaturas do que nas vendas convencionais."

Spencer Platt/Getty Images
O Nook, da Barnes and Noble, concorrente do Kindle da Amazon

Autor dos digitais "O Jogo dos Papeletes Coloridos" e "O Centro do Universo", o escritor Paulo Santoro acha que entrar no Kindle Unlimited é mais atrativo no mercado norte-americano, dada a expressiva participação de mercado da Amazon.

"Se o novo serviço vingar, oferecerá ao livro uma vitrine gigantesca de exposição, sugerindo valer a pena a troca da porcentagem nas vendas das livrarias online pelo diminuito pagamento a cada streaming do livro", diz. "No Brasil, o volume operado não indica que poderia valer a pena num primeiro momento."

Degustação gratuita

Uma das vantagens do Kindle Unlimited e dos demais serviços de livros por assinatura é estimular os usuários a dar uma chance a obra de autores que não conhecem - arriscar e testar, afinal, não custará nada. "Os leitores não terão mais o peso de ter de decidir se o livro vale o investimento", explica Coker.

O estímulo também é visto com bons olhos por Tiago Ferro, sócio da editora brasileira de livros digitais e-galáxia. "Mas isto vai variar conforme o catálogo disponível. Se for muito completo, o autor iniciante terá que lutar contra os nomes estabelecidos. Se for incompleto, os leitores não se sentirão atraídos pelo produto. Resta saber para que lado vai o equilíbrio."

Ferro acha difícil opinar sobre se o Kindle Unlimited vingaria no Brasil, onde os e-books estão em alta: ainda que a participação de mercado seja pequena, de 2,3%, o faturamento subiu de R$ 3,8 milhões em 2012 para R$ 12,7 milhões em 2013, segundo dados divulgados na semana passada pela Câmara Brasileira do Livro.

"Não saberia avaliar um produto antes da sua chegada", diz Ferro. "Depende do modelo de negócios com autores e editoras, como será o catálogo, a facilidade do acesso e o preço para o leitor."

O superintendente da Melhoramentos concorda e acrescenta que, desde já, não vê o novo serviço da Amazon como ameaça. "Sou fornecedor de conteúdo. A mídia quem vai solicitar é o consumidor", afirma. "Se quiser e-book, vou fazer. Se quiser CD, vou fazer. Se quiser tabuinha de barro, vou descobrir como faz."

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