O futuro do jornalismo está na velha contação de histórias

Por Aline Viana |

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Bruno Torturra, Fred Melo Paiva e Leandro Sarmatz defendem que o novo jornalismo está sendo gestado nesse exato momento

Contra o pessimismo dos empresários da imprensa e de boa parte dos jornalistas, Bruno Torturra, do Mídia Ninja, Fred Melo Paiva, do programa O Infiltrado e Leandro Sarmatz, escritor e também jornalista, afirmaram na mesa “Laertevisão – o novo jornalismo”, da Balada Literária, acreditar que o jornalismo sobreviverá à crise por meio da radicalização de suas próprias características. “Quando se fala em jornalismo acho que só existe um, não ‘o pós’ ou ‘o pré’. O que está sendo posto em cheque é o modelo de negócios – o que convida à reflexão e que (propõe que se) aprofunde os temas do nosso tempo. O bom jornalismo é ‘pré’, ‘pós’ e ‘neo’. Ao passo que, embora ainda não tenha uma solução formal e econômica (para o jornalismo atual), esse é um momento de adolescência (do jornalismo): a voz está meio desafinada, os instintos estão meio desordenados”, analisou Sarmatz.

Divulgação
Fred Melo Paiva, Leandro Sarmats e Bruno Torturra durante a Balada Literária 2013, que aconteceu nesta sexta-feira (22), na Livraria da Vila

“Sempre tive interesse na junção entre ficção e a não ficção”, comentou Paiva ao explicar sua decisão de trocar, no início da carreira o trabalho na revista Veja pela Trip e sua atuação posterior no caderno Aliás, de O Estado de S. Paulo. Para ele, o programa O Infiltrado é uma consequência daquelas experiências: “O programa tem uma estrutura dramatúrgica clara. No princípio do programa, por exemplo, eu anuncio que vou conhecer os evangélicos para tentar abrir uma igreja porque isso vai me gerar conflitos. Como eu vou abrir uma igreja se eu sou ateu? Isso vai gerar conflitos até um ápice e, no caso, eu desisto porque não consigo ter fé”, exemplificou.

Já Torturra contou à plateia que conheceu o movimento Fora do Eixo em 2011 após cobrir a marcha pela legalização da maconha em São Paulo. Na ocasião, segundo Torturra, os manifestantes sofreram uma forte repressão policial e a cobertura da mídia foi feita à distância, sem a presença de outros jornalistas acompanhando o evento, com notícias onde havia apenas a versão da polícia dos fatos. Essa observação fez com que ele se questionasse sobre a necessidade de uma cobertura imediata e que se comunicasse diretamente com o público. Logo, ele se aproximou dos militantes do Fora do Eixo e na próxima manifestação, uma semana depois, ele fez a primeira transmissão em streaming com seis horas de duração. “Noventa mil pessoas haviam visto, foi só pela viralização, foi só pelo Twitter, que as pessoas ficaram sabendo. No dia seguinte percebemos que tínhamos uma bomba na mão, tínhamos um canal de tv de graça”, analisou.

Dois anos depois houve o estouro nas manifestações em junho deste ano, porém, enquanto a grande imprensa identificava um possível novo jornalismo, o público fez uma outra leitura: “As pessoas entenderam que aquilo era muito mais uma estética do que um veículo: daí centenas de pessoas começaram a fazer suas páginas no Facebook como ‘Mídia Ninja Santos’, ‘Mídia Ninja Londres’, etc. Houve a ‘Mídia Negra’, um dos nossos ‘rivais’. Eu estava cobrindo a chegada do papa em Copacabana e vi um cara falando com um celular, quando fui perguntar quem ele era, ele se disse que era do ‘black ninja’. Isso mudou com a entrevista no Roda Viva, quando a gente deu uma cara para o movimento”. Com cerca de 100 repórteres ativos e 220 mil potenciais “mídias ninjas” (o número de pessoas que curtem a fanpage do Mídia Ninja no Facebook), Torturra afirma ter se surpreendido com as consequências que o movimento gerou no auge das manifestações de junho. “Não foi pensado a perda de controle porque a gente nunca quis ter um chefe, um editor… Mas junho foi junho, não tinha como poder controlar nada: o MPL (Movimento Passe Livre) perdeu o controle, a Dilma perdeu o controle”, concluiu.

Torturra respondeu a uma pergunta da audiência sobre o fato de a academia e a mídia tradicional acusarem o Mídia Ninja de não preservar a objetividade jornalística e produzir conteúdo sem aprofundamento: “O jornalismo aprofundado é uma coisa que pouco jornalista está fazendo hoje. Não estou falando que o jornalismo tenha que ser imediatista, mas que ele pode ser. Eu não faço questão de ser jornalista, faço questão de participar dessa discussão que deixa muito jornalista muito enciumado: acabou a primazia do veículo como última instância que poderia pautar a realidade”.

Paiva acrescentou: “Acho que esse lance de ficar definindo o que é jornalismo uma loucura. Se eu definir o Infiltrado como jornalismo ele fica de fora da lei que haja 30% de programação nacional na tv paga, então tivemos que defini-lo como entretenimento. E não importa: ele é uma boa contação de história baseado em não ficção. Acho engraçado falar em aprofundamento, onde tem isso hoje? Talvez na Piauí. E quando caiu o muro de Berlim? Foi imediato e aquilo era jornalismo. Eu fui para a Trip porque era interessante e acho que é isso que o jornalismo deve mirar: ver histórias interessantes e passa-las para frente, como as pessoas vão chamar isso não importa muito”.

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