As licenças poéticas do jornalista Gabriel García Márquez

Por BBC Brasil |

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Exageros e invenções estão presentes nas reportagens feitas pelo escritor; é um fenômeno que se enquadra no que chamamos de realismo mágico

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Em 1954, o jornal colombiano El Espectador envia um de seus jovens jornalistas, Gabriel García Márquez, para cobrir um grande protesto contra o governo na remota cidade de Quibdó, no estado de Chocó.

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No dia de seu aniversário (06/03/2014), Gabriel García Márquez cumprimenta fãs do lado de fora de sua casa na Cidade do México. Foto: APGabriel García Márquez e a cineasta espanhola Pila Miró (2012). Foto: Getty ImagesO escritor Gabriel García Márquez (2012). Foto: Getty ImagesGabriel García Márquez na inauguração do museu Soumaya na Cidade do México, com Carlos Slim (esq) e Evelyn de Rothschild (17/04/2011). Foto: APGabriel García Márquez e o autor mexicano Carlos Fuentes, em evento na Cidade do México (18/11/2008). Foto: APGabriel García Márquez mostra a língua para fotógrafos em Aracataca, sua cidade natal, ao lado da mulher, Mercedes Barcha (30/03/2007). Foto: APO escritor Gabriel García Márquez e o então presidente em exercício de Cuba, Raúl Castro, em Havana (02/12/2006). Foto: APGabriel García Márquez conversa com o diretor Roman Polanski em Havana (13/12/2002). Foto: APGabriel García Márquez e Fidel Castro conversam durante jantar em Havana (03/03/2000)
. Foto: APGabriel García Márquez encontra o líder palestino Yasser Arafat em Cartagena, na Colômbia (20/10/1995). Foto: APGabriel García Márquez recebe o Nobel da Paz em Estocolmo, na Suécia (08/12/1982) . Foto: APO escritor Gabriel García Márquez, em foto sem data. Foto: Divulgação

Após dois dias viajando na selva, García Márquez e seu fotógrafo chegam finalmente a seu destino e têm uma surpresa: a cidade de Quibdó está completamente calma. O correspondente local do El Espectador, Primo Guerrero, havia inventado fatos que narrou para a redação em Bogotá.

Ou seja, García Márquez percebeu que os protestos não ocorreram. Diante do panorama, o jovem jornalista diz a Guerrero que não quer voltar para a capital de mãos vazias. Os dois fazem um acordo e, "com tambores e sirenes", convocam e organizam um protesto para escrever a reportagem e tirar as fotos.

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A matéria é publicada no El Espectador com o título História íntima de uma manifestação de 400 horas e, nela, García Marquez afirma que o protesto durou 13 dias, "nove dos quais choveu de forma implacável".

A reportagem dizia que, sob a chuva, os manifestantes choravam e se lavavam na via pública.

Anos mais tarde, ao se lembrar do episódio, em uma entrevista com o jornalista Daniel Samper, o escritor confessou: "inventávamos cada notícia..."

O realismo mágico

Uma das características dos romances de García Márquez era sua capacidade de inventar uma "realidade que transborda", segundo escreveu o crítico Claudio Guillén. E isso está relacionado, em parte, com o uso da hipérbole, o exagero.

"O quanto é comum o exagero no jornalismo de García Márquez?" Para minha tese de doutorado, estudei a promíscua relação entre o jornalismo e a literatura na América Latina.

No caso de García Marquez, é possível detectar exageros e invenções em diferentes etapas de seu jornalismo. Em alguns momentos, esses exageros e invenções estão presentes de uma forma abundante e aberta e, em outras, de forma dosada e velada. Este é um fenômeno que se enquadra no que chamamos de realismo mágico de García Márquez.

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, em seu livro História de um Deicídio, documenta a invenção que García Márquez fez do protesto em Quibdó e disse que era parte de sua personalidade aventureira e sua satisfação pelos feitos e pelos personagens inusitados.

Segundo Vargas Llosa, "o que seduzia" García Márquez no jornalismo não eram as páginas editoriais, mas o trabalho da reportagem "que se mobiliza para encontrar a notícia e, se não a encontra, a inventa".

O poeta inexistente

O crítico Raymond Williams afirma que muitos dos textos jornalísticos de García Márquez são "anedotas ficcionais".

Em 1948, o autor colombiano dedicou uma coluna de jornal ao poeta César Guerra Valdés na qual contava sobre quando ele visitou a redação do El Universal, de Cartagena, onde Márquez trabalhava.

Márquez elogiou o poeta e argumentou que ele era "autor de cinco livros fundamentais" e "um dos grandes revolucionários estéticos" da América Latina. A coluna ressaltava o calor das palavras do poeta e dizia que, apesar de passar desapercebido localmente, o escritor estaria provocando uma renovação na literatura latino-americana.

Entretanto, muitos críticos confirmaram que o poeta César Guerra Valdés nunca existiu.

Mais tarde, trabalhando no jornal El Heraldo de Barranquilla, García Márquez começa a publicar reportagens sobre a vida e os milagres de uma extravagante marquesa alemã, cujo marido havia ordenado o assassinato diversas vezes. Em uma de suas colunas, Márquez recria uma conversa fictícia com a alemã e, no diálogo, diz que todos os seus personagens são "imaginários".

Inventar um pouquinho

Entrevistei para minha tese Jaime Abello Banfi, diretor geral da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI), a escola de jornalismo com sede em Cartagena das Índias fundada por García Márquez, em 1994.

Alberto Banfi afirma que há um discurso dúbio nos círculos jornalísticos e literários, já que, por um lado, a posição oficial dos manuais e convenções jornalísticas proíbe a inclusão de dados falsos nos textos de imprensa.

Entretanto, na prática nota-se como os grandes escritores usam licenças poéticas quando escrevem textos jornalísticos.

Em seu contato com García Márquez e com escritores como Tomás Eloy Matínez e Ryzard Kapuscinski, Alberto Banfi diz que eles admitiram ter inventado ocasionalmente em suas reportagens. Eles o fazem de uma maneira dosada, de uma forma que os leitores "não se dão conta".

Isso sim é um reconhecimento de que o terreno entre a ficção e a não ficção é um campo movediço, cuja instabilidade aumentou ainda mais com as novas tecnologias, como a internet.

Zigue-zague histórico

A relação porosa entre a ficção e a não ficção na América Latina não é um fenômeno novo. Márquez é parte de uma tradição latino-americana de escritores que ziguezagueiam entre a produção de notícias e contos, romances e poemas.

As trocas nos dois sentidos são comuns.

O crítico Aníbal González explica como na América Latina, em diferentes épocas, a literatura e o jornalismo têm adotado estratégias de dissimulação e imitação mútuas para evitar a censura perante a vigilância da lei, da religião e do Estado.

Um exemplo de jornalista e escritor, uma figura literária que Roland Barthes chama de 'escrita-escritor', é o primeiro romancista latino-americano José Joaquín Fernández de Lizardi.

Ele publicou em 1816, no México, El Periquillo Sarniento, considerado o primeiro romance latino-americano ao mesmo tempo em que editava o jornal O Pensador mexicano.

Desde então a lista de jornalistas escritores tem nomes como José Martí, Rubén Darío, Lima Barreto, José Marín Cañas, Roberto Arlt, Jorge Amado e Tomás Eloy Martínez, apenas para dar uns poucos exemplos.

E aqui me refiro a escritores que trabalharam em tempo integral nas redações.

Porque, se fizer uma lista de escritores latino-americanos que publicaram em jornais, teria que incluir praticamente todos.

*Néfer Muñoz é um jornalista da Costa Rica com doutorado em literatura na Universidade de Harvard. O título de sua tese é “Romanceando o jornal e reportando o romance na América Latina”.

Veja a trajetória jornalística de García Marquez:

El Universal, de Cartagena - Em 1948, o jornalista publica no jornal suas primeiras reportagens e ganha sua primeira coluna, Punto y Aparte.

El Heraldo, de Barranquilla - Em 1950, passa a editar notícias internacionais e publica sua famosa coluna La Jirafa, nome inspirado na namorada, Mercedes Barcha, com quem se casaria mais tarde.

Crónica - Revista de reportagens e crônicas esportivas, que escreve com amigos do Grupo de Barranquilla.

Comprimido - O periódico foi criado para ser "o menor jornal do mundo". Foi um dos mais breves - durou apenas seis dias.

El Espectador, de Bogotá - no segundo maior jornal colombiano, o escritor publica em capítulos a grande reportagem Relato de um Naufrágo, em 1955. O texto teve grande repercussão política, motivando o exílio do escritor, que é enviado como correspondente à Europa.

Momento, da Venezuela - Na revista, García Márquez passa a experimentar. Segundo o argentino Tomás Eloy Martínez, nesse momento nasceu um "novo jornalismo" literário na América Latina.

Prensa Latina, de Cuba - O escritor passa a trabalhar na agência de notícias do governo cubano logo após a Revolução, tornando-se amigo pessoal de Fidel Castro.

Cambio, da Colômbia - última revista onde García Márquez escreveu crônicas jornalísticas.

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