"Nunca vou me conformar com a proibição", diz biógrafo de Roberto Carlos

Por Luísa Pécora , iG São Paulo | - Atualizada às

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Ao iG, Paulo Cesar de Araújo diz que vai lutar pela liberação de livro confiscado em 2007 e comenta decisão do cantor de não agir contra nova obra: "Não foi mudança de posição"

O escritor Paulo Cesar de Araújo, 52 anos, disse ter recebido com naturalidade a notícia de que Roberto Carlos não tomará qualquer ação legal contra "O Réu e o Rei", livro no qual narra o episódio da proibição da biografia "Roberto Carlos em Detalhes", retirada das lojas em 2007 após disputa judicial.

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Roberto Carlos: "Ninguém vai contar a minha história melhor do que eu"

"Não teria cabimento reagir contra este livro e os advogados dele o convenceram disso. O contexto é outro. Ele não ia conseguir proibir mais nada", diz Araújo, em entrevista ao iG. "Foi isso que levou à decisão. Não foi uma mudança de posição. Se (Roberto Carlos) tivesse mudado de posição, liberaria o outro livro. Ele não mudou nada."

Roberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos em show no cruzeiro Emoções em Alto Mar 2014. Foto: Luísa Pécora/iGRoberto Carlos em show no cruzeiro Emoções em Alto Mar 2014. Foto: Luísa Pécora/iGRoberto Carlos em show no cruzeiro Emoções em Alto Mar 2014. Foto: Luísa Pécora/iGRoberto Carlos no show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: Photo Rio NewsRoberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos em show no cruzeiro Emoções em Alto Mar. Foto: DivulgaçãoRoberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos em show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsTom Cavalcanti em show de Roberto Carlos no cruzeiro. Foto: AgNewsRoberto Carlos no show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos no show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNewsRoberto Carlos no show 'Emoções em Alto Mar'. Foto: AgNews

Em nota divulgada à imprensa, o advogado do cantor, Marco Antonio Bezerra Campos disse que a decisão de não tomar qualquer ação judicial se deve ao fato de "O Réu e o Rei" não ser uma biografia de Roberto Carlos, "mas uma autobiografia do autor", e "ao contrário do livro anterior, não conter invasão de sua privacidade e/ou injúrias ou difamações".

Acrescentou que "Roberto Carlos em Detalhes” "não foi censurado ou apreendido, mas saiu do mercado em face de um acordo judicial, irrevogável e definitivo, assinado espontaneamente pelo autor do livro, o editor e a editora" - uma afirmação que Araújo volta a contestar no livro, narrando as desigualdades de defesa e acusação durante o processo e dizendo que o juiz responsável por julgar a ação chegou a tirar foto com o músico.

Se depender de Araújo, falta pouco para "Roberto Carlos em Detalhes" voltar às lojas. Ele diz esperar apenas a aprovação da lei que libera a publicação de biografias não autorizadas, já autorizada pela Câmara e agora nas mãos do Senado, para voltar à batalha judicial.

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Divulgação
O autor Paulo Cesar de Araújo

No ano passado, o debate sobre biografias pegou fogo quando artistas criaram o grupo Procure Saber para se manifestar contra a mudança da lei atual, que exige autorização dos biografados ou de seus herdeiros para a circulação da obra.

Roberto Carlos foi um dos fundadores do Procure Saber, mas depois abandonou o grupo. Em texto condenando as biografias não autorizadas, Chico Buarque disse que Araújo usara no livro sobre o Rei uma entrevista com ele que nunca tinha acontecido. Teve de pedir desculpas públicas quando o autor divulgou foto e vídeo do encontro com o músico.

Fã de Roberto Carlos desde a infância, Araújo diz conseguir separar a obra das polêmicas. "'Detalhes' não ficou feia porque ele me processou. 'As Curvas da Estrada de Santos' não deixou de me encantar", afirma. "O que faço é me defender. Roberto proibiu meu livro, fui me defender. Chico me atacou, fui lá procurar a entrevista. Mas isso não interfere na avaliação que eu possa fazer da obra. As músicas que gostava, continuo gostando e ouvindo."

Leia os principais trechos da entrevista:

iG: Como recebeu a notícia de Roberto Carlos não agirá contra o livro?
Paulo Cesar de Araújo: Com total naturalidade. Não teria cabimento reagir contra este livro e os advogados dele o convenceram disso. O contexto é outro. Ele não ia conseguir proibir mais nada. A questão foi essa. Eles constataram que a sociedade avançou, que o debate esclareceu muita gente.

iG: O debate do ano passado, sobre as biografias?
Araújo: O debate desses anos todos, mas principalmente o do ano passado. Os juízes estão mais esclarecidos, a aprovação da lei na Câmara indica que o contexto é outro. A mudança da lei é iminente, está para acontecer. Os advogados com certeza disseram: "Roberto, entrar agora num processo desse é causa perdida". Foi isso que levou à decisão. Não foi uma mudança de posição. Se (Roberto Carlos) tivesse mudado de posição, liberaria o outro livro. Ele não mudou nada. E na decisão eles dizem que este livro não tem invasão de privacidade ou difamação. Se não tem neste, tem muito menos no outro. E vou usar o texto desta decisão na minha peça de defesa. Porque eles estão dizendo que falar do Roberto Carlos não é invasão de privacidade. Então é uma afirmação de que meu livro não pode continuar proibido. A própria justificativa me dá elementos para buscar a liberação.

Reprodução
'Roberto Carlos em Detalhes' foi retirado das livrarias

iG: Então você vai tentar colocar o livro nas livrarias novamente?
Araújo: Estou só esperando a mudança da lei. E espero que não demore muito. Mudando a lei o contexto é outro, fica mais fácil.  Só lamento que ele próprio (Roberto Carlos) não tome a decisão que precisa ser tomada, que é liberar o outro livro e encerrar de vez esta pendência. Pena que ele não tenha tomado esta decisão, pena que insista que não foi proibição, que foi acordo de livre e espontânea vontade. Isto é uma piada.

iG: O que achou a afirmação do advogado de que "O Réu e o Rei" é uma autobiografia sua, e não uma biografia do Roberto Carlos?
Araújo: Meu livro é minha história, e como ele faz parte da minha história, falo dele. (Na decisão) ele reconhece que faz parte da minha vida. Ótimo. Ninguém é dono da história. História é construção coletiva. A minha está ligada à dele, a de milhões de pessoas está ligada à dele, a dele está ligada à de Tim Maia e Carlos Imperial. [No livro proibido] Não conto só a história dele, conto a história da música brasileira. Neste livro, uso a minha trajetória como fio condutor. A estrutura é a mesma. É uma história coletiva, com vários personagens. Não há grandes diferenças. Se é por este motivo que não proíbe o livro novo, então porque insistir na proibição do outro? 

iG: A editora chamou "O Réu e o Rei" de um livro "necessário". Concorda?
Araújo: Sem dúvida. Oportuno e necessário. É uma história que precisava ser de conhecimento das pessoas. E quem me disse isso foi o público. Desde a proibição participei de muitos debates e sempre alguém falava: "você não pensa em fazer um livro?" e "você precisa contar isso para os milhões de pessoas que não estão aqui". O próprio público foi me mostrando a necessidade. Comecei o livro em 2008. Foram cinco anos trabalhando.

iG: E você decidiu incluir o episódio do Chico Buarque.
Araújo: Exatamente. Quando estava quase acabando veio o Procure Saber, o Chico Buarque. E vi que ainda não podia lançar. Passei o fim do ano escrevendo e é a primeira vez que um livro aborda esse capítulo lamentável da história da música popular brasileira. É um registro histórico dessa luta por maior liberdade pública no Brasil. E eu sou só um narrador, um exemplo, o caso mais radical. Com a mudança da lei, todo livro vai ser liberado. Meu livro vai ser o último proibido no Brasil.

Reprodução/Arquivo pessoal
Chico Buarque e Paulo Cesar de Araújo, na foto divulgada pelo escritor

iG: Você guardou todas as suas entrevistas ou deu sorte de ter a do Chico?
Araújo: Guardei todas, por uma razão muito simples: não fazia entrevista para publicar no dia seguinte, como quem trabalha em jornal. Gravava porque fazia pensando em livros, pensando no futuro. Jamais pensava que teria que me defender de ataques. Nem nos meus piores pesadelos poderia pensar que o Chico Buarque ia falar que não me deu entrevista. Mas acho que o caso foi um aprendizado para muita gente. Acho que vão ter mais cuidado antes de fazer acusação pública sem checar primeiro. E bastava que o assessor tivesse me ligado e perguntado se houve entrevista. Mas não, já veio acusação, como se fosse verdade.

iG: Em "O Réu e o Rei", qual foi o capítulo mais difícil de escrever?
Araújo: O nono, sobre a audiência no Fórum Criminal, quando fiquei frente a frente com Roberto Carlos. Foi o primeiro que escrevi. Procurei fazer logo, quis lembrar as palavras dele. É o mais dramático, o mais difícil. Tem gente que diz sentir dor no estômago ao ler.

Divulgação
Capa do livro 'O Réu e o Rei'

iG: Ainda dói lembrar disso tudo?
Araújo: Claro. Tenho um livro ao qual me dediquei durante 15 anos, e que dediquei à minha filha. Ela tinha cinco anos na época. Hoje tem 12 e não vê o livro em lugar nenhum. Em casa só me restou um exemplar que está todo rabiscado, pelas anotações, correções. Como não ficaria triste com isso? É absurdo. Nunca vou me conformar com a proibição. A luta continua, e qualquer brecha jurídica que tiver, vou entrar.

iG: É verdade que os livros retirados das livrarias estão em um depósito?
Araújo: É. Ele (Roberto Carlos) pegou os livros para queimar, mas diante da reação da sociedade, não pôde. Mas estão lá em um depósito em Diadema: 11 mil livros.

iG: Você já tentou ir até lá?
Araújo: Não, mas o jornal "O Globo" tentou. Tinha um vigia, não conseguiram entrar. Quem conseguir vai ter um furo cultural: mostrar se os livros estão empilhados, molhados.

iG: Você disse algumas vezes que a probição teve a ver com a própria falta de leitura do Roberto Carlos, uma certa ignorância de achar que um livro pode ser proibido. Ainda acredita nisso, ou acha que foi mais uma questão de dinheiro?
Araújo: A questão financeira é preponderante. Mas no caso do Roberto, existe também a pouca intimidade dele com livros. Tanto que, em vez de ele ler, pede para o advogado ler. Ele não leu o primeiro livro e não leu esse. É baseado em relatório de advogado que ele toma decisão. Será que ele teria a mesma impressão do advogado? Não sei, ele não leu. Então tem isso: o fato de ele não ler o leva a tomar essas decisões, a querer queimar livro. Esse é um dos elementos. Mas ele tem essa coisa do dinheiro, e vem falando que o problema não é a privacidade, é o biógrafo negociar adaptações com cinema e televisão e ele não ganhar nada. É ele não participar. Ele tem essa obsessão compulsiva de querer controlar tudo.

AgNews
Roberto Carlos em entrevista no cruzeiro Emoções em Alto Mar; ele promete lançar autobiografia

iG: Depois de tudo isso, ainda consegue ser fã do Roberto Carlos?
Araújo: Todo mundo que escreve sobre música é fã de música. Ruy Castro é fã de bossa nova. Normal. Ninguém vai escrever sobre quem não gosta, passar anos ouvindo quem não gosta. Roberto Carlos foi meu objeto de estudo, como historiador. "Detalhes" não ficou feia porque ele me processou. "As Curvas da Estrada de Santos" não deixou de me encantar. As músicas continuam tendo o mesmo valor. E eu não briguei com o Roberto Carlos: ele brigou comigo. O que faço é me defender. Roberto proibiu meu livro, fui me defender. Chico me atacou, fui lá procurar a entrevista. Mas isso não interfere na avaliação que eu possa fazer da obra. As músicas que gostava, continuo gostando e ouvindo.

iG: Você pensa em escrever outros livros a partir da pesquisa sobre o Rei?
Araújo: Tenho 250 entrevistas e muita coisa ainda não usei. Tenho partes inéditas de entrevistas com Chico, Caetano, João Gilberto. Não tenho outro livro na cabeça, mas acho que no próximo farei algo mais geral, na linha de "Eu Não Sou Cachorro Não", sobre a moderna geração da MPB. Uma visão mais geral, não tão focada em uma pessoa só.

iG: Cansou das biografias?
Araújo: De jeito nenhum. Pretendo fazer outras, com certeza. Apenas não tenho um personagem definido. Mas este livro que penso em fazer pode me levar a ele. Ainda estou no meio do caminho. E estou pronto. Estou começando minha carreira agora.

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