"A história do Brasil precisa ser contada", diz Ivo Herzog no Flipoços 2014

Por Luísa Pécora , de Poços de Caldas (MG) |

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Filho do jornalista Vladimir Herzog participou de debate sobre os 50 anos do golpe no Festival Literário de Poços de Caldas

Um debate sobre o impacto da morte do jornalista Vladimir Herzog durante a ditadura militar foi um dos destaques da programação de sexta-feira (2) do Festival Literário de Poços de Caldas, o Flipoços, que acontece até domingo (4) na cidade mineira.

A discussão sobre Vlado Herzog, morto em 1975, durou cerca de duas horas e se encaixou em um dos temas do Flipoços deste ano: os 50 anos do golpe militar.

Mais: Ferreira Gullar e Adélia Prado são destaques do Flipoços 2014

Luísa Pécora/iG
Audálio Dantas, Ivo Herzog, Paulo Werneck e Alberto Villas no Flipoços 2014

O jornalista Paulo Werneck mediou o debate, que contou com a participação dos também jornalistas Alberto Villas e Audálio Dantas (este premiado com o Jabuti pelo livro "As Duas Guerras de Vlado Herzog") e do filho de Vlado, Ivo Herzog, que tinha nove anos quando o pai foi morto.

Infográfico: Os 50 anos do golpe militar

Dantas afirmou que o episódio mudou a ditadura para sempre. "Até então os assassinatos que aconteciam nas prisões, nos confrontos, na calada da noite, não chegavam às pessoas", afirmou, lembrando que outros 21 jornalistas tinham sido assassinados antes de Vlado. "A morte de Herzog contribuiu para que o País percebesse que era preciso reagir de alguma forma contra o regime militar."

Acervo do Sindicato dos Jornalistas
O jornalista Vladimir Herzog

Debatedor mais contundente da noite, Ivo Herzog contou suas lembranças da época, como o velório e o ato ecumênico que se seguiram à morte do pai.

Falou, também, sobre a luta de 38 anos para que o atestado de óbito que indicava suicídio fosse corrigido - algo que ele e a família conseguiram apenas em 2013. 

"Isso (buscar a alteração) não é revanchismo, é reconciliação. É tapar feridas que estão abertas", afirmou. "O Brasil não cuida de suas feridas."

Para ele, a violência policial vista nas manifestações do ano passado é um resquício da ditadura, e outras questões do passado brasileiro, como a escravidão e o massacre contra índios, não foram abordadas corretamente.

"O que estamos falando aqui não é aula de história, é aula de presente. A maneira como tratamos isso lá trás explica o motivo de termos uma sociedade violenta e intolerante", disse. "A história do Brasl precisa ser contada. Ela nunca foi contada."

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Dantas citou as dificuldades de conseguir acesso a documentos sobre o período militar mesmo em tempos de Comissão da Verdade, e cobrou interferência dos presidentes.

"Nenhum dos governos democráticos depois da ditadura teve coragem de impôr a autoridade sobre os militares que o sistema republicano confere", disse. "Os documentos mais importantes foram subtraídos, não estão no Arquivo Nacional."

Em sua nona edição, o Flipoços também tem como tema a cultura popular na arte e na literatura. Neste sábado (3), o principal destaque da programação é a palestra da escritora Adélia Prado, às 20h. A entrada para todas as atrações é gratuita.

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